sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Apartheid, after 14 years

The recent events at Free State University demonstrated that racism is still very alive in South Africa. The segregation system was officially end in 1994, but these 14 years were not enough to heal the wounds. The video showing white students humiliating black staff members of the university was shocking. But it was not the only one that made us think about the real situation of racial relations in SA. There was a recent case of murder when a white man entered an informal settlement in Skielik and opened fire on residents, killing four, including two children (one of 10 yo, the other was a 3-month little baby). Not forgetting the case of a Forum for Black Journalist, when a white journalist was forced to leave.

Those cases confirmed that injures were not cured yet. It demands time and, of course, good will and humanity.

I hope this case could be solved soon with the offenders brought to justice. I also pray that this case do not seriously damage the post-apartheid progress in building democracy on that country.
But it is also important to look at the poor, because there will be no peace or democracy if people continue to be ignored by the government. Don’t matter if the state is being rule by white, black, mixed of a blue person. The more the distance between poorest (rising since 1994) and richest, the less country became a real peaceful place to live. It’s very sad to read interviews transcriptions where people (black and poor) say “life was better under apartheid”. It was really chocking for me.

Abahlali baseMjondolo, a mass movement of shack dwellers and other poor people in SA is fighting against this new kind of segregation. The states try to hide poverty by moving people far from cities, by force. The skin color and social situation didn’t change.

You can have more on Abahlali visiting its website. There you can find, among others, texts, videos, news about the movement. The entry on Wikipedia is also enlightening.

Please also check this short film produced by Sleeping Giant. It’s a documentary, called Dear Mandela, about this new kind of apartheid in South Africa.


quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Another song of freedom

So, won't you help me sing? And free your mind!

Favela fabulous

É o título da matéria de Alice O'Keeffe no New Statesman. Fala do AfroReggae e sua atuação nas comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas. Mais importância, fala do impacto que a iniciativa teve e tem na vida de muitas pessoas que encontraram um caminho na música, nas artes. O grupo não se restringe à favela, mas tem lá seu principal objetivo: mostrar outro caminho.

A matéria, que cita facções criminosas do Rio e a polícia "notoriamente" corrupta, mostra um AfroReggae consciente de que vivemos num mundo capitalista e que não parou no tempo. Hoje é uma marca apreciada por muitas grandes empresas, mas que não se deixa escolher, escolhe.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O obituário de um queniano

"Eu os amava, meus compatriotas.
Eu os amava sem pensar na linhagem de seus pais.
Eu amava o Quênia. Mas olhem o que este país fez em mim:
sodomizou meu senso de humanidade e meu orgulho".
Simiyu Barasa


Após ler um texto de Benedicto Ferri de Barros, intitulado “Poder e tragédia no Quênia”, publicado na versão on-line do Diário do Comércio, fui à busca de dois textos que ele cita. O primeiro deles foi publicado na Veja de 20/02/2008, por Roberto Pompeu de Toledo, no qual o autor faz referência ao segundo texto, este do queniano Simiyu Barasa e com o título "O obituário de Simiyu Barasa".

O texto deveria ser lido na ONU. Deveria ser veiculado pelo governo queniano. Deveria estar disponível a todos aqueles que habitam o país palco de um dos episódios mais tristes da história recente. Triste e irracional. Não análise acadêmico-jornalística, é um relato, cheio de sentimento, emoção.

Barasa, jovem de vinte e poucos anos, é um escritor, roteirista de TV e cineasta queniano. Mas acima de tudo é um africanista, um pensador, um crítico. Em seu obituário em vida ele fala dos acontecimentos recentes, dos sentimentos de medo, amor, indignação. Da incompreensão dos motivos, insignificantes e banais, que levam seres humanos a matarem seres humanos, de forma fria e cruel. Não se trata de um comentário de um telejornal que reproduz algo que foi visto por uns e publicados por outros. É, em última instância, um relato de um queniano que vive a situação.

Mesmo após décadas de independência, o território que o mapa mostra como Quênia, e que Barasa acreditava ser sua pátria, continua fragmentado.

"Toda sua história pregressa se caracteriza por relações frágeis
e pouco amistosas, quando não declaradamente hostis.
Assim, o Quênia não regrediu para a tribalização.
Apenas não chegou à união nacional de sua população".
Benedicto Ferri de Barros

Eu salvei o texto de Barasa em formato pdf. Pode ser baixado aqui ou aqui. Em inglês.

O trote, a esmola e o alcoolismo

Época de início das atividades acadêmicas. Calouros e veteranos se encontram. O processo de iniciação pede o famoso trote. É uma experiência única e de suma importância, com impacto no decorrer da graduação (e da vida). Permite, ou deveria permitir a integração do aluno ingressante com os que lá estão. Conhecimento do ambiente universitário e suas possibilidades, tais como xerox, biblioteca, laboratórios, secretarias, departamentos, diretório acadêmico... Enfim, onde e como conseguir o quê.

Mas o que se vê são trotes repetitivos e já esperados, com alunos pintados nas ruas passando pela experiência de pedir dinheiro. A esmola que muitas vezes é negada aos pedintes originais, de Janeiro à Dezembro, é dada (ou negada, mas com risos amistosos), à elite do país (*) duas vezes ao ano, no primeiro e segundo semestres.

