terça-feira, dezembro 15, 2009

EPR... EHR ... Health IT...
Arquivos Médicos

Expressões como Health IT (Health Information Tecnology), EPR (Electronic Patient Records) e EHR (Electronic Health Records) há algum tempo têm ganhado espaço na mídia especializada e nas rodas de discussão, tanto tecnológicas como da área de saúde e da informação. A tendência é essa, eliminar papel, tornar tudo digital, encurtar distâncias, agilizar processos operacionais e decisórios, cortar custos... Resumo o que penso no fim desta curta postagem.

São bilhões de dólares em projetos grandiosos, nos EUA e na Inglaterra que visam estimular a criação de um sistema integrado de informação em saúde. Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que tantas empresas inundem o mercado com opções de sistemas computacionais, programas e infraestrutura, das mais diversas e apresentadas como solução. Afinal, quem não quer uma fatia desse bolo bilionário?

Tenho acompanhado muito menos do que gostaria, mas pelo pouco que tenho pesquisado e lido, surge a impressão de que a "novidade" está sofrendo derrota. Mas não de todo. As discussões e as polêmicas são importantes para que, o que quer que venha a surgir disso tudo, seja algo positivo.

Foi publicado ontem um artigo que pode ser importante para a analisa e compreensão da situação atual. Trata-se de Tensions and Paradoxes in Electronic Patient Record Research (Tensões e Paradoxosos na Pesquisa sobre Arquivos Médicos), resultado do estudo da professora Trisha Greenhalgh do University College London. Conclusões da pesquisa:

Conclusions: The findings suggest that EPR use will always require human input to recontextualize knowledge; that even though secondary work (audit, research, billing) may be made more efficient by the EPR, primary clinical work may be made less efficient; that paper may offer a unique degree of ecological flexibility; and that smaller EPR systems may sometimes be more efficient and effective than larger ones. We suggest an agenda for further research.

Conclusões: Os resultados sugerem que o uso de EPR sempre exigirá ação humana para recontextualizar o conhecimento; que, embora o trabalho secundário (auditoria, pesquisa, faturamento) possa ser mais eficiente com o EPR, o trabalho clínico primário pode ser menos eficiente; que o papel pode oferecer um grau de flexibilidade ecológica único; e que a implantação de sistemas de EPR locais às vezes podem ser mais eficientes e eficazes do que as mais globais. Sugerimos uma agenda para futuras pesquisas.


Leia o artigo na íntegra clicando aqui (em inglês)


Em minha monografia de conclusão de curso, fiz um estudo de caso sobre a situação arquivística em meu ambiente de trabalho. Algo que procurei obordar foi a importância do fator humano quando se trata do gerenciamento de informações, da gestão de arquivos. O estudo da professora parece corroborar esse aspecto. Planejar um sistema com o intuito de beneficiar o ser humano, mas sem envolvê-lo de fato, é no mínimo uma incoerência. Vemos ainda que o papel está cada vez mais presente como mídia em nosso cotidiano, "suportando" nossas informações. Aparentemente, quanto mais nos digitalizamos, mas papel usamos no processo. Por fim, pensar grande neste caso parece ser um erro. Projetos menores, pontuais, se tornam mais simples de serem implantados, acompanhados, analisados, observados. E corrigidos. O velho ditado "quanto mais alto, mas dura é a queda" é bem oportuno.

Ah, o resumo do que penso... As discussões, a política, o processo e os projetos em torno dos Arquivos Médicos giram em torno de aspectos informáticos, financeiros e tecnológicos. Penso que o ideal fosse uma abordagem mais informacional, social/humana, e arquivística. Talvez eu pense demais. Talvez não.

domingo, dezembro 13, 2009

Racismo: uma confusão semântica?

É aquela velha história: a polícia prende e a “justiça” solta. Listo o nome deles (Está publicizado - clique aqui- eu uso): Emílio Pechulo Ederson (Belém/PA) e com 20 anos, Felipe Grion Trevisani (Campinas/SP), de 21, Abrahão Afiune Júnior (Ribeirão Preto), de 19 aninhos.

São estudantes de medicina de uma faculdade particular de Ribeirão Preto. Foram presos e soltos. Leia aqui. Irei me referir aos acusados seguindo a mesma maneira tendenciosa e preconceituosa da mídia em casos similares, isto é, onde os criminosos - do sexo masculino, adolescente ou pós-adolescente - fogem ao estereótipo “esperado” do praticante de delito: eu os chamarei de “jovens”. Poderia também chamá-los de “universitários”. Sempre algo respeitoso, adequado, leve.

Pois bem, resumindo a história: “Os três jovens estavam em um carro e enrolaram o tapete do veículo para bater nas costas da vítima, que caiu no chão. Testemunhas que estavam em um posto de combustíveis chamaram a polícia, que prendeu o trio.” Fonte: O Globo Online.

Se prestarem atenção nas reportagens dos jornais e outras mídias que divulgaram o caso, talvez um detalhe passe despercebido. Mas isso me intrigou, embora tenha plena consciência de que deve haver alguma “desculpa legal” (ou logística, ou sorte, ou... sei lá) que justifique. O juiz que concedeu a liberdade aos jovens, aceitando a alegação da defesa de que não houve agressão nem a conotação racial para que os três jovens ficassem presos, meritíssimo Ricardo Braga Monte Serrat (o sobrenome é aqui apresentado como grafado no site do Tribunal de Justiça de São Paulo, embora a mídia esteja usando Montesserat), da 1ª Vara da Família e das Sucessões de Ribeirão Preto. Isso mesmo, um juiz da Vara da Família. Teria ele competência para isso? Provavelmente sim. Afinal, juiz é juiz! Mas o que a lei diz sobre competência de um Juiz da Vara de Família? Vamos à Lei nº 11.697, de 13 de Junho de 2008. Bem recente. Veja lá. Artigo 27. O tema é rico, vamos pra outra…

A ciência biológica, com o desenvolvimento da pesquisa genética, deixou claro: não existem raças. Logo, não existe racismo, racista. Logo, cota racial é uma insanidade e vai acabar gerando um conflito de... raças… que não existe no Brasil, que é um paraíso… racial. Afinal de contas é preciso que todos entendam que somos uma raça apenas: a humana. Que lindo!

Aí que penso estar todo o problema. Ficar defendendo a existência de outro conceito de raça, o sociológico, cansa e não está levando ninguém a lugar algum. Além de começar a ficar repetitivo assim como o mantra “não existem raças… somos todos da raça humana”.

Por isso é preciso trabalhar mais o assunto. Talvez semanticamente. Criticando os conceitos, analisando, quebrando e refazendo as palavras e expressões, comparando, fazendo analogias… Se não conseguimos nada, pelo menos se cria alguma confusão, algum desconforto.

A primeira coisa que venho pensando é sobre a palavra “racismo”. Como a questão está mais relacionada à cor da pele, poderíamos usar isso. Mantemos apenas o sufixo ISMO e passemos a usar COR como radical. Com isso, poderíamos dizer que os jovens cometeram corismo. É um tanto ridículo, mas talvez o neologismo acalme os corações dos que não aprovam a outra expressão. E também, quem sabe, ajude juízes e outras autoridades na interpretação das ocorrências.

A segunda coisa que me vêm à mente está relacionada ao mantra “não existem raças… somos todos da raça humana”. Vocês leram a descrição do ato que fez com que os jovens fossem parar no xilindró. Segundo a polícia, ainda gritaram "toma nego!" ao agredirem, com o tapete de borracha do carro enrolado, o auxiliar de serviços Geraldo Garcia, quando este andava de bicicleta a caminho do trabalho. Pois bem, vocês enxergam alguma humanidade nesse ato? Ok, o ser humano é capaz de atos dos mais horrendos. Mas, por um momento, vamos pensar ou considerar o “humano” no sentido adjetivado de humanitário.

Nesse sentido, se bem me entenderam, os jovens não se enquadram na categoria de seres humanos, não são da raça humana. Emilinho, Felipinho e Juninho são bichos (que me desculpem os animais).

São três bichos privilegiados que, por sua [e de seus “donos”] condição social e financeira, podem agredir seres humanos e serem liberados pela “justiça” para que voltem para suas famílias, onde são bem criados.

Para finalizar, e considerando que os jovens bichos cursam medicina (sic), duas belas passagens do Capítulo I [Princípios Fundamentais] que constam do atual Código de Ética Médica. Será que os jovens já leram? Será que os bichos sabem ler?

Art. 1° - A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade (…)

E o melhor

Art. 6° - O médico deve guardar absoluto respeito pela vida humana (…)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Projeto de Lei to Ato Médico

Está em tramitação no Senado um projeto de lei que dispõe sobre o exercício da Medicina. Trata-se da PLS 268/2002 de autoria do Senador Benício Parente de Sampaio. O texto completo pode ser lido aqui. O parecer da casa, aqui. Na página do Senado existe uma enquete sobre o tema que, até o momento deste post, havia registrado pouco mais de 140 mil votos, estando praticamente empatados aqueles contrários e os que apoiam a lei.

