sexta-feira, janeiro 20, 2012

A Foice, o Martelo e o Swoosh

De uma das janelas da empresa onde trabalho é possível ver a Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A parte de traz da igreja, próximo à Avenida Rio Branco, é palco de diversas manifestações de todo o tipo.

Ali naquela calçada, onde tantas pessoas se reúnem, uma pichação já gasta pelo tempo, pela chuva, pelos pés de quem ali passa, chama minha atenção. E sempre me faz refletir sobre a posição “política” de algumas pessoas (e a minha também) e os atos e posturas dessas mesmas pessoas (me incluo).

Morte ao capital

Capital aí entendido como patrimônio, riqueza, bem econômico. O mesmo capital usado para produção e aquisição da tinta usada naquela inscrição. O mesmo capital utilizado para custear o deslocamento do autor da inscrição de sua casa até aquele local, para comprar sua roupa, seu calçado, talvez seu relógio, celular… A lista parece infinda.

Há poucos dias caminhava na praia quando notei a tatuagem num rapaz que. Tatuagem grande, no braço. Era uma foice e um martelo cruzados. O símbolo do comunismo gravado na pele contrastava com as “roupas de marca” e a sandália havaiana.

Prestem atenção nos detalhes, nas características dos participantes das manifestações com viés dito comunista. Lembro de uma expressão engraçada: “meio-intelectual, meio-esquerda”.

Quase 10 anos depois de terminar o ensino médio (então segundo grau), o caminho que encontrei para ingressar na universidade foi me preparar (pois podia pagar) num pré-vestibular. Algo que marcou esse período de quase um ano de estudos foram as aulas das disciplinas de ciências humanas. Destaco história e geografia.

Eu era um dos mais velhos na sala, na mesma faixa-etária dos professores. Procurei tirar proveito daqueles momentos, me atentando para o que realmente me interessava, isto é, me preparar para as provas. Mas não deixo de me lembrar do lado negativo, até pernicioso. As aulas de história e, principalmente, de geografia, eram completamente doutrinárias e com viés esquerdista bem agressivo. O deslumbre exercido por aquelas “aulas” leva muitos a escolherem, ali, cursar aquelas disciplinas. Parecia uma igreja.

Já na faculdade, mais situações, digamos, interessantes, envolvendo essas mesmas figuras que querem igualdade mas se consideram diferentes, especiais. Desprezam o capital, mas não dispensam a cerveja e outras bebidas fabricadas por grandes empresas com presença mundial. Idolatram Cuba, mas não viveriam naquela realidade, a não ser por razões “acadêmicas”, devidamente financiadas e por período determinado.

Figuras que só conseguem “encarar” uma foice e um machado assim, numa tatuagem, numa imagem, num imaginário, numa indumentária. Assim como carregam, financiam e promovem outros símbolos bacanas, legais, da moda... como a Swoosh. Arrisco dizer que entendem mais desse último.

Próteses e prontuários

Problemas e problematizações em gestão documental.

Recentemente um dos assuntos mais comentados diz respeito aos problemas com próteses para implantes mamários fabricadas criminosamente com silicone industrial. São próteses das marcas PIP (francesa) e Rofil (holandesa) utilizadas por milhares de pessoas.

Numa das muitas reportagens sobre o assunto, algo passa quase despercebido. Trata-se da importância dos prontuários médicos. Leiam (e assistam) aqui.

Uma das vítimas desse crime declara não se lembrar da marca da prótese que usa, embora tenha recebido “um certificado como se fosse uma nota fiscal” e não saiba onde guardou, ou mesmo se ainda existe.

A reportagem segue observando que o médico deve saber qual a marca usada em sua paciente e que os prontuários (onde tais informações devem ficar registradas) são mantidos por 20 anos.

O prazo citado é estabelecido pelo Conselho Federal de Medicina em sua resolução n°1.821 de 2007 e diz respeito aos prontuários em suporte de papel. Diz a resolução em seu artigo oitavo: 

Estabelecer o prazo mínimo de 20 (vinte) anos, a partir do último registro, para a preservação dos prontuários dos pacientes em suporte de papel, que não foram arquivados eletronicamente em meio óptico, microfilmado ou digitalizado.

Após o pacote de estímulos lançado em 2009 pelo governo dos Estados Unidos, conhecido como “American Recovery and Reinvestment Act”- que prevê quase 20 bilhões de dólares de investimentos em tecnologia de informação em saúde - vejo que muitos começaram ou intensificaram discussões, pesquisas e inovações na gestão de informações em saúde, mais especificamente em meio digital.

Já podemos ver que muitos hospitais, inclusive da rede pública, fazem uso do prontuário eletrônico como ferramenta do dia-a-dia. Porém, não percebo a existência de uma discussão mais a fundo no que diz respeito a preservação dessas informações.