(*) Ser universitário num país onde existem tantos analfabetos, tantos que passam fome, é para poucos.

Passei pelo trote. Porém, no dia da saída para pedir dinheiro eu não estava presente. Motivos particulares. Mas fui pintado, participei de brincadeiras, algumas até legais. Depois, o que todos aguardavam: bar. Eu, como já gostava (e gosto) fui de bom grado. Cerveja gelada, novos colegas, bate-papo, uma perspectiva pela frente, animação. Ótimo.

Eu observava atentamente alguns desses colegas. Eu, um "velho" se comparado a média da turma, olhava aqueles novatos em algo que já conhecia há tempos. O álcool. Fiquei impressionado como embarcavam naquilo. Lembrei de minha primeira cerveja, na padaria do Seu Mô, como o chamávamos. Lá em Mesquita com a turma (a melhor turma, infelizmente hoje dispersa) do antigo segundo-grau no Colégio Estadual Brasil. Formandos de 1995. Um ambiente diferente do que senti, cerca de 10 anos mais tarde, na universidade. Antes era mais amigo (minha percepção). Não estou justificando, só lembrando e comparando. Ah, antes disso, mais novo ainda, já havia provado Malzbier. Engraçado, não me deram um Machado de Assis ou um Monteiro Lobato para ler, mas me ofereceram Malzbier e me deixavam assistir Xuxa. Que início!

Mas, seguindo. Não sou nenhum puritano em termos de bebida. Cerveja, chopp, uísque, vinho, cachaça (produto nacional, promovido até por nosso presidente). Procuro não exagerar, apesar de alguns lapsos, não tantos quanto pensam. E também leio Bukowski. E ali estava eu, vendo aquele pessoal novo, que tomava o primeiro gole como se fosse parte indispensável do trote. Li casos em que os calouros se disseram obrigados (um até com desfecho trágico), mas esse não era o caso ali. Estavam fazendo uma opção e a questão da inserção no grupo era usada como desculpa.

Penso agora nas campanhas do Ministério da Saúde e outras instituições para tentar combater o alcoolismo. São alertas da maior importância, em face às tragédias de vida que se repetem cotidianamente, onde o álcool é a ferramenta. Proíbem a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais e lançam mão de outros artifícios. Até implicam com o Zeca. Mas não me lembro de nada sendo feito naquele ambiente, no trote. Não digo proibir. Chega disso, não adianta. Digo conscientizar, ou pelo menos tentar. São jovens que como sabemos, na maioria das vezes, não têm necessidade de contribuírem com as despesas de casa e, como muitos conseguem estágios já nos primeiros períodos (fora a mesada para os mais abonados) sobram recursos para usar nas eternas choppadas e encontros nos bares sempre próximos ao ambiente acadêmico, para facilitar. São o que eu chamo de consumidores de alto poder aquisitivo.

Repito e até peço, se puderem, não me taxem de puritano ou hipócrita, por favor. Eu era um dos grandes consumidores de cerveja vendida nas cercanias da universidade. Isso fora os bares (alguns dentro do campus) a caminho do ponto de ônibus. Como muitos dizem "eu não presto". Mas me preocupo com essa juventude. Não sou alienado quantos aos riscos. E também não quero que eu nem "os meus" sejam vítimas da inconseqüência reinante.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

África, te une!


África, meu antepassado fundamental, te une para o bem de nosso povo.
Leite ou Biocombustível

Já era previsto. Produzir para fazer um carro se mover parece ser mais vantajoso que produzir para alimentar um ser humano. A lógica é a do mercado. Humanismo, consciência, amor ao próximo, nada. É preciso pagar as contas. É preciso lucrar, e cada vez mais. É preciso comprar um carro novo. E abastecê-lo. Aquecimento global? Tudo bem. O carro tem ar-condicionado, e tudo movido com o santo Biocombustível.

É fato. Na Namíbia, a demanda por Biocombustível fez subir o preço do leite. É que a matéria-prima para a fabricação do óleo santo é a mesma usada para alimentar a vaca leiteira. Parece que não houve sequer um impasse. A opção foi feita.

O resultado foi uma alta nos preços da ração, em virtude da demanda para o Biocombustível e, com isso, o leite também encarece.

Fonte: New Era
Incoerência?! Equilíbrio de forças?

Eu vi o prato: lingüiças fritas, pedaços de aipim (mandioca) fritos, dois pastéis, dois figos em calda (?), e muitas outras guloseimas bem "leves". Prato alto, estilo morrinho ou "de peão". Pegou um pedaço de aipim frito mesmo antes de sentar. Pra quê perder tempo? Para beber, o garçom atento anotou o pedido: Coca Zero!!!

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Às origens

Lembro-me do tempo de escola, quando tínhamos aqueles passeios básicos: fábrica da Coca-cola (onde se formavam consumidores), zoológico (não me lembro de ter ido), Quinta da Boa Vista, Jardim Botânico... Desses, só me recordo da fábrica. Hoje optaria por outra: a da AMBEV. Os tempos são outros.