Adianto que votei contra. Basicamente pelo ítem I do artigo 5° desse PLS.

Art. 5º São privativos de médico:
I – direção e chefia de serviços médicos;

Até que alguns médicos aprendam a olhar o paciente como um ser humano, aprenda a exercer sua linda profissão com humanidade, consciente de sua importância, responsabilidade e dever, não poderão ter exclusividade na chefia ou direção de tais serviços. Essa é minha opiniçao.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Informática e Informação: o acesso e o uso

Há poucos dias estive numa lan house, creio que pela terceira vez na vida. Apesar de focado num objetivo (pesquisa e impressão de legislação), não pude deixar de notar algo curioso, embora não tenha me surpreendido. O responsável pelo local, um rapaz com seus 17 ou 18 anos teve clara dificuldade em processos simples e primários de informática.

Utilização de e-mail online, impressão, utilização de múltiplas guias no navegador, abertura de arquivo, associação de arquivos com programas específicos. Foram muitas as situações naqueles poucos minutos, mas serviram para demonstrar a difícil relação entre o acesso e o uso de recursos informáticos.

Conheço pessoas que tiveram acesso a essa cobiçada e sonhada tecnologia quando para mim era apenas um sonho, e essas mesmas pessoas hoje têm dificuldade em operações simples como redigir um documento ou pesquisar na Internet.

Eu também aplaudo a tão aplaudida democratização da informática. A aparente estabilidade econômica e o preço de um computador básico hoje permitem que mais e mais pessoas usufruam desse bem de consumo [a propósito, leiam post recente]. Mas me parece que o fato de possuir esse "aparelho" não é garantia de nada. Quando muito de status (oh, eu tenho um micro em casa!). Me faz lembrar o termo Analfabetismo funcional.

Mas a questão também me chama atenção como Arquivista, pois posso traçar um paralelo entre o acesso e uso de recursos informáticos com o acesso e o uso da informação.

Se o acesso às informações públicas é condição para o exercício pleno da cidadania, nem sempre o puro acesso garante tal direito. Se o [bom] uso da informação não estiver consolidado, o exercício da cidadania também não o estará.

Aí entra a educação. Sem uma política educacional que vise realmente a democracia, a liberdade, o pensamento crítico, não existirá cidadão preparado para viver democraticamente, em liberdade e com visão crítica de sua realidade, podendo, então, exercer sua cidadania.

Com certeza isso não interessa aos "mandatários" da nação. Imaginem se cada brasileiro tivesse o nível de educação (notem que não falo de escolaridade) que descrevi acima.

Dezenas de milhões de pessoas cônscias de seus direitos e deveres. É o pior pesadelo dos políticos!

Por isso não podemos dissociar o acesso do uso. Tanto em termos informáticos (tecnologia) como informacionais (para cidadania).

Na história temos experiências que comprovam meu raciocínio. Analisemos o que ocorreu no continente africano. Além da política de dividir para dominar, aplicada pelos colonizadores europeus, houve outra forma de subjugação. O aparato burocratico imposto pelo colonizador, modelado numa realidade totalmente diferente, com bagagem cultural diferente, foi conduzido (comandado) não por africanos. Embora muitos africanos, ao longo daqueles anos, trabalhassem nos órgão de controle e diretamente ligados a esse "modelo de gestão européia", a cultura e a filosofia daquela gestão não era africana, tampouco o comando de fato.

Com isso, quando começou o processo de descolonização, além de nações artificialmente criadas e destruídas por anos de exploração, os colonizadores deixaram de herança um modelo de gestão exótico, um aparato burocrático estranho. E para o qual muitos africanos, apesar de executarem tarefas naquele ambiente, muito provavelmente não estavam de fato preparados. Isto é, a tecnologia estava em suas mãos (acesso), mas a operacionalidade de tal tecnologia, considerados os aspectos intrínsicos e extrínsicos ao Continente Africano, não estava consolidada (uso). Deu no que deu.


Paguei cinquenta centavos por meia hora e um real por cada folha impressa. Pelas dicas de informática eu não cobrei nada. Acessei e usei.

A propósito...

Veja o inciso XXXIII artigo 5° da Constituição Federal clicando
aqui
E a Lei 11.111 que o regulamenta, aqui.
Além disso temos o Projeto de Lei nº 5228/09 que visa regulamentar o acesso,
aqui.
Dia Nacional do Samba


José Flores de Jesus

Um homem de opinião. Um grande sambista. Viva Zé Keti.

domingo, novembro 29, 2009

Me lembrei do poço

Até há alguns anos eu, minha mãe e minhas irmãs morávamos numa casa deixada por uma tia-avó em Mesquita. Na origem, o local era uma única residência, construída por minha avó. Mas foi desmembrada de modo a abrigar várias pessoas de minha família.

Hoje, totalmente descaracterizado, o lugar pouco guarda do que foi antes. Um item ficou. O poço. Na verdade uma espécie de mina d'água, usada para diversos fins e, mesmo antes da escassez que se acentua hoje na localidade, já tinha sua importância.

Infelizmente, meus familiares não se davam conta disso. E o abandono daquele ponto especial me entristecia. Mesmo após ter saído de casa, quando retornava em visita sempre me dirigia à parte dos fundos para ver como estava o poço e a área ao redor. Me doía ver tudo alagado, com lodo e lixo.

A ação era automática. Pegava vassoura para limpar a área e, com um balde, diminuía o nível da água no poço, de modo a permitir uma renovação daquele bem tão precioso. Além de renovar a água, o esvaziamento beneficiava o terreno, uma vez que diminuía a infiltração nas casas. Garantindo uma maior estabilidade da estrutura das construções, evitava mofo nas paredes e móveis. A limpeza do quintal evitava acidentes, os escorregões no lodo acumulado, tropeções em madeiras, pedras, lixo... Também contribuía para combater e diminuir a incidência de mosquitos, ratos, lacraias, baratas... Contribuía assim para a saúde, não apenas dos moradores das casas ao redor do poço, mas dos vizinhos.

Tentei instigar nas crianças, meus primos mais novos e minha irmã, a importância daquilo tudo. Tentei.

Enquanto o poço era deixado de lado, festas aconteciam, utilitários domésticos de valor considerado eram comprados, computadores, televisões, móveis... E a estrutura local se deteriorava cada vez mais.

Não pensem que não vejo importância em itens de consumo como os citados acima. Tenho meu computador, gosto de assistir televisão, considero importante o conforto com mobiliário bom, gosto de festas. Mas não posso deixar de relativizar essa tal importância. É mais ou menos como você ter uma mesa de madeira, com pregos enferrujados aparentes, cheia de cupins, quase caindo, oferecendo risco de acidentes a cada utilização e, mesmo com isso tudo, você compra a mais bela e cara toalha de seda para forrá-la. Uma ilusão.

A perniciosidade contida nessa visão fantasiosa e deturpada do que é bom, do que é importante, não se reflete apenas dentro dos muros da casa. Se reflete em toda a sociedade, por exemplo, em tempos de eleição quando programas de saneamento e educação são preteridas por promessas de festas, bolsas disso e daquilo...

É uma espécie de imediatismo cego que - embora consequência [a meu ver] de toda a política de ignorância e manutenção de desigualdades conduzidas ao longo de séculos -chega a ser egoísta. Pois, se eu penso em deixar a superfície da mesa bonita para um momento, não estou me preocupando se a mesa pode prejudicar alguém mais tarde.

Toda essa exposição confusa de idéias que tenho como certas e credíveis em minha mente, em meu caráter, surge e é apresentada por consequência de um programa que assisti recentemente. O vídeo, postado abaixo (se preferirem a página do progrma, cliquem aqui), é auto-explicativo, mas gostaria que prestassem atenção ao ambiente e estrutura da casa apresentada e alguns objetos de consumo presentes da residência.

Não direciono minha indignação às pessoas do programa. Isso já o fiz em âmbito familiar, travando minha própria luta. Minha intenção aqui é lançar um olhar crítico no que nos é apresentado, no que vemos, vivemos e fazemos. E, é claro, gerar pelo menos uma reflexão.

Quanto ao poço… não tenho notícias, mas tenho saudades.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Nós, os outros

Ontem, sentado no ônibus voltando do trabalho para casa, ao olhar pela janela vi duas meninas sentadas no último banco do coletivo ao lado. Elas se beijavam. Com sorrisos nervosos, tentando se esconderem de quaisquer olhares, tentando refrear o impulso que as empurrava uma para outra. Como se estivessem a cometer um crime ou uma travessura, elas tentavam, também, ocultar aquele ato de afeto.

Tenho muitos preconceitos. E reconheço que o primeiro pensamento ao ver a demonstração de carinho e desejo entre dois seres humanos do mesmo sexo não foi dos mais nobres.