Podemos revirar as gavetas e encontrar certificados de vacinação ou mesmo uma prescrição médica de décadas atrás. Será que podemos dizer o mesmo dos registros mantidos em nossos computadores?

Se em grande parte das instituições de saúde a atividade-fim é tratada de maneira tão “descuidada”, o que esperar do tratamento dispensado aos prontuários?

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Conhecimento puro e aplicado

Bunker Roy: Aprendendo com um movimento de pés-descalços

Respeito muito o ensino dito superior, quando este se apresenta (e se representa) num nível além do simples "estar na faculdade".

Se a venda de diplomas constitui um crime, o frequentar a faculdade ou universidade com vistas apenas ao canudo não me parece algo que se diga nobre. Mesmo se constitui a realização de um sonho.

Também não posso deixar de considerar aqui o mundo animal no qual vivemos, onde as regras do mercado parecem ditar projetos que deveriam estar acima disso tudo.

Esses e outros fatores talvez contribuam para um distanciamento entre a universidade e a sociedade; para uma desvalorização do ensino realmente superior. Além de certa falta de apreço para o conhecimento que se adquire na vida e para a vida.

O vídeo abaixo fala desse tipo de conhecimento negligenciado. E como pode ser resgatado para um desenvolvimento de nível superior. Um conhecimento pé no chão. Sustentável, para se usar a palavra da moda.

Importante também destacar o protagonismo feminino no desenvolvimento de uma sociedade. Mais uma vez, fica evidente. Já falei aqui no TUIST como admiro as mulheres africanas "símbolo de resistência e força, se considerarmos todas as desventuras por quais passam, e com amor e atenção, duplicam essa força para que possam a seus filhos proteger".

"Em Rajasthan, na Índia, uma escola extraordinária ensina mulheres e homens do meio rural - muitos deles analfabetos - a tornarem-se engenheiros solares, artesãos, dentistas e médicos nas suas próprias aldeias. Chama-se Universidade dos Pés-Descalços, e o seu fundador, Bunker Roy, explica como funciona."

 

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Educação. Apenas um negócio?

O título da matéria publicada no O Globo Online é "Universidades privadas, em crise, demitem e fecham unidades no RJ". Leia aqui, caso o jornal não tenha cometido o crime informacional e arquivístico de alterar o link, tornando a informação inacessível.

É preocupante quando a educação se torna um negócio que visa apenas o lucro. Não sou contra o ensino privado, mas quando se coloca objetivo aparentemnte único a obtenção de lucros em instituições que deveriam ser de ensino (pesquisa e extensão talvez seja exigir muito) temos um problema a curto, médio e longo prazo.

Muitas dessas universidades particulares atendem a demanda crescente que o Estado não consegue suprir. Embora, como sabemos, esse mesmo Estado as subsidia de forma direta ou indireta. Logo, temos dinheiro público "ajudando" a gerir tais instituições. 

Abrir e fechar universidades como se fossem lojas cujo mercado local não foi condizente com o planejado (não vendeu tanto quanto se esperava) é a prova de que a educação não foi levada a sério. Se é que foi considerada. 

Considero uma tragédia anunciada. 

sábado, janeiro 07, 2012

Arquivo: informação viva!



Rascunhos sem valor jurídico”. Essa descrição foi fixada num caixa a ser encaminhada ao Arquivo Central de uma grande empresa.

Poderíamos até intuir que, apesar da ausência de valor jurídico, o conteúdo poderia ter algum valor histórico, sendo, pois, de guarda permanente. Mas não creio que se atribua, numa grande empresa, o termo “rascunho” a algo que possa ter valor secundário. Imaginem se uma empresa de médio ou grande porte começasse a armazenar o volume diário de post-its rabiscados por seus funcionários. Uma situação tão bizarra que impensável para qualquer gestor inexperiente.

Talvez o apego de algumas pessoas por tais papéis, mesmo que reconhecidos e declarados rascunhos, tenha algum fundo emocional, até familiar. É o que talvez possamos compreender na vida pessoal quando se perde um ente querido. O valor que não se apaga com a morte e se fixa em nosso cotidiano, nos tornando de certa forma apegados a quem já se foi (aqui, sem considerações filosóficas ou religiosas).

Na gestão das informações e arquivos de uma empresa, porém, não cabe esse apego. Se não tem valor, não é arquivo! Não deve, pois, ser conservado, mantido, guardado. Mas o que se vê é muito diferente do ideal. Se por um lado a maioria dos programas e projetos de gestão documental não considera o fator humano, por outro existe um tipo de humanização bem evidente no trato com os documentos ditos de arquivo. Nesses casos, ao contrário do que se ouve na graduação em Arquivologia, temos o Arquivo Morto.