Tive essas lembranças ao ler uma matéria na revista Ebony sobre o passeio que alunos da KIPP Ways Academy, uma escola pública (ou seria mais adequado dizer, colégio gratuito) de Atlanta, fizeram. A escolha foi feita pelos próprios alunos. Em sua maioria, se não todos, afro-americanos, os alunos queriam (e foram) conhecer um país da África. O escolhido foi Gana. Angariaram a verba, foram presenteados com passagens áreas da Delta Airlines e lá foram. Tiveram contato com a cultura local, com parte da exuberante natureza (paisagens montanhosas, cachoeiras, rios), conheceram uma escola, fizeram passeios "radicais" (como atravessar uma ponte feita de cordas), inesquecíveis e emocionantes. O ponto alto, pelo que notei no vídeo do passeio – Journey Into Africa -, foi quando conheceram um calabouço (masmorra, prisão) onde os africanos eram mantidos antes de serem comercializados como escravos. Nesse momento, podemos ver que grande parte das crianças chora. Elas se abraçam e se consolam. É a lembrança do que não viveram, mas que os marca até hoje.

Lembro que tive uma experiência parecida ao visitar uma exposição sobre a escravidão. Não me recordo o ano, mas foi na Casa França-Brasil. Lembro que fiquei emocionado quando vi os instrumentos usados para aprisionar o escravizado, para torturá-lo. Acho que as crianças daquela escola sentiram algo assim. Não se tratava mais de gravuras em livros escolares, que traziam parcas informações sobre o período (mudou?). Era palpável, real e assustador. Aqueles instrumentos tinham sido usados em seres humanos.

Por mais distante que o rio siga, ele nunca esquece sua fonte
Provérbio Ioruba

However far the stream flows, it never forgets its source
Yoruba Proverb


Às margens de um comentário

Vejam a encrenca que um comentário escrito às margens de um texto pode fazer. Num relatório do governo Inglês sobre a já desmistificada presença de armas de destruição em massa no Iraque, uma palavra foi escrita às margens: Israel.

Essa palavra foi escrita ao lado do parágrafo que dizia ser o Iraque o único país a desrespeitar audaciosamente as resoluções da ONU quanto ao uso de armas de destruição em massa. Por se tratar de um dos países mais protegidos e acobertados do mundo (vejam o post The Israel Lobby), como não poderia deixar de ser providenciaram para que tal anotação não viesse a público. Primeiro disseram que poderia prejudicar as relações entre o Reino Unido e Israel. Depois disseram que se tratava de informação sobre a segurança nacional. Usaram artigos distintos do Freedom of Information Act. Mas a própria lei de liberdade de informação possibilitou que o documento secreto pudesse ser lido pelo Guardian, jornal inglês.

Não houve objeção para outras notas laterais. Como a que foi escrita ao longo de relatos tais como “… nenhum outro país, além do Iraque, por duas vezes lançou ataques contra vizinhos” onde foi escrito “Germany?” e “US: Cuba, Guatemala, México”. E quando o relatório fez referência ao uso de armas químicas, foi anotado “Japan in China?”

É. A verdade dói, para alguns. Mas assim podemos comprovar a cara-de-pau de certos países, ou melhor, governantes, dirigentes, estadistas que são verdadeiros criminosos.
Sami Al-Hajj

A propósito da última postagem, não podemos esquecer de Sami. De origem sudanesa, o repórter da Al Jazeera está preso em Guantánamo desde de 2001. Foi considerado "inimigo combatente" numa viagem à trabalho no Afeganistão, mesmo estando devidamente identificado e autorizado. O curto vídeo abaixo resume um pouco do caso. Há informações, divulgadas pela esposa, Asma Ismailov, de que Sami poderia ser liberdado em Março. Ele está muito doente, ficou diabético e desenvolveu problemas reumáticos, renais e cordiácos, além de hipertensão. Penso que se a intenção dos EUA é desenvolver o ódio, estão se saindo muito bem. Mais ódio, mais conflitos, mais desculpas para guerras, mais armas, que são fabricadas e compradas pelo governo estadunidense, e assim alguns enriquecem. Imagino o que pensam e sentem as crianças que tomam conhecimento desses fatos, ocorridos com seus conterrâneos, com amigos de seus pais, com seus entes queridos.

Mais sobre o caso de Sami al Hajj, clique aqui. Para a petição do Repórteres sem Fronteiras, clique aqui.

Sayed Pervez Kambaksh

Este é o nome de um estudante afegão de 23 anos, que foi preso ano passado acusado de blasfemar contra o Islã e condenado à morte. O crime que Sayed cometeu foi fazer download de um documento, um artigo, sobre o Islã e os direitos das mulheres de um site Iraniano. Logo foi questionado por seus próprios professores, que disseram terem sido informados por outros estudantes que o artigo teria sido escrito pelo próprio Sayed. Uma mentira. Os nomes dos estudantes não foram revelados, se é que existem.

Logo depois foi procurado pelo serviço de inteligência nacional do Afeganistão, que o prenderam por acessar o website. Ao protestar, disseram que era para sua própria segurança, pois corria o risco de ser assassinado. Seu caso foi amplamente divulgado pelo jornal britânico The Independent, que iniciou uma petição para pressionar o governo afegão no sentido de cancelar a execução de Sayed.

Dividindo a cela com assassinos, ladrões e terroristas, Sayed também foi agredido por presos fundamentalistas. Não teve direito a defesa, seja com advogado ou mesmo falando a seu favor. Os juízes, alguns guardas e o "promotor", o trataram, desde o início, como um criminoso. Quatro minutos; este foi, segundo ele, o tempo necessário para que o julgassem. O veredicto: culpado. Pena: a morte.