Nessa mesma semana, estava conversando com uma amiga sobre a estranheza que nos toma conta diante de uma situação que deveria ser simples e natural. Temos amigos e amigas gays – que prezamos e respeitamos – e, mesmo assim, não conseguimos agir com naturalidade diante do que é natural para tais amigos e amigas. E, mais ainda, quando o natural se manifesta em desconhecidos.

Durante essa conversa eu disse algo que irei repetir aqui, talvez como forma de um exercício a ser praticado não apenas por mim. Eu disse: “Sou heterossexual e manifesto minha sexualidade, minha orientação sexual, dentre outras formas simples e naturais, beijando minha mulher, andando de mãos dadas com ela, abraçando-a… Como seria se não me fosse permitido expressar essa sexualidade em público?

É como o enredo do filme A cor da fúria, estrelado por John Travolta e Harry Belafonte. Para quem não sabe, o filme é de 1995 e se passa numa sociedade estadunidense onde a questão racial (de cor da pele) é invertida. Os negros ocupam as camadas mais altas da pirâmide social, com todos os benefícios e privilégios, e os brancos são relegados às bases, sofrendo todo tipo de preconceito e discriminação. Uma paralaxe conceitual interessante. Faz refletir. Trazendo para o caso aqui abordado, ao invés da questão da cor da pele (e das questões sociais inerentes), imagine se inversão estivesse na orientação sexual.

Estaria eu levantando a bandeira GLBT ou algo do tipo? Não necessariamente. Levanto a bandeira da humanidade, do respeito, da tolerância e da coerência. Para mim e para todos.
A continuidade da web e o acesso à informação

Em Março deste ano escrevi duas postagens sobre acesso e preservação da informação em meio digital. Ambas relacionadas com os links, endereços de internet (web sites) que nada mais são que uma referência, um meio de acesso a uma informação armazenada na Internet.

A primeira postagem foi sobre informações que não mais estavam acessíveis uma vez que seus links haviam sido alterados ou removidos. E, quando no segundo caso, sem recurso de redirecionamento automático para o novo “local”; algo relativamente simples para os informáticos. O título da postagem é Link perdido, acesso comprometido.

A segunda postagem foi um exemplo prático da primeira. Naquela mesma época, os jornais International Herald Tribune e o NY Times se “fundiram”, prevalecendo o segundo. Naqueles dias, todos os links de reportagens (todos as referências de documentos) do IHT – e eu tinha alguns – eram direcionados para a página principal do NY Times. É como se a ficha de um livro numa biblioteca lhe conduzisse sempre a recepção dessa instituição, agora com outro nome. O título da postagem é Péssimo exemplo.

Pois bem. Hoje, li uma matéria sobre o projeto do Arquivo Nacional da Inglaterra (The National Archives – UK) chamado Web Continuity (algo como Continuidade Web). O projeto, a ser lançado oficialmente no próximo mês, é de grande importância no âmbito da preservação digital de arquivos públicos.

O Web Continuity foi apresentado em Dezembro de 2008 por Amanda Spencer, chefe do projeto, na 4ª Conferência Internacional de Curadoria Digital (4th International Digital Curation Conference) , evento organizado pelo DCC (Digital Curation Centre) . O trabalho, entítulado UK Government Web Continuity: Persisting access through aligning infrastructures (Persistindo o acesso através de alinhar as infra-estruturas) pode ser lido aqui.

Spencer faz um comentário interessante, que nos faz pensar na origem dessa cultura de não se preservar o link. “Quando foi criada, a internet era considerada como efêmera. As páginas web não eram vistas como documentos que precisavam ser preservados.” Hoje sabemos que muitos documentos importantes, para a administração pública, por exemplo, só existem em meio digital com acesso via internet. Garantir esse acesso é garantir não somente o funcionamento adequado do Estado, mas a nossa cidadania.

A propósito, buscando referências antigas de matérias do antigo International Herald Tribune, posso ver que o redirecionamento automático foi enfim implantado. Ponto para o grupo NY Times. A web continua!

domingo, novembro 15, 2009


Quingentésima
500

Lá se vão quase três anos da inauguração do TUIST e a primeira postagem. Aproveito a oportunidade, a efeméride dos 500, para repetir aqui dois vídeos. Na verdade são montagens feitas por este blogueiro, com músicas e imagens que, considerando as celebrações da Consciência Negra, são bem oportunas. A primeira traz o Nkosi Sikelele, um hino de libertação e união para fortalecimento. A segunda é uma homenagem que fiz e faço às mulheres Africanas, lindas e cheias de força. Agora são outros 500! Até lá!

It's been almost three years of the inauguration of the first TUIST post. Take this opportunity, the anniversary of 500, to repeat here two videos. They are video assemblies there that I made, with music and some images and, considering the celebration of Black Consciousness, its a good time to repeat them. The first brings the Sikelele Nkosi, an anthem of freedom and unity to strengthen. The second is a tribute I did and do for African women, beautiful and full of strength. Let's wait for another 500! See you there!





A imagem acima do título é o símbolo Adinkra NKONSONKONSON
que significa "o elo ou a corrente". É o símbolo das relações humanas.
Símbolo da unidade, interdependência, fraternidade e cooperação.
A união faz a força!

The image above title is the Adinkra symble NKONSONKONSON
that means "the link or the chain". Symbol of human relations.
Symbol of unity, interdependence, brotherhood, and cooperation.
A reminder to contribute to the community, that in unity lies strength!

Fonte: Adinkra: sabedoria em símbolos africanos = african wisdom symbols

sábado, novembro 14, 2009

Coloquem na Ordem do Dia! Já!

Eu mesmo já critiquei (e continuo criticando) algumas ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. As imagens repetidas vezes veiculadas nos telejornais mostram como uma minoria busca externar seu descontentamento com uma injustiça histórica que tem como fruto as mazelas reais e contemporâneas, que também vemos, não apenas na televisão e impressos, mas em nosso dia-a-dia. Embora muitas vezes a conexão da causa com o efeito se faça difícil, as consequências das injustiças e barbaridades cometidas no campo, a forma como os "poderesos" se perpetuaram, podem ser percebidas em nosso cotidiano. Basta parar e refletir. Os fatores exploração e desigualdade caminharam juntos para construir a realidade brasilieira, assim como de outros países. E ainda caminham. O que alimenta isso tudo são os desinteresses e interesses de uns e de outros ou, como demonstrarei, de uns e dos mesmos.

O Brasil é notoriamente um dos países onde o trabalho escravo é mais combatido. Temos aí o Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, que faz um ótimo serviço. Mas parece algo paleativo. Um crime tão hediondo como a exploração do trabalho escravo deve ser combatido com toda força da sociedade e do Estado. E até que doa no bolso dos criminosos, os grande fazendeiros neo-escravocratas, essa ferida história continuará aberta.

Um importante recurso legal está parado praticamente desde sua proposição. Trata-se da Proposta de Emenda à Constituição número 438 de autoria do Senado Federal Ademir Andrade do PSB/PA. A PEC do Trabalho Escravo, como ficou conhecida, foi apresentada ao Senado Federal em 1° de Novembro de 2001. Clique aqui ou aqui para ver o diário da Câmara dos Deputados onde a PEC foi publicada.
A PEC estabelece "a pena de perdimento da gleba onde for constada a exploração de trabalho escravo (expropriação de terras), revertendo a área ao assentamento dos colonos que já trabalhavam na respectiva gleba. Altera a Constituição Federal de 1988.". Resumindo, se constatado trabalho escravo, perde a fazenda!

E, pelo histórico do andamento na Câmara, que podemos consultar aqui, pode-se ver os desinteresses e os interesses dos ilustres parlamentares. Desinteresse em mudar a triste realidade social, onde em pleno século 21 temos a utilização do trabalho escravo como "ferramenta produtiva" e ao mesmo tempo o interesse desse mesmo grupo (e seus asseclas) em manter as vantagens obtidas ao longo da história.

Fazer com que cães larguem tão suculento osso é mesmo difícil. Mas não impossível.

Existem um abaixo-assinado pela aprovação imediata da PEC 438/2001, a PEC do Trabalho Escravo. Até o momento, cerca de 165890 aderiram tanto na versão em papel, como também via Internet. É pouco, mas é um começo.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Se liga na real!

O TUIST está prestes a completar 3 anos e a postagem número 500 está próxima! O que foi escrito desde o "lançamento" deste blog em Dezembro de 2006 de certa forma refletiu minha vida, meu pensamento, meus medos, meus preconceitos, minhas angústias, emoções, raivas... Mas também pude externar meu carinho, meu afeto, minha dedicação, meu amor, por coisas, pessoas, momentos... Os textos e recursos multimídia (vídeos, músicas, figuras) postados também refletiram momentos da sociedade. E não apenas do Brasil. Minhas reflexões contemplaram vários países na Europa, Ásia, Américas, África. Política, economia, questões sociais e humanitárias, acadêmicas... enfim, uma série de temas, vários assuntos.

