quarta-feira, setembro 30, 2009

Ibeji. A beleza dos doces

O último domingo, dia 27 de Setembro, dia de São Cosme e São Damião foi “dia de pegar doce”. É com grande carinho, apreço e, por que não, certo saudosismo que me recordo de anos anteriores, principalmente na minha infância, esta data festiva.

Com o passar dos anos, tendo contato com mais pessoas, percebendo o mundo com outros olhos, analisando criticamente o que vejo, ouço, leio, vivendo outras situações que não aquelas da infância, onde tudo era festa (que saudade!), as lembranças dos 27 de Setembro de minha infância ganham mais valor.

São Cosme e São Damião, além de figuras santas no Catolicismo, estão sincretizados nas religiões afro-brasileiras como o orixá Ibeji da Mitologia Ioruba. Existem muitas referências ao orixá-criança na Internet. Vale pesquisar. Não me alongarei nessa questão, apesar de ter vontade de escrever mais sobre o assunto específico, pois me falta mais conhecimento. É o básico.

O preconceito e a ignorância, não necessariamente nessa ordem, contribuem para que muitos rejeitem (o que pode ser natural) ou, muitas vezes, hostilizem e até agridam quaisquer manifestações de festejo ou simples referência às festividades daquela data.

Talvez este seja um dos temas discutidos durante o Seminário Nacional sobre Proteção à Liberdade Religiosa, promovido pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR e que ocorre hoje e amanhã aqui n Rio de Janeiro. O assunto é de grande relevância.

A estupidez demonstrada pelas pessoas que destilam seus preconceitos e ignorância e mesmo aquelas que, dizendo respeitar, usam de comentários jocosos, com piadas e galhofas, não esquecendo os próprios seguidores e devotos que, pelo comportamento, ajudam a deturpar algo belo… essa estupidez me entristece. E me preocupa, uma vez que tal postura parece muitas vezes tida como comportamento vigente, normal, aceitável.

E é por conta desse sentimento tristeza que me ligo ao passado para viver melhor o presente. E nesse passado, foram exatamente as festividades de São Cosme e São Damião, no ambiente dos cultos afro-brasileiros, celebrando o Orixá-criança, o Ibeji, as crianças, que passei a respeitar e admirar algo cada vez mais desrespeitado, menosprezado, por muitos.

Vou contar brevemente, até para registrar para aqueles com os quais nunca compartilhei tais lembranças [e para mim mesmo], as festas e celebrações, os acontecimentos marcantes, as cerimônias em homenagem a São Cosme e São Damião.

A expectativa era grande nos dias que antecediam a data. Onde os doces seriam distribuídos? Sorteariam brinquedos? Dariam senha antes? Naquele tempo o mundo a minha volta parecia enorme, era gigantesco e, em grande parte inatingível. Meu microcosmo era um universo. Conforme crescia, vi as coisas foram diminuindo, ficando alcançável fisicamente e utópicas ao mesmo tempo, conseguia enxergar além daquelas ruas pelas quais corria para pegar os doces. Mas a sensação de mantém. Aquele mundo pequenino ainda está em mim.

Fora todas as casas e centros de Candomblé e Umbanda, existia um lugar particularmente esperado. Lá ocorria a grande festa, aguardada durante todo o ano. Era a casa da Dona Dagmar. Uma casa muito grande para os padrões de Mesquita, com dois andares, um salão na parte de baixo, terreno a imensa cozinha onde se preparava as guloseimas para a festança.

Se bem me recordo, o evento era de um dia, porém, estendia-se considerando os preparativos, que eram atrações a parte. Dos preparativos, muitos participavam. Eu mesmo ajudava na limpeza, no empacotamento dos doces, da feitura das comidas, muita comida. O grande dia era dividido em três partes: almoço para muitos convidados, distribuição dos doces e a festa noturna.

Para o almoço, dois porcos eram preparados. Um menor, que ia à mesa, assado inteiro, e o maior, usado no preparo das lingüiças e alguns cortes. Uma experiência única: encher lingüiça.

A comida era farta, saborosa, feita com esforço e dedicação e consumida com gosto por todos.

Pulemos para a festa noturna. Música, bebida, diversão, alegria, mais comida, danças. A festa, sempre aguardada, atraia pessoas de vários lugares. A religião ali não era estampada, mas internalizada e ficava patente a crença reinante. Era algo para todos.

E, entre o almoço e a festa à noite, eventos quase sobrepostos tamanha a grandiosidade do evento e tão curto tempo, estava a distribuição de doces.


Essa parte da celebração, onde o caráter religioso mais ficava evidente, se dividia em três estágios. Sendo que dois ocorriam ao mesmo tempo, mas em lugares separados.