Esse é mais um caso de inexistência dos direitos humanos. E num país que seria aliado de Bush. Mas isso é outra história. Não é novidade e nem exclusividade daquele país o que se vê no caso de Sayed. Abu Ghraib e Guantánamo também são exemplos disso. Claro, nem todos os presos são santos. Mas muitos são inocentes, pelo que é reportado internacionalmente.

Mas o caso de Sayed Pervez Kambaksh é emblemático. Direitos humanos sendo violados pelo simples fato de buscarem informações sobre... Direitos humanos.

sábado, fevereiro 23, 2008

Falando nisso...

Já havia feito aqui uma "propaganda" do Google Books. Assim como também coloquei um post onde indicava o livro Histórias do Tio Jimbo, de Nei Lopes. Bem, combinando uma coisa e outra com o post anterior, verifiquei agora que já podemos ter acesso (mesmo que limitado) à obra literária do grande sambista-intelectual. E por que não começar com uma obra de referência, com direito a prefácio do professor Hélio Santos (este, autor de A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do circulo vicioso)? É isto que temos em Enciclopédia da Diásporá Africana, disponível do Google Books.

Clique aqui e, na página que se abrirá, clique no botão [Pré-visualizar este livro]
Faraós negros

A tarefa é árdua, porém interessante, gostosa, reveladora. Estudar a história africana. Aquela em que o negro é protagonista. O que a Lei (10.639) hoje torna obrigatório deveria ser algo natural, mas, como é sabido, muitos foram os que trabalharam para que isso não viesse à tona.

O que a edição de fevereiro da National Geographic trouxe é só a ponta do iceberg. Novo? Não. Estudiosos afrocêntricos já falam sobre isso há muito tempo.

Indico. Faraós negros.
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terça-feira, fevereiro 19, 2008

Pobreza faz mal à saúde

Parece chover no molhado, mas é o que comprova uma pesquisa apresentada semana passada no encontro da AAAS (American Association for the Advancement of Science). A investigação, empreendida por diversas universidades estadunidenses foi resumida num artigo do Financial Times que inicia dizendo “Poverty in early childhood poisons the brain...”. Algo como “Pobreza na infância envenena o cérebro…”.

Para quem pensa que o país do Bush é uma maravilha, essa pesquisa e os artigos e comentários que desperta servem para desmistificar certas coisas. Existem pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza nos EUA. Vejam isso! O país que mais investe em guerra, gastando bilhões em armamento, em máquinas feitas com o objetivo principal de levar a morte e destruição (na realidade o objetivo principal é enriquecer alguns) e não para garantir a paz como é pregado, não conseguiu erradicar a pobreza de seu território.

Bem, mais voltando a pesquisa e ao artigo… A pesquisa diz que crianças que são criadas em famílias muito pobres e com baixo status social estão sujeitas a níveis de estresse maléficos à saúde que causam danos no desenvolvimento neural. Um efeito acima, segundo a pesquisa, daqueles causados por má nutrição e exposição a toxinas. Os pesquisadores pedem que as políticas sociais olhem mais para essa parcela da população, uma vez que “a fundação de qualquer problema social futuro começa nos anos iniciais”. O efeito mais grave observado foi quando à linguagem e a memória, o que surpreendeu os pesquisadores.

Num comentário de Paul Krugman do NY Times, o jornalista critica o fracasso do governo no combate à pobreza em seu território, um projeto que parece abandonado, e diz que viver na pobreza é como estar exilado no próprio país, uma vez que a pessoa fica excluída da sociedade. E é isso que envenena o cérebro das crianças.

Mas, segundo ele, infelizmente o que essa comprovação consegue, não é uma reflexão e ações para reverter o quadro e sim demonstra a criatividade em apresentar desculpas. A primeira é que os pobres estadunidenses não seriam tão pobres assim. O autor lembra o furacão Katrina e se pergunta se as pessoas que dão essa desculpa não teriam pelo menos assistido aquelas cenas na TV. Ou se não olham para o lado ao andarem pelas grandes cidades.A segunda é que vivem na terra das oportunidades, onde as pessoas podem sair da pobreza, trabalhar e enriquecer. Simples assim. O óbvio é que casos de superação incrível não são tão comuns assim.

O jornalista abre um parêntese quanto aos “danos cerebrais” para lembrar de outra pesquisa feita com estudantes que mostrou que aqueles que se saíram melhor nos testes vinham de famílias pobres, porém eram menos prováveis de chegar à faculdade do que os que tinham se saído mal e vinham de famílias com mais condições. Em suma, é notório que crescer na pobreza coloca a pessoa em desvantagem em cada etapa da vida. Crianças que crescem em famílias pobres têm 50% de chances de continuarem pobres e mais de 2/3 se forem negras.

São muitas as diferenças entre EUA e Brasil, mas os países se parecem em muitos aspectos. Enquanto isso, Fidel resolve se aposentar, num país que, apesar de tudo, garante educação e saúde para todas as suas crianças.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

9 anos

O jornal venezuelano El Universal preparou uma análise dos nove anos de gestão do governo de Hugo Chavez. São abordadas diversas áreas, tais como, política interna e política externa, saúde, economia, educação e cultura. Uma economia que parece totalmente focada no Petróleo (item abundante naquele país) e políticas, ações, projetos e discursos carregados de orientação ideológica (em nome do projeto da Revolução Bolivariana) marcam um governo que entrará para a história. Para o bem ou para o mal.