Dentre as questões sociais e humanitárias, em alguns textos eu abordei a violência. E as drogas. Recentemente, numa conversa com um amigo, falamos da questão da influência (do meio, dos colegas, da família) no desenvolvimento de uma criança. Embora o assunto não estivesse relacionado ao uso de drogas, é fácil perceber uma ligação entre o uso/consumo de entorpecentes e a influência sofrida (pela criança, adolescente, jovem) do meio em que se vive, das pessoas, familiares ou não, com quem convive.

Sou um medroso! Tenho medo que situações tristes, difíceis e trágicas aconteçam ou voltem a se repetir. Vivi uma situação na qual a influência teve papel determinante no que culminou numa tragédia com ente querido.

Penso que espaços estão aí para serem preenchidos. E não me refiro ao "físico", mas ao emocional, ao moral, ao intelectual, ao dos valores... Quando esses espaços não-físicos deixam de ser preenchidos com algo positivo, cria-se condições para o que "não desejamos aos nossos filhos". Mesmo não sendo pai, hoje vivo uma angústia dessas. O ser humano é um ser influenciável por natureza.

Penso que o medo me permitiu estar aqui, ileso (pelo menos fisicamente). A essa emoção salvadora em alguns momentos, algumas vezes juntou-se a informação que, consequentemente, me permitiu uma reflexão. Aquele famoso "pesando os prós e os contras". É claro, sendo um ser pseudo-racional, atitudes erradas, mesmo nessas condições, podem ser tomadas. Mas, a partir do momento em que temos subsídios decisórios (informação) e alguma perspectiva (que pode ser esperança, sonho) creio que as idéias se iluminam. Da mesma forma, tirando a informação (por exemplo, numa sociedade deficitária no nível educacional) e/ou a perspectiva (estrutura familiar fraca, poucas oportunidades e muitas barreiras, falta de condições para uma vida digna, falta de apoio e exemplos), o que se impõe é uma visão obscurecida da vida. Neste último caso o espaço não-físico é facilmente preenchido por...

Nos últimos meses tenho notado um aumento expressivo no número de jovens (muitos ainda crianças) sobrevivendo nas ruas aqui próximo. Alguns desses jovens praticam delitos que, quando muito, são "tratados" de maneira paleativa pelo Estado. O consumo de drogas é feito a qualquer hora do dia. A cola e o tiner são os mais usados. Mas o crack também é uma realidade.

Com excessão de alguns casos onde a tragédia se deu num ambiente familiar relativamente constituído e de pessoas com certa condição social, o que sobra (e é a grande maioria) é tratado no coletivo. Essas micro-tragédias de pessoas já "invisíveis" socialmente, é colocada num único bolo. Logo, não se vislumbra uma mudança a curto ou médio prazo.

Mas talvez (e aqui entra a esperança "que nos move") seja possível criar condições melhores com a influência certa. A informação nesse caso é essencial. Ela dá subsídios, ou mesmo traz o medo, faz refletir, avisa.

No caso das drogas, essa informação, esse aviso, algumas vezes é melhor percebido quando vindo daqueles diretamente ligados a essa tragédia social e de saúde pública: um drogado (para saibamos onde aquilo pode levar), um familiar (para termos alguma noção, mesmo que distante, da tristeza e dor que pode causar), ou um traficante minimamente coinsciente das causas e efeitos de seu "ofício" (para mostrar um pouco do sua visão sobre o produto e mercado consumidor).

Tomei conhecimento de um dessas oportunidades de esclarecimento através de um artigo de Zuenir Ventura para o jornal O Globo, publicado em 07 de Novembro de 2009 e entitulado "Quem vende sabe"



O artigo de Ventura cita uma entrevista com um traficante, feita pelo membro do AfroReggae, José Júnior. Assista abaixo e se liga na real!

sexta-feira, outubro 23, 2009

Polícia ou Bandido?

O recente ato de violência que culminou na morte do coordenador do AfroReggae Evandro João da Silva engrossa as estatísticas da criminalidade no Rio de Janeiro. O assassinato que, de forma covarde, interrompeu a vida de um ser humano que atuava justamente em prol da humanidade, da dignidade, da não-violência... da vida, foi agravado pela atuação daqueles que deveriam zelar pela segurança pública. Servidores, pagos com dinheiro público, trajando farda e em veículo oficial, se portaram como marginais desumanos.

Eu acredito, quero acreditar, que essa escória seja uma minoria no universo das corporações policiais. Que esse (e tantos outros que ganharam repercussão) sejam casos isolados.

Espero que aqueles que honram essa importante função e o Estado - que deve mostrar eficiência, deixando das politicagens típicas e agir com inteligência - estirpem dos quartéis e das ruas esses bandidos (com ou sem farda).

Um artigo de Javier Méndez Araya publicado hoje no periódico Chileno El Mercurio me desperta uma curiosidade. A notícia, sobre segurança pública na Venezuela, dizia que em 20% (vinte por cento, um quinto, dois em cada dez) dos crimes praticados têm participação de policiais. Leiam aqui.
Fico imaginando... No Brasil, qual a porcentagem?
Leniency

Do you remember the last year events on University of the Free State's campus in South Africa? Click here or here. And check my post about this.

The disciplinary charges against those criminals were dropped. According to University rector Jonathan Jansen it was "a gesture of racial reconciliation, and the need for healing". But I do have another opinion: Leniency.

Read here, here, here... Or use your own news search engine.


© JONATHAN SHAPIRO. 22-10-2009
Zapiro (always a great cartoon). Click on picture to check others.

segunda-feira, outubro 19, 2009




Neste domingo eu recebi uma mensagem de uma amiga. Ela contava sobre uma pessoa que, confesso, até então eu não tinha ouvido falar, havia sido assassinada. A vítima da violência era alguém muito querido e próximo a um de nossos amigos em comum. Por isso a mensagem. Hoje tive oportunidade de falar com esse amigo. Não para consolá-lo. Se esse fenômeno existe, vem de dentro, de algo maior do que simples palavras. Não pedi que ele esquecesse essa tragédia, essa dor. Mas pedi e peço que ele guarde o que ficou de bom, ou pelo menos dê mais importância a isso. E use em seu benefício e de todos.

Amanhã (20/10) faz dois anos que passei (eu e minha família) por uma situação parecida. A violência que assistíamos na televisão, líamos nos jornais e sobre a qual comentávamos, como algo ficcional, distante, irreal de tão absurdo... bem, essa irrealidade se materializou de forma avassaladora. E levou alguém muito querido, que era filho, era irmão, era pai. Era meu primo.

Quando esse absurdo irreal se mostra concreto em nossas vidas é possível olhar com outros olhos as "ficções" jornalísticas, televisivas e comentadas.

Combater algo irreal é uma irrealidade. A violência não é ficção que presenciamos, que assistimos, comendo pipoca no conforto do lar. Não é algo distante que simplesmente apontamos, por vezes nem ao menos olhamos, como se fosse um direito que nos coubesse, já que "estamos do lado de cá do muro, da fronteira... da situação". Não está no passado para que possamos ler nos livros de história ou pesquisar nos arquivos, embora o enfrentamento do que se faz presente esteja justamente ligado ao entendimento do que se passou.

Primeiramente te desejo PAZ... Te desejo, PAZ!




As imagem que ilustram essa postagem são
símbolos Adinkras relacionados com a PAZ.
O primeiro, BI NKABI (ninguém deve agredir
o outro) é um símbolo de paz e harmonia, o
segundo é MPATAPO (laço de pacificação e
reconciliação) que é um símbolo da
reconciliação, da paz e pacificação .
Em nome do conhecimento
Em nome do aprendizado
Em nome do esclarecimento

A propósito de recente postagem entitulada Me prendam!, onde faço uma crítica às ações do MST, gostaria de indicar um texto de Mauro Santayana, publicado em 14/10/2009 no Jornal do Brasil. Clique aqui para ler A CPI do MST e as terras roubadas.

O texto me foi enviado por uma amiga, colega de trabalho e blogueira e ajuda a colocar meus pés no chão. Além disso, me faz lembrar as excelentes aulas de Teoria da História, ministrada por uma grande professora. Naquelas aulas iniciais, preparatórias não apenas para os densos debates que estavam por vir, mas também para a vida, tive contato "formalmente" com os Obstáculos Epistemológicos. Hoje, lendo o texto enviado pela também professora e agora blogueira, tenho a oportunidade de criticar o que escrevo, e pensar no que penso. Realismo ingênuo, credulidade, dogmatismo e certo preconceito. Esses foram alguns dos obstáculos ao saber, à verdade, que poderemos ver no meu texto. Mas não me prendam por isso. Até porque não incorri, como poderão ver, nas generalizações assistemáticas, outro obstáculo.