Um desses estágios, no grande salão ou mesmo numa parte do terreno, era a mesa de doces. Manjas, pudins, bolos, cocadas, pés-de-moleque… uma miríade de cores, odores, texturas e sabores dispostas numa mesa imensa, especialmente montada para o evento, mas que também havia servido para o banquete do almoço.

O estágio concomitante, do qual tive o privilégio de participar pelo menos uma vez, era uma cerimônia onde o patriarca da família servia um prato de doces para algumas crianças escolhidas na casa. Comíamos sentados no chão, rodeados de representações e instrumentos em devoção aos orixás. Era a casa de santo. A cerimônia envolvida naquele momento era de uma beleza única. Era o lugar mais seguro e acolhedor do mundo. Ali, estávamos protegidos, cuidados, alimentados. Em paz. Se eu pudesse voltar a ser criança e viver momentos de minha infância, gostaria de voltar àquela casinha, me sentar no chão e degustar um prato de doce, rodeado de orixás protetores.

O terceiro estágio dessa segunda parte das celebrações era a distribuição dos pacotes de doces e alguns brinquedos. As senhas eram distribuídas com antecedência. Não lembro a quantidade, mas com certeza algumas centenas. Eu era um privilegiado, pois, sendo amigo da família, participava de tudo de dentro da casa. Podia assim ver a aglomeração de pessoas ao portão, crianças, adolescentes e adultos à espera de um saquinho de doces. Os que recebiam se retiravam para analisar o conteúdo, se maravilhar com a diversidade e quantidade.

Uma festa para todos, com um conteúdo e significado religioso, intrínseco no todo e evidente em alguns momentos. Tendo participado dessa celebração no passado, me fez nutrir um respeito tanto pelo viés católico como do sincrético afro-brasileiro. E, por essas e outras, me entristeço com o que algumas pessoas tentam fazer de algo tão belo.


Tendo ficado claro que algumas pessoas de minha família seguiam e seguem a religião dos Orixás, não posso deixar de citar outro evento do qual participei quando criança e que, assim como as festividades para as Crianças, me marcou profundamente. Foi quando minha prima, ainda adolescente, “fez o santo”. Foi uma cerimônia muito bonita. Cheia de cores, beleza, cheiros. O filho dela recentemente seguiu os passos da mãe. Ouvi alguns comentários do tipo “como pode envolver uma criança nesse tipo de coisa”… Bem, esse tipo de coisa é uma religião e merece ser respeitada. Não pude deixar de fazer algumas comparações com o Bar Mitzvá no judaísmo e o Batizado no cristianismo. Todas são cerimônias de grande importância, significado e beleza. Por que o preconceito?

quinta-feira, setembro 24, 2009

Antes que eu esqueça

Era uma vez um blogueiro que desanimou e pensou não mais blogar... Então ele desistiu da idéia tola (?), olhou para a tela e recomeçou a dedilhar, com a intenção de dar continuidade a algo que por acaso começara, cheio de fantasmas pessoais para exorcizar em palavras escritas, repleto de dúvidas e temores... cá estou, querendo, desejando, ansiando para trocar uma idéia sobre tudo.

E, antes que eu me esqueça, falarei de um evento sobre o qual já deveria ter escrito aqui no TUIST (no Twitter foi online, ao vivo, em tempo real...). Falo do Back2Black Festival, ocorrido entre os dias 28 e 30 do mês passado, no Leopoldina. Eu fui, e conto aqui minha percepção da coisa.

Para começar, vou contar como eu via e entendia o evento. Começo citando o que está na página promocional, onde o Back2Black é apresentado como "um evento internacional que celebra a África como berço da civilização e pólo de discussão política e difusão cultural".

A primeira coisa que me chamou atenção, despertando meu interesse, além de ser um evento sobre a África (a África negra, como nos faz crer o título) foi a participação da bela zambiana Dambisa Moyo, sobre quem eu lia à época. A economista Dambisa Moyo, ganhou notoriedade internacional com seus estudos sobre a consequência prejudicial da ajuda internacional ao continente africano, estudo esse que gerou o livro "Dead Aid: Why Aid is Not Working and How There is a Better Way For Africa". Não era a primeira vez que eu lia esse tipo de argumentação. De qualquer forma, me interessei quando me deparei com textos sobre uma africana de Zâmbia que dizia "A ajuda não faz bem à África". Por essas e outras, pensei, vou ao evento.

No íntimo, considerando a gama de shows de artistas nacionals e estrangeiros, sobretudo os africanos, infelizmente tão raros nos palcos nacionais, eu sabia que a festa iria reinar sobre a discussão acadêmica, política e social que o evento iria promover.