Clique aqui. Tudo em espanhol.

Perigo em Angola

Um jornal angolano publicou uma matéria sobre o elevado número de empresas de segurança naquele país. Seriam mais de 1500 das quais menos de 200 estariam legalizadas. O fato se agrava quando se percebe que essas empresas ilegais portam armamento pesado de guerra sem qualquer tipo de autorização para isso.

Angola é um dos países africanos que mais se desenvolveu nos últimos tempos. Isso em termos econômicos e de forma não abrangente uma vez que grande parte da população carece de condições básicas de vida. Assim como no Brasil, Angola desenvolve uma economia de mercado impulsionava por investimentos estrangeiros, pelo petróleo (pode se tornar líder no continente) e tem se destacado no mercado financeiro.

Como não poderia deixar de ser, isso faz com que os investidores estrangeiros e os ricos locais não se sintam seguros num país com tanta diferença social. Fazendo crescer, assim, o mercado de segurança privada. Além do armamento pesado, manuseado sem restrição aparente, essas empresas desrespeitam leis básicas de trânsito, pondo em risco a população, e impõe autoridade no bloqueio de vias.

Autoridades de Angola reconhecem o problema, porém, esbarram num fator grave que acaba por dificultar a luta contra tais irregularidades: os donos dessas empresas, muitas vezes, são membros do alto escalão do governo, da polícia e das forças armadas.

sábado, fevereiro 16, 2008

Tiros: de cima para baixo, de baixo para cima

Muitas vezes as incursões da força policial em comunidades tem como conseqüência a morte de pessoas que, a principio, nada têm a ver com o crime. Entram para as estatísticas de morte por bala perdida. Embora agora percebe-se uma mudança, mesmo que tímida, as ditas operações policiais parecem ser as únicas vezes em que o Estado se faz presente nas favelas, nos morros. As imagens que passam na televisão mostram policiais atirando para cima. Algumas vezes até noto que, ao atirar, viram o rosto para o lado, como que não querendo ver o resultado. Atiram para onde acham que parte os tiros dos bandidos, razão de sua presença. Apontam para determinada direção e puxam o gatilho. Os bandidos, creio eu, fazem o mesmo. Apontam para baixo e puxam o gatilho de suas armas, muitas vezes, mais modernas e poderosas que a dos policiais. Mas têm uma vantagem: seus alvos usam uniformes e carros oficiais com a sirene no topo. É fácil identificar.

Ontem essa guerra fez mais uma vítima. Uma menina de 11 anos, na Rocinha, Rio de Janeiro. Parentes e vizinhos dizem que o tiro partiu da polícia. A polícia, por sua vez, nega dizendo que a operação se concentrou na parte baixa, sem possibilidade de os tiros atingirem o local onde a criança foi morta. Pode seu que sim, pode ser que não. Em toda minha ignorância belicista, me perguntei qual seria a distância que um projétil é capaz de atingir, com força suficiente para matar. Também pensei se aqueles policiais que atiravam para cima conseguiriam descrever seu alvo. Era uma pessoa ou um ponto (casa, janela, telhado, etc) onde essa pessoa, esse bandido, estaria? Era homem? Negro, branco, usava máscara? Estava com ou sem camisa? E de quê cor era sua roupa? Escura, clara? Estava num telhado, numa das vielas, numa janela?

É claro que, como sempre nos é exposto, foi uma operação planejada e cuidadosamente executada. Pode ser que sim, por ser que não.

Quero deixar claro que isso não é uma defesa da criminalidade. Também não afirmo que o tiro partiu do mocinho ou do bandido. Todo criminoso deve ser detido e fatalidades... bem, são fatalidades. O que defendo aqui é a preservação da vida de pessoas honestas, inocentes. E para que isso aconteça, o Estado, ali representado por uma força policial, deve planejar melhor sua forma de atuação em prol da sociedade.
Muito além do cidadão Kane


Um filme que, embora focando as organizações Globo e seu mais ilustre comandante, o já falecido Roberto Marinho, ilustra um pouco do que é o poder da mídia em nosso país. Este documentário, produzido pela britânica BBC há mais de 10 anos, continua proibido no Brasil. Artifícios jurídicos impetrados pela Rede Globo conseguiram essa proeza. Mas, graças à Internet, podemos saber porque esses fatos reunidos num trabalho de mais de 100 minutos, incomodaram tanto a grande organização.



sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Bentidas coisas que eu não sei

Aqui temos Mart'nália cantando "Benditas". Dela e da Zélia Duncan.



Benditas coisas que eu não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas
A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente,
Não mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma

Thriller, 25 anos. Relembrando o passado

Realmente o tempo passa rápido. O aniversário de 25 anos do grande álbum da música pop, Thriller, de Michael Jackson, me faz lembrar a expectativa que tinha em assistir cada novo lançamento ao astro. Os zumbis do clip cujo título dá nome ao álbum, depois de passado o susto inicial sentido quando criança e cultivado pelos adultos (e outras crianças) presentes, deram lugar às brincadeiras. Lembro que colocava um dos braços para dentro da camisa e fica imitando o zumbi. Foram momentos interessantes. Nessa época a televisão, compartilhada por todos numa casa que abrigou dezenas, tinha imagem preta e branca e funcionava com fusíveis. Era preciso esperar algum tempo para que a imagem surgisse na tela, tempo para que os fusíveis esquentassem. A qualidade também dependia de um bom chumaço de Bombril na antena. Mas todos se divertiam. Eu com meu braço escondido, feliz, brincando.