Ainda acho, porém, e talvez concordem, que certas ações de movimentos sociais estão impregnadas do mal que combatem. Entretanto, de maneira alguma devemos olhar os "episódios isolados" e construir o todo.

Lendo, relendo e revendo tudo que li e o pouco que escrevi, só me resta terminar esta postagem como terminei a outra a que me referi no início. "Tem alguma coisa muito errada nessa história toda!"



A imagem que ilustra essa postagem é o símbolo Adinkra
Nea Onnim No Sua A, Ohu que significa Aquele que não
tem conhecimento, poderá obtê-lo com o aprendizado.

domingo, outubro 18, 2009

Acabou o papel?

A Association for Information and Image Management (AIIM) publicou o resultado da pesquisa "Electronic Records Management - still playing catch-up with paper", algo como Gerenciamento de registros eletrônicos - ainda tentando recuperar o atraso com papel(*). Alguns pontos de destaque:

Boa parte das empresas não possuem quaisquer políticas de gerenciamento de seus registros eletrônicos;

As chances de tais registros eletrônicos serem realmente gerenciados é duas vezes menor que a dos registros em meio físico (papel);

Os arquivos em papel, cujo volume tem aumentado na maioria das empresas, são mais ativamente gerenciados;

Embora mais da metade das empresas pesquisadas tenham como padrão a digitalização de documentos recebidos em papel para posterior arquivamento em meio eletrônico, 40% delas admitiram que imprimem documentos recebidos em meio eletrônico para arquivamento em papel;

Na maioria das empresas pesquisas, são os profissinais de TI os responsáveis pelos processos de gerenciamento eletrônicos de documentos, incluindo e-mails.

Trata-se de uma pesquisa interessante, conduzida por uma entidade conceituada internacionalmente e que nos permite comprovar que ainda há muito por fazer.

Original aqui.

(*) Traduzido com o Bing Translator

segunda-feira, outubro 12, 2009

Sagrado

Qual o papel das religiões do mundo contemporâneo? A Rede Globo e o Canal Futura lançam Sagrado. Uma séria que apresenta a diversidade religiosa "mostrando a visão e o entendimento de cada religião a respeito de assuntos muitas vezes polêmicos como: violência urbana, liberdade de expressão, sexualidade, novas famílias, entre outros." Vejam abaixo os vídeos do quarto ao sexto episódio.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Vale a leitura e reflexão

Razão, crença e dúvida. Onde se manifesta a razão? Na arrogância de certezas absolutas ou na capacidade de duvidar? (...) Clique aqui e leia a íntegra do ótimo artigo de Contardo Calligaris, publicado hoje (08/10/2009) na Folha de São Paulo.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Me prendam!

Confesso: eu financio o crime organizado. O esquema é relativamente simples. Todo mês, com meu trabalho, pago uma série de impostos que não saberia listar. Boa parte desse valor vai para a conta da União (Governo Federal). Esse "órgão", por sua vez, destina parte desses recursos, captados com minha diligente ajuda, para instituições conhecidas como ONGs que financiam ações de organizações que, na outra ponta do esquema, algumas vezes fazem o que veremos no vídeo abaixo.

A desculpa, dizem, seria o objetivo de implantar de maneira mais ampla a reforma agrária no país. Porém, qual a linha que separa as ações de um movimento social legítimo das ações de uma quadrilha, de criminosos (com direito a rostos cobertos, vandalismo...) organizados. Tem alguma coisa muito errada nessa história toda!
Sagrado

A Rede Globo e o Canal Futura lançam Sagrado. Uma séria que apresenta a diversidade religiosa "mostrando a visão e o entendimento de cada religião a respeito de assuntos muitas vezes polêmicos como: violência urbana, liberdade de expressão, sexualidade, novas famílias, entre outros." Vejam abaixo os vídeos dos três primeiros programas.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Absurdos cotidianos

Estava eu num ônibus, passando por uma rua do Centro do Rio, na região da Lapa. Veículo parado (sinal?, trânsito?... sei lá!), olho pela janela, reconheço um prédio ocupado pelos Sem-teto. Movimento, grupo, quase partido, que pelo menos faz com que governantes e proprietários se apercebam da estupidez, e absurdo, que é o abandono e descaso com edificações que poderiam ser funcionais. Na janela, vejo um dos "ocupantes". Olhando a paisagem, cigarro numa das mãos, latinha de cervaja na outra.

É, para algumas coisas sobra dinheiro. Absurdo!
O cruel desinteresse

Tanta comida, porém tanta fome... Este é o título de um artigo publicado originalmente para o NY Times em 19 de Setembro deste ano, por Andrew Martin. Foi traduzido e publicado hoje na Folha de São Paulo. Fala de uma crise desnecessária, de uma realidade cruel com quase um bilhão de vítimas.

So Much Food. So Much Hunger
Tanta comida, porém tanta fome

domingo, outubro 04, 2009

Rio 2016

Que tudo corra (e nade, e salte, e pule, e jogue...) muito bem.



From RAYMA (publicado no El Universal em 03/10/2009)

sexta-feira, outubro 02, 2009

Zé Peixe e outro lado da($) moeda($)

Hoje uma amiga me enviou um vídeo de uma reportagem exibida no Jornal Nacional, pelo visto, há aproximadamente uma década. Conta a história do sergipano José Martins Ribeiro Nunes, o Zé Peixe. Pesquisem no Google, as referências são muitas. Mas, vamos ao vídeo.

Zé Peixe atuava como Prático (profissional que atua no atracamento do navio, guiando-o ao entrar num porto) em Aracaju. O que me chamou atenção foi a simplicidade, não apenas da pessoa, mas também de seu lar. Um lugar humilde. O interesse veio com uma lembrança de um comentário feito por um amigo, sócio de uma empresa de navegação, que numa conversa me falou sobre esse tipo de profissional. E o quanto era o salário.

À época não acreditei, mas hoje, vendo o vídeo, resolvi pesquisar. Encontrei algumas referências que ratificam a informação desse meu amigo. É impressionante.

Salário de prático passa de R$ 100 mil por mês
DPC confirma Concurso para Prático, com salários até R$ 130 mil por mês
Profissão: prático, salário: R$ 100 mil
Práticos de Santos ganham até R$ 200 mil

quinta-feira, outubro 01, 2009

Segurança de todos

No último Domingo, o programa Fantástico apresentou uma reportagem sobre como a legislação, que prevê a progressão de pena, está beneficiando condenados por crimes hediondos. A polícia faz seu papel, prendendo o monstro e, independente da barbaridade cometida, a "justiça" o brinda com o benefício da progressão de pena, devolvendo-o a sociedade.

A justificativa para o "presente", conforme artigo (Progressão de regime de cumprimento da pena para crimes hediondos) de Juliana Moura Nogueira é que "terão mais chances de se adequar de volta à sociedade, pois com o cumprimento da pena em regime semi-aberto, onde o preso sai de manhã para 'trabalhar' e volta à penitenciária para dormir, terão mais condições de serem absorvidos pela sociedade".

O que permite isso é o artigo abaixo, da Lei nº 7.210, de 11 de Julho de 1984.

Art. 112 - A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva, com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos um sexto da pena no regime anterior e seu mérito indicar a progressão.

Parágrafo único. A decisão será motivada e precedida de parecer da Comissão Técnica de Classificação e do exame criminológico, quando necessário.


Eles se baseiam, também, na condição de o detendo ter tido boa conduta durante o cumprimento da pena. Ora, até Hitler, em algum momento da vida dele, deve ter tido um bom comportamento. Aliás, parte da biografia dele é até elogiada, mas isso não o impediu de cometer as atrocidades. E vale lembrar que, segundo consta, certa entidade sobrenatural maligna da tradição judaico-cristã havia sido um anjo querubim. Mas deixa pra lá.

Eu sinceramente gostaria de ver esses juristas explicando (olho no olho) para um pai ou uma mãe que tenha perdido um filho(a) vítima de um crime considerado hediondo, que o responsável por aquela monstruosidade seria solto uma vez que teve bom comportamento, ou que seu regime de prisão passaria a semi-aberto para que sua volta ao convível social fosse facilitada. Creio que esse pragmatismo jurídico não suporta a realidade nua e crua durante muito tempo.

Abaixo segue o vídeo da reportagem.

É importante saber que essa aberração legal que solta monstros nas ruas, felizmente é fortemente combatida por alguns. É o caso da Proposta de Emenda à Constituição n° 364/2009 (leia na íntegra) que tramita na Câmara dos Deputados. A PEC - apelidade de KAYTTO GUILHERME, em alusão ao bárbaro crime ocorrido em Abril deste ano em Mato Grosso (leia aqui) - é de autoria do Deputado Valtenir Pereira (PSB-MT) e "determina o cumprimento da pena no regime integralmente fechado ao autor de crime hediondo". Vamos acompanhar.