A participação do professor Alberto da Costa e Silva, acadêmico imortal, grande autor sobre o continente africano, igualmente pesou em minha decisão de ir.

Como não sou bobo (nem tanto) nem hipócrita (nem tanto) os shows daquele dia, o último do evento, comandados por Mart'nália, também me animaram.

Antes mesmo de pôr os pés numa Leopoldina ricamente enfeitada, embora maltrada pelo esquecimento dos órgãos públicos e vândalos sociais, começaram as polêmicas. A primeira delas, como não poderia deixar de ser, foi o ingresso, dito incompatível com a situação social do negro no Brasil. O "dito" é por minha conta, uma vez que em muitos eventos gasta muito mais e considerando toda a produção, shows e palestras... bem, eu paguei e não me arrependo.

Outra questão de certa forma emaranhada na exposição da primeira: o entendimento, a interpretação do evento e seu propósito. A forma como alguns se referiam ao evento, já mostrava tudo. Diziam Black2Black e não o correto, Back2Black. Com tradução livre, De volta do Negro, o objetivo do evento propõe um novo olhar sobre o continente africano. Um retorno, um resgate, uma reaproximação, uma releitura. Esse era o meu sentimento enquanto estive no evento, jamais pensei em Back2Black como uma festa típica, folclórica, fantasiosa... mas muitos assim pensaram, e foram lá com esse espírito.

Eu vou resumir aquelas horas no festival expondo o que achei de bom e o que achei de péssimo, não teve meio termo, não para mim.

Material. A decoração me impressionou! Painéis, mapas imensos com diferentes temáticas envolvendo o continente africano. Fotos gigantescas exibindo a realidade e a diversidade cultural e social do continente. O palco grandioso. O ambiente saudoso de uma Estação Leopoldina dos tempos do Trem de Prata. Os vagões estacionados, transformados em lojas, livraria...

Musical. Embora a acústica do lugar não ajudasse, os shows de Mart'nália e seus convidados foram ótimos. Luiz Melodia, Margareth Menezes, Angélique Kidjo (incrível!!!), Omara Portuondo, dentre outros.

Acadêmico. Parabéns ao professor Alberto da Costa e Silva. Soube conduzir com elegância o pouco tempo que lhe foi ofertado. Uma aula em poucas palavras. Dambisa Moyo, igualmente elegante, demonstrou toda a inteligência e coerência na defesa de suas idéias. Valeu cada argumentação, cada resposta.

Bem, acima eu citei coisas boas, coisas positivas. Como não vivemos num mundo perfeito... que tal a outra parte da realidade?

Material. O que foi ofertado não pode ser aproveitado, não plenamente. Falo especificamente das projeções de vídeos (filmes, documentários...) que dificilmente encontraremos na locadora. Se o ambiente abrisse as portas mais cedo, talvez fosse possível "curtir" um pouco disso. Mas, pelo menos no dia em que fui, o tempo entre a abertura dos portões e o início das palestras foi curto.

A denúncia. O consumo drogas era praticado livremente durante os shows. Pessoas fumavam maconha como se fosse a coisa mais lícita do mundo.

Os preços. O ingresso, já disse, não reclamo. Desembolsei a grana com um pensamento, com uma intenção e uma expectativa. Mas, e os comes e bebes. Realmente, aquilo alí não era algo, digamos, popular. Entre patrocinadores e apoiadores do evento, estavam empresas e instituições bem conhecidas, tais como Petrobras, Vale, o governo brasileiro através do Mistério da Cultura e da Fundação Cultural Palmares, a empresa de telefonia Oi, o governo do Estado do Rio de Janeiro, a rede de Hotéis Othon e, uma grande ironia em se tratando da temática do evento e, particularmente da presença de Dambisa Moyo, o evento também teve apoio do Banco Mundial.

O ministro. A composição da mesa na conferência contou com a presença mais que marcante de Gilberto Gil. Foram momentos de constrangimento. A verborragia cega desse personagem brasileiro, grande artista, é de causar espanto e fazer dormir ao mesmo tempo. O responsavel pelo convite deveria ser preso. Gil conseguiu estragar parte do que o evento ofereceria de melhor.

O desfalque. Graça Machel, que deveria compor a mesa na conferência "A África na Construção do Mundo. O Futuro", não pode estar presente. Uma lástima.

O resultado de tudo. Ficou o show pelo show. Perdeu-se ali uma grande oportunidade de se fazer juz ao título do evento. A África, com o que foi apresentado ali continuará sendo algo fantasioso, irreal, distante. O Back2 se torna Far from de maneira cruel. Uma pena.

Mas alguém faturou!