Lembro também de outros clipes. Bad, Beat it, Billie Jean. Alguns anos mais tarde, o susto. O astro negro aparece branco. Incrível. Maquiagem, doença, química. Loucura. O clipe da música com nome sugestivo era Black or White. Com uma canção que pregava a união das raças, das culturas, o vídeo exibia efeitos especiais nunca antes vistos. Era um sonho. Era mágico. Assim como de certa forma parecia mágica a nova aparência do mais famoso dos Jacksons. À época, lembro agora, já não tínhamos televisão. Era outra casa, uma situação diferente. Como fazer para assistir à exibição do clipe? Era um domingo. Como sempre o Fantástico fazia o lançamento, com certo alarde, das mais recentes façanhas de Michael. Pedi, implorei, chateei minha mãe para que pudéssemos ir à casa de uma vizinha com condições materiais bem melhores que a nossa. Eles tinham uma TV. E era colorida. Apesar do nome da música, era preciso muitas cores. Era inacreditável o que eu via. As mudanças, a coreografia. Lembro que o próximo que iria assistir foi Remember the Time. Mais efeitos, mais cores, mas dança, ritmo, força, magia, sonho. Não lembro onde assisti esse.

E lá se vão 25 anos de Thriller. Lá se vão 25 anos da televisão à fusível, da casa de minha Avó, Ceminha Peixeira, dos conflitos de então, das situações e dificuldades. A cada clipe, uma história. Aja emoção.


quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Kenya, o Coelhinho e a Mídia

Até onde podemos confiar na mídia? Será que os veículos de comunicação se dão conta da responsabilidade que têm? Será que percebem seu papel na sociedade? Para esta última pergunta acho que a resposta é sim. E fica nítido que usam todo esse poder. Para o bem ou para o mau.

Os acontecimentos que vemos no Kenya (Quênia) desde o fim do ano passado, apesar de uma censura local, estão sendo cobertos pela mídia internacional. Os quenianos também fazem uso da Internet para transmitir ao mundo sua visão dos eventos. Mas, se pararmos para analisar como os meios de comunicação divulgam notícias, aqui no Brasil, por exemplo, sobre a situação do Kenya, notaremos que colocam em primeiro plano um dito conflito tribal, um choque entre etnias. A base das notícias é que se trata de violência étnica. Com isso, simplificam e desinformam. É manipulação política que tem a mídia irresponsável como ferramenta. O Professor David Anderson da Oxford University é um dos que criticam a forma como a mídia apresenta os tristes acontecimentos. Segundo ele "descrever (o que vem ocorrendo) como violência étnica não reflete a verdade. Trata-se de violência política do tipo mais clássico. Etnicidade é a forma de mobilização: é o modus operandi, não a razão principal."

"Describing it as ethnic violence is not quite right.
This is political violence of the most classic kind.
Ethnicity is how you mobilise it: that's the modus
operandi, not the rationale."
Oxford University's Professor David Anderson

Um dos meios usados para instigar a violência, não pregando-a diretamente, mas estimulando a discórdia, é o que está sendo empregado por algumas rádios quenianas. Segundo matéria da agência Inter Press Service (IPS) e do jornal queniano Daily Nation, essas rádios estariam propagando o ódio étnico. Estimulando os ouvintes para que apóiem líderes de sua própria comunidade, sua própria tribo, e nutrindo "maus sentimentos" para com pessoas de outras comunidades. Nos comentários fazem uso de expressões como "erva daninha", "babuínos" e "animais do oeste" para se referirem a membros de outras etnias.

Isso faz lembrar um dos episódios mais tristes da história da humanidade, ocorrido em Ruanda em 1994. Um genocídio com quase um milhão de vítimas onde uma rádio teve um papel crucial no estimulo ao ódio. O nome da rádio era Mil Colinas e pregava a morte de Tutsis, chamando-os de "baratas".

Não estranho que um veículo de comunicação assuma uma postura política, direcionando sua programação e discurso. Vemos isso aqui no Brasil, vemos também recentemente nos EUA onde jornais declaram abertamente apoio a certos candidatos. Isenção da mídia é algo raro, senão utópico. Mas não devemos aceitar o uso de tanto poder para jogar um grupo contra outro pura e simplesmente, causando tragédias como a que ocorre no Kenya. Devemos rechaçar a existência de uma mídia irresponsável. E isso só se consegue tendo uma postura crítica. E para ter uma visão crítica sobre determinada notícia é preciso educação e vontade. A preguiça atrabalha bastante. Se sentarmos no sofá, lendo jornais ou assistindo ao telejornal, e aceitarmos tudo o que nos está sendo "imposto", corremos o sério risco de sermos demasiadamente permissivos com tudo isso.