Uma declaração dada pelo Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, exibida durante a reportagem, merece destaque.

Segurança pública é polícia, é o Ministério Público, é o Tribunal de Justiça, é o sistema penitenciário, é o Legislativo e o Executivo que sanciona essas leis. Então, a polícia faz a primeira parte e prende. E, se nesse sistema todo, um elo dessa cadeia se dissolve, o problema volta pra polícia novamente, assim como estamos vivendo o problema de hoje. E em outros estados da Federação, isso é muito comum”.

Alguém discorda?

quarta-feira, setembro 30, 2009

Ibeji. A beleza dos doces

O último domingo, dia 27 de Setembro, dia de São Cosme e São Damião foi “dia de pegar doce”. É com grande carinho, apreço e, por que não, certo saudosismo que me recordo de anos anteriores, principalmente na minha infância, esta data festiva.

Com o passar dos anos, tendo contato com mais pessoas, percebendo o mundo com outros olhos, analisando criticamente o que vejo, ouço, leio, vivendo outras situações que não aquelas da infância, onde tudo era festa (que saudade!), as lembranças dos 27 de Setembro de minha infância ganham mais valor.

São Cosme e São Damião, além de figuras santas no Catolicismo, estão sincretizados nas religiões afro-brasileiras como o orixá Ibeji da Mitologia Ioruba. Existem muitas referências ao orixá-criança na Internet. Vale pesquisar. Não me alongarei nessa questão, apesar de ter vontade de escrever mais sobre o assunto específico, pois me falta mais conhecimento. É o básico.

O preconceito e a ignorância, não necessariamente nessa ordem, contribuem para que muitos rejeitem (o que pode ser natural) ou, muitas vezes, hostilizem e até agridam quaisquer manifestações de festejo ou simples referência às festividades daquela data.

Talvez este seja um dos temas discutidos durante o Seminário Nacional sobre Proteção à Liberdade Religiosa, promovido pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR e que ocorre hoje e amanhã aqui n Rio de Janeiro. O assunto é de grande relevância.

A estupidez demonstrada pelas pessoas que destilam seus preconceitos e ignorância e mesmo aquelas que, dizendo respeitar, usam de comentários jocosos, com piadas e galhofas, não esquecendo os próprios seguidores e devotos que, pelo comportamento, ajudam a deturpar algo belo… essa estupidez me entristece. E me preocupa, uma vez que tal postura parece muitas vezes tida como comportamento vigente, normal, aceitável.

E é por conta desse sentimento tristeza que me ligo ao passado para viver melhor o presente. E nesse passado, foram exatamente as festividades de São Cosme e São Damião, no ambiente dos cultos afro-brasileiros, celebrando o Orixá-criança, o Ibeji, as crianças, que passei a respeitar e admirar algo cada vez mais desrespeitado, menosprezado, por muitos.

Vou contar brevemente, até para registrar para aqueles com os quais nunca compartilhei tais lembranças [e para mim mesmo], as festas e celebrações, os acontecimentos marcantes, as cerimônias em homenagem a São Cosme e São Damião.

A expectativa era grande nos dias que antecediam a data. Onde os doces seriam distribuídos? Sorteariam brinquedos? Dariam senha antes? Naquele tempo o mundo a minha volta parecia enorme, era gigantesco e, em grande parte inatingível. Meu microcosmo era um universo. Conforme crescia, vi as coisas foram diminuindo, ficando alcançável fisicamente e utópicas ao mesmo tempo, conseguia enxergar além daquelas ruas pelas quais corria para pegar os doces. Mas a sensação de mantém. Aquele mundo pequenino ainda está em mim.

Fora todas as casas e centros de Candomblé e Umbanda, existia um lugar particularmente esperado. Lá ocorria a grande festa, aguardada durante todo o ano. Era a casa da Dona Dagmar. Uma casa muito grande para os padrões de Mesquita, com dois andares, um salão na parte de baixo, terreno a imensa cozinha onde se preparava as guloseimas para a festança.

Se bem me recordo, o evento era de um dia, porém, estendia-se considerando os preparativos, que eram atrações a parte. Dos preparativos, muitos participavam. Eu mesmo ajudava na limpeza, no empacotamento dos doces, da feitura das comidas, muita comida. O grande dia era dividido em três partes: almoço para muitos convidados, distribuição dos doces e a festa noturna.

Para o almoço, dois porcos eram preparados. Um menor, que ia à mesa, assado inteiro, e o maior, usado no preparo das lingüiças e alguns cortes. Uma experiência única: encher lingüiça.

A comida era farta, saborosa, feita com esforço e dedicação e consumida com gosto por todos.

Pulemos para a festa noturna. Música, bebida, diversão, alegria, mais comida, danças. A festa, sempre aguardada, atraia pessoas de vários lugares. A religião ali não era estampada, mas internalizada e ficava patente a crença reinante. Era algo para todos.

E, entre o almoço e a festa à noite, eventos quase sobrepostos tamanha a grandiosidade do evento e tão curto tempo, estava a distribuição de doces.


Essa parte da celebração, onde o caráter religioso mais ficava evidente, se dividia em três estágios. Sendo que dois ocorriam ao mesmo tempo, mas em lugares separados.

Um desses estágios, no grande salão ou mesmo numa parte do terreno, era a mesa de doces. Manjas, pudins, bolos, cocadas, pés-de-moleque… uma miríade de cores, odores, texturas e sabores dispostas numa mesa imensa, especialmente montada para o evento, mas que também havia servido para o banquete do almoço.

O estágio concomitante, do qual tive o privilégio de participar pelo menos uma vez, era uma cerimônia onde o patriarca da família servia um prato de doces para algumas crianças escolhidas na casa. Comíamos sentados no chão, rodeados de representações e instrumentos em devoção aos orixás. Era a casa de santo. A cerimônia envolvida naquele momento era de uma beleza única. Era o lugar mais seguro e acolhedor do mundo. Ali, estávamos protegidos, cuidados, alimentados. Em paz. Se eu pudesse voltar a ser criança e viver momentos de minha infância, gostaria de voltar àquela casinha, me sentar no chão e degustar um prato de doce, rodeado de orixás protetores.

O terceiro estágio dessa segunda parte das celebrações era a distribuição dos pacotes de doces e alguns brinquedos. As senhas eram distribuídas com antecedência. Não lembro a quantidade, mas com certeza algumas centenas. Eu era um privilegiado, pois, sendo amigo da família, participava de tudo de dentro da casa. Podia assim ver a aglomeração de pessoas ao portão, crianças, adolescentes e adultos à espera de um saquinho de doces. Os que recebiam se retiravam para analisar o conteúdo, se maravilhar com a diversidade e quantidade.

Uma festa para todos, com um conteúdo e significado religioso, intrínseco no todo e evidente em alguns momentos. Tendo participado dessa celebração no passado, me fez nutrir um respeito tanto pelo viés católico como do sincrético afro-brasileiro. E, por essas e outras, me entristeço com o que algumas pessoas tentam fazer de algo tão belo.


Tendo ficado claro que algumas pessoas de minha família seguiam e seguem a religião dos Orixás, não posso deixar de citar outro evento do qual participei quando criança e que, assim como as festividades para as Crianças, me marcou profundamente. Foi quando minha prima, ainda adolescente, “fez o santo”. Foi uma cerimônia muito bonita. Cheia de cores, beleza, cheiros. O filho dela recentemente seguiu os passos da mãe. Ouvi alguns comentários do tipo “como pode envolver uma criança nesse tipo de coisa”… Bem, esse tipo de coisa é uma religião e merece ser respeitada. Não pude deixar de fazer algumas comparações com o Bar Mitzvá no judaísmo e o Batizado no cristianismo. Todas são cerimônias de grande importância, significado e beleza. Por que o preconceito?

quinta-feira, setembro 24, 2009

Antes que eu esqueça

Era uma vez um blogueiro que desanimou e pensou não mais blogar... Então ele desistiu da idéia tola (?), olhou para a tela e recomeçou a dedilhar, com a intenção de dar continuidade a algo que por acaso começara, cheio de fantasmas pessoais para exorcizar em palavras escritas, repleto de dúvidas e temores... cá estou, querendo, desejando, ansiando para trocar uma idéia sobre tudo.

E, antes que eu me esqueça, falarei de um evento sobre o qual já deveria ter escrito aqui no TUIST (no Twitter foi online, ao vivo, em tempo real...). Falo do Back2Black Festival, ocorrido entre os dias 28 e 30 do mês passado, no Leopoldina. Eu fui, e conto aqui minha percepção da coisa.

Para começar, vou contar como eu via e entendia o evento. Começo citando o que está na página promocional, onde o Back2Black é apresentado como "um evento internacional que celebra a África como berço da civilização e pólo de discussão política e difusão cultural".