Numa espécie de apego informacional, vêem-se salas, repartições, mobiliários rotulados, sinalizados como “Arquivo Morto”. Caixas assim denominadas e cujo conteúdo é descrito como “rascunho sem valor jurídico”. Além, é claro, de pastas na rede nomeadas da mesma forma.

O que vemos morrer, nesses casos, é a gestão documental de qualquer organização.

Durante pouco mais de três anos trabalhei num setor cuja atividade principal era, de certa forma, garantir a segurança operacional (de ativos e pessoas e meio-ambiente e processos) de uma grande empresa. Nesse período, foram vários os programas voltados à conscientização de trabalhadores sobre segurança. Percepções, ato inseguro, análise, planejamento das atividades… Um trabalho contínuo de mudança de cultura que usava recursos diversos como palestras, padronização e normatização de processos, materiais impressos, treinamentos, sinalizações. Ou mesmo ações mais firmes e diretas, tais como interrupções da atividade que estivesse comprometendo a segurança do trabalhador, da instalação, do processo, do meio-ambiente. Algumas vezes mesmo com advertências formais.

Algumas empresas já investem nesse tipo de conscientização. Embora, a meu ver, de maneira ainda tímida. Por vezes até sem jeito. Mas isso já sinaliza uma percepção por parte dos gestores de que perdas podem também ocorrer num ambiente de insegurança informacional. E não falo aqui de pilhas de papéis sem valor jurídico caindo sobre um funcionário. Falo de processos emperrados quando uma informação necessária não está disponível ou quando o tempo para recuperá-la (nesse caso, que tal, ressuscitá-la?) é demasiado. Falo de perdas financeiras por uso de informação desatualizada ou descontextualizada ou falsa. Falo de risco por acesso indevido a informações cujo conteúdo é restrito. Falo de aumento de custo operacional e administrativo com a manutenção de espaço destinado a guarda de informações sem valor, ou com a ampliação da capacidade de armazenamento dos servidores. Falo de negociações ou processos interrompidos ou mesmo tendo de ser refeitos quando a informação que deveria ser compartilhada fica sob guarda de uma única pessoa, que está ausente e salvou informações corporativas em unidade de armazenamento pessoal. E muitos outros atos informacionalmente inseguros que deveriam ser evitados, coibidos.

Por isso penso que campanhas de conscientização deveriam ser constantes nas empresas. Funcionários e gestores devem ser capacitados para lidar com informação produzida, recebida e armazenada na empresa.

Creio que existe ainda muito a ser feito em termos de gestão documental e informacional nas empresas. Pretendo escrever mais sobre minhas experiências, visões, preceitos e preconceitos arquivísticos.

Começando 2012


Não farei aqui um balanço do ano anterior. Isso seria mais adequado ao final daquele ano. Porém, não descarto a possibilidade de fazê-lo num próximo post. Afinal, estamos apenas no começo.

Nesta primeira postagem desse novo ano que se inicia, eu desejo que todos tenham um 2012 de paz, com paz e em paz. Coloco como exceção os bandidos que permeiam a administração pública em suas diversas esferas e diversas entidades. Para esses eu desejo um 2012 repleto de turbulências, de constrangimentos, de conflitos, de confusões, de noites insones. E, sempre que a Lei permitir que se faça Justiça, lhes desejo também algemas, camburões, celas. Votos esses que se renovarão a cada ano.

Desejo que todas as pessoas se conscientizem de que suas ações e opções têm conseqüências. E que tais conseqüências não são tão egoístas quanto aquelas ações e opções. Paranóias a parte, aquele papel de bala jogado na rua pode ter um efeito tão devastador quanto a má aplicação (ou desvio) da verba pública destinada ao saneamento de uma localidade.

Logo, antes de xingar aquele político que você elegeu democraticamente, avalie suas próprias ações, suas próprias opções.

Desejo que todas as pessoas tenham saúde (física, mental, emocional). E que sejam agentes de sua própria condição.

Desejo que todas as pessoas percebam que viver na era da informação não significa viver em tempos de passividade. Critiquem e avaliem a informação recebida e possivelmente gerada. Utilizem de forma consciente as informações que lhes possam auxiliar no trabalho, nos cuidados com a saúde, na busca e no fortalecimento de seus direitos e na percepção e conscientização de seus deveres, em seus estudos, na administração de sua vida. Preservem tudo que possa ter um valor permanente e positivo em suas vidas. Descartem o resto.
Desejo que os momentos de alegria sejam mais constantes e que perdurem.

Enfim, desejo força aos que já começam o ano com as provações, privações e perdas causadas por enchentes e deslizamentos.

Feliz 2012!


A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...