Já ouvi comentários de que campanhas contra o racismo, assim como políticas de ação afirmativa e o fato de termos uma secretaria com status de ministério e voltada para políticas "raciais", instigariam o racismo. Ou melhor, como partem do princípio de que não há racismo e sim desigualdade social, tais políticas e projetos fariam com que o racismo fosse "criado" em nossa tão perfeita e democrática sociedade. Bem, isso é um assunto para um post futuro, mas que de alguma forma se relaciona com o que quero dizer. Cito para que minha opinião não seja confundida.

Mas voltando a questão da mídia irresponsável. O que mais me assusta é quando o objeto de tal política de ódio são as crianças. Há alguns meses tivemos conhecimento que um programa infantil do Hamas, partido político e movimento guerrilheiro palestino, fazia uso de um personagem (que lembrava o Mickey) chamado Farfour, de forma a instigar o ódio e a luta contra Israelenses. Bem, não defendo quaisquer dos lados, mas a política e as ações de Israel para com a Autoridade Palestina dificilmente despertarão amor. O mesmo pode-se dizer do inverso.

Mas o que vi ali no programa era terrorismo. E do pior tipo, se é que existe algum tipo bom de terrorismo. Algum tempo depois, aquele personagem morreu (ficticiamente, porém visualmente literal para efeito de interpretação da audiência) no programa e surgiu outro, uma Abelhinha de nome Nahoul, que também teve o mesmo fim. Aliás, a simulação da morte faz parte do programa e é usada como parte da manobra. Pelo menos assim vejo. Surgi então outro personagem, Assud (Leão), que vem da diáspora para substituir seu irmão morto. Com diálogos fortes com uma menina que, acho, seria apresentadora (algo como Ana Maria Braga e Louro José, para usar uma comparação esdrúxula), Assud, que apesar de Leão no nome é um coelho (sua explicação: "Porque um coelho não é bom. Ele é um covarde"), usa termos como 'mártir', ‘eliminar e comer (literalmente do verbo em inglês “to eat”) todos os judeus’. Dá impressão que estimula a criação de soldados. Parece um ciclo vicioso. Já não bastasse o que as crianças palestinas sofrem com tanta guerra, destruição, o programa infantil que deveria mostrar um mundo melhor, estimular algo de bom, o amor, a paz, a educação, prega a continuidade de tudo. Resultado: mais ódio. Talvez minha exposição seja um tanto reducionista ao citar o caso Palestina-Isralel, mas quando crianças são alvos de atos tão irracionais (a guerra não pode ser irracional, um muro dividindo um país não é racional, bombas lançadas contra cidadãos ou homens-bomba tampouco)... Bem, as crianças devem ser preservadas de toda essa loucura. É triste. Clique aqui para assistir ao vídeo.

A Rádio Mil Colinas, algumas rádios do Kenya, e o programa "Pioneers of Tomorrow" do Hamas, são exemplo de uso de ferramentas tão importantes e poderosas para algo ruim para todos. Comete-se um crime bárbaro, assustador.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Estética educacional

Havia uma linha estética. Não se mobilia uma casa de qualquer maneira. Tem linhas de estética para poder ter um conjunto harmonioso”. Está foi a declaração do Magnífico Reitor da Universidade de Brasília, Timothy Mulholland, sobre a decoração de um apartamento funcional no valor aproximado de R$ 500 mil. Para não fugir da linha estética foi preciso a aquisição de uma lixeira de cerca de R$ 1000.

Veja a lista dos nada básicos itens da decoração do apartamento. Com meus comentários, é claro:

Cadeiras, poltronas, mesa de centro, cabeceira da cama e banco - R$ 69.566
-
Tirando algumas poucas salas que já vi e que parecem subsidiadas (direito na UERJ, por exemplo) essa grana daria para comprar carteiras que favorecessem o bem-estar do aluno.
Refrigerador, freezer, fogão, lava-louças, adega etc - R$ 31.150
- Adega?
Taças de vinho e copos de uísque - R$ 4.590
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Bem, é bom relaxar um pouco depois de um dia de trabalho árduo em prol da educação. E também justifica o lance da adega.
Dois faqueiros - R$ 3.998
- Coisa de primeira. Facas boas para cortar o bem público.
Home cinema - R$ 36.603
- Filmes educacionais e documentários são sempre importantes na graduação.
Tapetes, persianas e colchões - R$ 37.668
Telas artísticas - R$ 21.600
Palha para revestimento, xales de seda, tapetes e almofadas - R$ 20.562
Instalação de ar-condicionado nos quartos - R$ 11.470
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Chique! Ambiente requintado e acolhedor
Plantio de 16 vasos com plantas - R$ 7.264
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O preço do combate ao aquecimento global?
Instalação de luminárias - R$ 9.845
- Quantas vezes a aula foi transferida de sala por um motivo simples: lâmpada queimada.

Não seria bom se fossem tão cuidadosos com os prédios universitários? Imaginem uma universidade onde as carteiras fossem confortáveis para os alunos. Não precisa ser nada de luxo. Basta não escolher algo no catálogo ou mesmo às cegas como parece ser feito. Imaginem se os banheiros contassem, todos, com lixeiras. Mil reais dariam para abastecer todos os banheiros com lixeiras de boa qualidade, além do tão raro papel higiênico e, se não for muito luxo, um pouco de sabonete líquido para uma higiene mais completa. A mão a gente seca na roupa mesmo, para economizar a escassa verba. Isso faria com que o conjunto de banheiros de uma universidade ficasse, digamos, harmonioso. Obedecendo, assim, a linha de estética conhecida como “basicão”.

