quarta-feira, setembro 01, 2010

Sarney, PLS 166 e a fumaça que encobre a história

Sempre me pergunto a razão de José Sarney ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Figura conhecida mais por sua atuação no cenário político do que no mundo literário, este maranhense não desperta muitos sentimentos bons nas pessoas que conheço. As palavras corrupção e coronelismo o acompanham. Uma pergunta que já virou piada é "você já leu algum livro do Sarney?". Não vou e nem posso julgar sua qualidade literária, até porque a desconheço, nunca li seus livros. Já me basta sua influência política.

Mas um texto de sua autoria está sendo motivo de discussões e vale conhecer, mesmo em parte. Até porque não se pode combater ou criticar estando completamente ignorante. Este texto, um Projeto de Lei do Senado, é como um livro, com suas mais de 250 páginas, e capítulos e parágrafos.

Li muitos livros que me decepcionaram no fim. Algumas vezes por um parágrafo, outras pela sensação de que algo deixou de ser escrito. Este "livro" é mais um da autoria do senador-escritor que não li, pelo menos não por completo (fui direto ao ponto). Porém, por se tratar de um projeto de lei, creio que a leitura parcial, direcionada ao item de interesse, não é empecilho para o entendimento da gravidade.

Um único artigo, uma pequena parte, e bastou para que o "livro" mostre que propõe um crime histórico. Desrespeita o patrimônio documental do Brasil. Facilita o esmaecimento da memória, tornando-a inacessível sobre a fumaça da incineração de documentos públicos.

Tomei conhecimento do fato através de um texto (enviado por uma amiga e colega arquivista) do jornalista Elio Gaspari publicado em 21 de julho de 2010 no jornal O Globo. Acho que não fui o único. Resolvi pesquisar na fonte (o Senado) e, ao mesmo tempo que me estarrece comprovar mais uma tentativa de queimar a história e despedaçar a memória, fiquei contente por conhecer a iniciativa de combate a tais tentativas. No contexto da PLS n° 166, com suas mais de duas centenas de páginas, temos a emenda proposta pela ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História) que, com 5 páginas, nos dá uma aula de importância da preservação da memória e de como podemos nos organizar para fiscalizar os delírios desses nossos empregados, desses nossos servidores.

Imortal deve ser a memória, a história, a democracia.

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