A primeira coisa que me chamou atenção, despertando meu interesse, além de ser um evento sobre a África (a África negra, como nos faz crer o título) foi a participação da bela zambiana Dambisa Moyo, sobre quem eu lia à época. A economista Dambisa Moyo, ganhou notoriedade internacional com seus estudos sobre a consequência prejudicial da ajuda internacional ao continente africano, estudo esse que gerou o livro "Dead Aid: Why Aid is Not Working and How There is a Better Way For Africa". Não era a primeira vez que eu lia esse tipo de argumentação. De qualquer forma, me interessei quando me deparei com textos sobre uma africana de Zâmbia que dizia "A ajuda não faz bem à África". Por essas e outras, pensei, vou ao evento.

No íntimo, considerando a gama de shows de artistas nacionals e estrangeiros, sobretudo os africanos, infelizmente tão raros nos palcos nacionais, eu sabia que a festa iria reinar sobre a discussão acadêmica, política e social que o evento iria promover.

A participação do professor Alberto da Costa e Silva, acadêmico imortal, grande autor sobre o continente africano, igualmente pesou em minha decisão de ir.

Como não sou bobo (nem tanto) nem hipócrita (nem tanto) os shows daquele dia, o último do evento, comandados por Mart'nália, também me animaram.

Antes mesmo de pôr os pés numa Leopoldina ricamente enfeitada, embora maltrada pelo esquecimento dos órgãos públicos e vândalos sociais, começaram as polêmicas. A primeira delas, como não poderia deixar de ser, foi o ingresso, dito incompatível com a situação social do negro no Brasil. O "dito" é por minha conta, uma vez que em muitos eventos gasta muito mais e considerando toda a produção, shows e palestras... bem, eu paguei e não me arrependo.

Outra questão de certa forma emaranhada na exposição da primeira: o entendimento, a interpretação do evento e seu propósito. A forma como alguns se referiam ao evento, já mostrava tudo. Diziam Black2Black e não o correto, Back2Black. Com tradução livre, De volta do Negro, o objetivo do evento propõe um novo olhar sobre o continente africano. Um retorno, um resgate, uma reaproximação, uma releitura. Esse era o meu sentimento enquanto estive no evento, jamais pensei em Back2Black como uma festa típica, folclórica, fantasiosa... mas muitos assim pensaram, e foram lá com esse espírito.

Eu vou resumir aquelas horas no festival expondo o que achei de bom e o que achei de péssimo, não teve meio termo, não para mim.

Material. A decoração me impressionou! Painéis, mapas imensos com diferentes temáticas envolvendo o continente africano. Fotos gigantescas exibindo a realidade e a diversidade cultural e social do continente. O palco grandioso. O ambiente saudoso de uma Estação Leopoldina dos tempos do Trem de Prata. Os vagões estacionados, transformados em lojas, livraria...

Musical. Embora a acústica do lugar não ajudasse, os shows de Mart'nália e seus convidados foram ótimos. Luiz Melodia, Margareth Menezes, Angélique Kidjo (incrível!!!), Omara Portuondo, dentre outros.

Acadêmico. Parabéns ao professor Alberto da Costa e Silva. Soube conduzir com elegância o pouco tempo que lhe foi ofertado. Uma aula em poucas palavras. Dambisa Moyo, igualmente elegante, demonstrou toda a inteligência e coerência na defesa de suas idéias. Valeu cada argumentação, cada resposta.

Bem, acima eu citei coisas boas, coisas positivas. Como não vivemos num mundo perfeito... que tal a outra parte da realidade?

Material. O que foi ofertado não pode ser aproveitado, não plenamente. Falo especificamente das projeções de vídeos (filmes, documentários...) que dificilmente encontraremos na locadora. Se o ambiente abrisse as portas mais cedo, talvez fosse possível "curtir" um pouco disso. Mas, pelo menos no dia em que fui, o tempo entre a abertura dos portões e o início das palestras foi curto.

A denúncia. O consumo drogas era praticado livremente durante os shows. Pessoas fumavam maconha como se fosse a coisa mais lícita do mundo.

Os preços. O ingresso, já disse, não reclamo. Desembolsei a grana com um pensamento, com uma intenção e uma expectativa. Mas, e os comes e bebes. Realmente, aquilo alí não era algo, digamos, popular. Entre patrocinadores e apoiadores do evento, estavam empresas e instituições bem conhecidas, tais como Petrobras, Vale, o governo brasileiro através do Mistério da Cultura e da Fundação Cultural Palmares, a empresa de telefonia Oi, o governo do Estado do Rio de Janeiro, a rede de Hotéis Othon e, uma grande ironia em se tratando da temática do evento e, particularmente da presença de Dambisa Moyo, o evento também teve apoio do Banco Mundial.

O ministro. A composição da mesa na conferência contou com a presença mais que marcante de Gilberto Gil. Foram momentos de constrangimento. A verborragia cega desse personagem brasileiro, grande artista, é de causar espanto e fazer dormir ao mesmo tempo. O responsavel pelo convite deveria ser preso. Gil conseguiu estragar parte do que o evento ofereceria de melhor.

O desfalque. Graça Machel, que deveria compor a mesa na conferência "A África na Construção do Mundo. O Futuro", não pode estar presente. Uma lástima.

O resultado de tudo. Ficou o show pelo show. Perdeu-se ali uma grande oportunidade de se fazer juz ao título do evento. A África, com o que foi apresentado ali continuará sendo algo fantasioso, irreal, distante. O Back2 se torna Far from de maneira cruel. Uma pena.

Mas alguém faturou!

quinta-feira, agosto 27, 2009

Recordações

Porto Seguro, Arraial D'Ajuda, Trancoso (BA - Maio/2009)


O resultado da Catequização

Comendo a bola de fogo. Clique na imagem para saber um pouco mais sobre o Acarajé.

quarta-feira, agosto 26, 2009

três vidas, dois nós, uma mão

ele estava lá, parado, aguardando seu ônibus. elas vieram. a mais velha, de máscara, aparência frágil, convalescente, puxava um carrinho de feira. mas ela não tinha ido às compras. no lugar de legumes, frutas e verduras... latas amassadas. muitas latas. algumas caíram. as companias, mais novas, suas filhas (?), muito parecidas, talvez gêmeas, cabelos desfeitos, roupas sujas, ar cansado. tarefa difícil para crianças. teriam ido à escola naquele dia? teriam brincado? teriam sido crianças? não tinham 10 anos, por certo, talvez 7, um pouco mais, um pouco menos. a mulher precisava da ajuda, daquelas quatro pequeninas mãos. era uma tarefa para cinco mãos. isso. a mulher tinha apenas um braço. uma cena difícil. ele refletiu sobre o que considerava dificuldades de vida. as quatro pequeninas mãos recolheram as latas tão amassadas quanto suas vidas, quanto a vida de tantos. as latas deveriam ficar num saco dentro do carrinho. a mãe pediu que elas dessem um nó e, em vista da dificuldade, juntou sua única mão a tarefa. ele observava. resolveu ajudar naquela tarefa. de repente viu que podia fazer algo, simples. fácil. um covarde? não, um impulso, um reflexo, tão natural! mais duas mãos. um nó. mais um, ele perguntou. sim, a mãe respondeu. naqueles segundos a mãe informou que algumas tarefas eram difíceis para um único braço, que as latas seriam vendidas para comprar comida para a dupla de lindas meninas. em nenhum momento pediu. e mesmo expondo suas dificuldades não expressou rancor com a vida. o que era aquilo?! quem era aquela mulher?! o que era aquela mulher?! ele olhou para as meninas. as três seguiram seus caminhos. ele olhou e em instantes não as via. angústia. o que era aquilo. o ônibus. ele entrou, pagou, sentou. olhou pela janela em busca de três seres humanos, em busca de cinco braços, em busca de duas meninas, uma mãe, dois nós. nó na garganta, soco no estômago. o ônibus segue, a vida segue, as lágrimas se manifestam. reflexão. que força! que mundo! que merda!

segunda-feira, agosto 24, 2009

GSI x 8.159

A questão política da coisa: uma ex-Secretária da Receita Federal informa que teve um encontro com a Ministra-Chefe da Casa Civil, no qual a ministra lhe pediu para "agilizar" as investigações sobre as empresas do clã Sarney. Tal encontro teria ocorrido em certa data e a ministra nega o encontro. Duas versões antagônicas.

A questão arquivística da coisa: busca-se a prova documental do encontro. Considerando-se documento como a "unidade de registro de informações, qualquer que seja o suporte ou formato" (Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística). As imagens no circuito interno de segurança do Palácio do Planalto são documentos.

E a arquivística não pode ser dissociada da política... Logo...

Gabinete de Segurança Institucional - GSI - da Presidência da República informa em nota que:

"Quando o setor de armazenamento no HD está cheio, novas imagens substituem as antigas"(...)

Peraí! Essas imagens não seriam arquivos públicos? O que diria a Lei n° 8.159/1991?

Art. 2º Consideram-se arquivos, para os fins desta lei, os conjuntos de documentos produzidos e recebidos por órgãos públicos, instituições de caráter público e entidades privadas, em decorrência do exercício de atividades específicas, bem como por pessoa física, qualquer que seja o suporte da informação ou a natureza dos documentos.

Art. 7º Os arquivos públicos são os conjuntos de documentos produzidos e recebidos, no exercício de suas atividades, por órgãos públicos de âmbito federal, estadual, do Distrito Federal e municipal em decorrência de suas funções administrativas, legislativas e judiciárias.

Interessante, não?! Será que tais arquivos públicos podem ser deletados dessa forma, tão convenientemente, automática? O que diz a mesma lei?

Art. 9º A eliminação de documentos produzidos por instituições públicas e de caráter público será realizada mediante autorização da instituição arquivística pública, na sua específica esfera de competência.

A instituição arquística pública citada no artigo 9° é o Arquivo Nacional, órgão de assistência direta e imediata ao Ministro de Estado... da Casa Civil.

Tem algo muito errado nessa história toda!

sábado, agosto 22, 2009

A velha questão

Costumo fazer compras num supermercado frequentado pela classe média alta do bairro onde moro. Na grande maioria das vezes, ao olhar para os lados, os únicos negros naquele estabelecimento somos eu e alguns funcionários. Mesmo comprando, muitas vezes o que se vê são empregadas domésticas a serviço de seus patrões. Opa! Não estaria eu tendo um olhar preconceituoso ao taxar de empregada doméstica uma negra comprando naquele estabelecimento? Não. Até porque nesses casos parece haver uma caracterização (implícita ou explícita), seja por uniforme, seja pela visível posição de acompanhante da “patroa”, empregadora que faz questão de deixar clara tal hierarquização.

Não preciso dizer que, sendo minoria naquele lugar, minha presença não é, digamos, esperada. Quando não, é estranha ao recinto. E tal estranheza, por alguém quase exótico (por vezes essa é a impressão), acaba por causar reações naqueles para os quais o fato extraordinário é... bem, não quero ser mais redundante. As reações as quais me refiro variam desde a “confusão” básica quando me tomam por funcionário do local, independente do que eu esteja trajando (os funcionários usam uniformes bem característicos), olhares de espanto, sobressalto, susto e até mesmo... pasmem... admiração! Admiração, uma forma de preconceito? Deixa pra lá!

Ah, não posso deixar de citar, enquadrando como sobressalto, as atenções que frequentemente desperto nos seguranças. Sempre tão próximos e preparados para oferecer seus prestimosos serviços. Será que sou tão atraente assim? Não sei se já comentei aqui no TUIST, mas deixei de frequentar alguns lugares por conta disso. É isso mesmo, o negão aqui confessa: não tenho muita maturidade, sangue-frio, serenidade, presença de espirito ou seja lá o que for para lidar com essas situações. Sucumbo, entristeço, congelo emocional e fisicamente. Espero que esse exemplo negativo seja usado de forma positiva, por alguém.

Perceberam? Cá estou novamente abordando a velha questão. E por que seria? Simples: vivo isso no meu cotidiano e preciso desabafar! Porém a razão para isso traz um componente, ou notícia, mais atual, veiculada na grande mídia essa semana. Trata-se do caso de Januário Alves de Santana, vigia da Universidade de São Paulo que foi agredido, hostilizado, humilhado por conta da velha questão.



Eu não sei dirigir. E, em minha condição financeira atual, ficaria complicado (não impossível, considerando benefícios com os convênios pela empresa, parcelamentos, financiamentos...) adquirir um veículo de aproximadamente R$ 30 mil. Contudo, fico imaginando quais seriam as situação pelas quais passaria se eu tivesse um, digamos, Ford EcoSport. E não me refiro a situações de risco, tais como acidentes, extorsões de oficiais e oficiosos, roubos, trânsito... Me refiro àquela velha questão.

Para algumas pessoas, o fato de uma parcela da população conseguir certas coisas é estranho, inesperado, suspeito, anormal, e até mesmo admirável. Talvez confundam ou associem conseguir com concessão, e não conquista. Talvez o fato de Januário ter conseguido (alcançado, obtido sucesso, conquistado) condições de comprar um carro daqueles não tenha sido considerado pelos policiais e seguranças do supermercado; para esses e outros, a Januário – por suas características físicas, por seu fenótipo, por sua etnia, pela cor de sua pele – não foi concedido o “direito”, a capacidade, as condições de possuir um bem daquele.

É a velha questão.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Rádios e genocídio

Indico o texto de Marianela Castés, no Tal Cual, sobre o uso da palavra e sua força, para o bem ou para o mal. Ela lembra o genocídio em Ruanda, em 1994, onde uma rádio foi usada para instigar o ódio de uma parcela da população contra outra. A Radio Televisión Libre de Milles Collines, funcionava com apoio do governo da época.

Faz então um paralelo com a política chavista de calar os meios de comunicação oposicionistas e controlar outros, que usa para fazer sua propaganda bolivariana.

Clique aqui para ler o texto (em espanhol)
Seguindo as regras do jogo

O dicionário Aurélio define ética como sendo o "conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano".

O que é bom para mim, muitas vezes não é bom para você (um dos meus dois leitores). O que considero como sendo uma boa conduta em meu trabalho, muitas vezes não é o que alguns esperam. Neste caso, o que considero "bom" pode ser considerado "péssimo" para tais pessoas. Um exemplo: para a empresa talvez não seja uma boa coisa ter um funcionário que lance olhar crítico sobre suas tarefas; para mim, não é apenas uma boa coisa, é natural e esperado. Sobre isso, os convido a lerem um dos posts inaugurais do TUIST. Clique aqui.

Talvez seja essa palavrinha (boa) que dê margem para a deturpação daquilo que esperamos (eu espero) que seja a ética.

Da mesma forma que relativizei o que é bom para mim, com interesse pessoal, alguns políticos (ou melhor, chamemos de politiqueiros), relativizam o que seria ético/bom, para seu próprio interesse.

Talvez seja essa a finalidade do Conselho de Ética do Senado. Um grupo de pessoas com interesses próprios e que, por isso, deturpam quaisquer princípios a seu bel-prazer.

Caso não tenha ficado claro até aqui, esta postagem tem haver com a mais recente vergonha nacional. Sim, considero vergonhoso, revoltante, aviltante, deprimente, nojento, uma podridão que deveria ser extirpada. Falo de um ex-presidente bigodudo, uma espécie de marajá, quase dono, do Maranhão. E, é claro, sua corja.

Presidindo o tal Conselho, temos Paulo Duque, que pronunciou palavras muito interessantes ao comentar a decisão de arquivar as denúncias contra o bigodudo: "vou seguir as regras... do jogo". Parece que tudo se resume a isso. Um jogo. E bastante sujo pelo que posso ver. Ocupar um posto no Congresso, eleito ou não pelo povo (Duque é suplente de algum outro cretino), pressupõe aceitar e seguir certas regras.

A resolução n°20 de 1993, que institui o Código de Ética e Decoro Parlamentar, diz, em seu artigo segundo, quais SERIAM os deveres fundamentais do Senador:

I - promover a defesa dos interesses populares e nacionais;

II - zelar pelo aprimoramento da ordem constitucional e legal do País, particularmente das instituições democráticas e representativas, e pelas prerrogativas do Poder Legislativo;

III - exercer o mandato com dignidade e respeito à coisa pública e à vontade popular;

IV - apresentar-se ao Senado durante as sessões legislativas ordinárias e extraordinária e participar das sessões do plenário e das reuniões de Comissão de que seja membro, além das sessões conjuntas do Congresso Nacional.

Será que algum deles tem conhecimento e se importa com esses que seriam seus DEVERES? Sarney e sua turma, incluindo este tal de Paulo Hermínio Duque Costa, pelo visto não se importam nem um pouco. "Tô tranquilo", disse o presidente do Conselho de Ética.

Como disse hoje o Alexandre Garcia, em seu quadro no Bom Dia Brasil, "ao defenderem Sarney, eles também se defendem".







quarta-feira, agosto 05, 2009

Por que William mudou de idéia?

Gostaria de indicar o artigo do professor William Douglas que relata como mudou de idéia em relação ao sistema de cotas para negros. O que William relata - sua experiência como voluntário no EDUCAFRO e uma situação mais particular, em sua casa - e que o fizeram refletir para além dos textos e teses, são questões que vejo no cotidiano, mas que também demorei um pouco para perceber. Apenas quando saí de um casulo onde tudo era tido como normal, apenas quando pude ter como comparar, sentir, escutar, vivenciar, tive parâmetros e condições de refletir... só então pude me dar conta, pude "cair na real". Para ler o artigo em questão, clique no link abaixo.

As cotas para negros: por que mudei de opinião