Das coisas lamentáveis que vemos na política, na educação, na segurança, algumas simplesmente extrapolam. Foi o caso da UnB. Ontem as reportagens mostraram as condições da universidade. Mais uma vez pergunto: por que construir mais universidades se não conseguem dar conta das atuais? Se não há verba ou competência administrativa para dar condições de estudo (e trabalho aos professores e técnicos) nas universidades que aí estão, se não há dinheiro para laboratórios decentes, para papel higiênico, por que construir outro prédio que, continuando assim, se deteriorará rapidamente? Dizem que a razão é um déficit de vagas. Bem, gostaria que visitassem certas universidades para checar quantas carteiras estão vazias. Com certeza o número atual de universidades não comporta todos que poderiam (ou deveriam) estar cursando um ensino superior (sic), mas primeiro penso que deveria ter um aproveitamento do que já existe. Claro, se houver interesse em criar condições para isso. Como já disse aqui, e repito, a ignorância é uma política de Estado. Por falar em interesse, o que é novo interessa aos políticos e ilude uma camada da população. Esse não é um fenômeno exclusivo da educação. Quantos hospitais abandonados já foram tema de reportagens? A promessa que dura até a próxima eleição. O mesmo ocorre com o setor de infra-estrutura. Asfaltos incompletos, pontes ligando nada a lugar nenhum.

Bem, na reportagem de ontem do Jornal Nacional (e tenho certeza que outras emissoras também cobriram) apareceu, além de um representante dos alunos, uma representante da Associação dos Docentes da UnB. Leia o comunicado da ADUnB sobre o referido caso. Ficou claro que já aguardavam um desfecho ruim para imagem da universidade, pois já vinham alertando sobre o mau uso da verba pública e as atuações desvirtuosas de organismos que deveriam primar por atividades de caráter universitário, educacional, dentro das três funções básicas: ensino, pesquisa e extensão. Lembro que ela ainda citou a preocupação com o favorecimento de alguns docentes em detrimento de outros. A famosa panelinha que tanto me enoja.

Isso tudo foi desencadeado após a compra de artigos pessoas num freeshop feita pela ex-Ministra do SEPPIR usando um cartão corporativo do governo (quer dizer, do povo). O pavio foi aceso. Resta saber até onde e quando as bombas continuarão a explodir. E se Matilde terá sido a única baixa.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Algumas coisas

Faz tempo que não escrevo. Não ando muito inspirado atualmente. Hoje, por exemplo, é um dia especial. Um dia de lembranças fortes. Mas gostaria de tentar escrever algo. Estava assistindo ao Jornal Nacional e parece que as notícias, apesar de se renovarem de tempos em tempos, de certa forma continuam as mesmas.

Amazônia. Em tempos de preocupações globais com o aquecimento da Terra, a floresta Amazônica é tema freqüente. Afinal, o desmatamento aumentou ou teve seu ritmo reduzido? No fim da semana passada li uma reportagem num jornal estrangeiro (Viva a Internet!) sobre uma pesquisa com um tema já abordado aqui: o biocombustível. É, fizeram as contas e dizem que o etanol não é tão "verde" assim. A corrida para sua produção, inicialmente para que seja acrescido ao combustível fóssil numa dada porcentagem acaba por gerar ações inconseqüentes de desmatamento. Isso, somado ao desmatamento para extração de madeira, traz sérias conseqüências para todos.

A reportagem mostrava uma operação dos fiscais do Ibama que investigavam denúncias de desmatamentos ilegais. Assista aqui.

Um dos lugares já havia sido abandonado, noutro, montou-se uma emboscada e algumas pessoas foram detidas. Duvido muito que a pessoa que as contratou será presa. Nesse momento deve estar contratando outros para fazer o mesmo serviço sujo numa outra área longe de fiscalização. Por falar em fiscalização, achei interessantes as contas de um dos fiscais. Ele cita a área aproximada da floresta e o número atual de fiscais. Realmente fica difícil fiscalizar algo. O mais certo é por denúncia (ou sorte) quando o estrago já está feito. Falta de interesse? De quem? Por que não põe as forças armadas para atuar como fiscais?

Mais uma coisa me chamou atenção. As serras. Não são dessas que encontramos em lojas de departamento ou de ferramentas. Parecem maiores. Especiais para derrubar uma árvore e extrair madeira de lei. Fiquei pensando: será que não seria interessante começar a fiscalização com a venda (e fabricação) dessas serras? Só uma idéia.


Carnaval. Um dos motivos de meu silêncio foi o carnaval. Saí dois dias. Um bloco aqui próximo aonde moro. O mau tempo não intimidou os foliões. Alguns amigos, algumas cervejas, muito bate-papo, samba, muita animação. Foi um carnaval bom. Não tenho mais "disposição" para encarar os grandes blocos, cada vez mais lotados, onde não se consegue ouvir as "marchinhas de sempre". E a eliminação da cerveja e de outros líquidos fica comprometida com a falta dos banheiros. O cheiro acaba ficando insuportável a cada dia de folia. Aja essência de eucalipto! Num ano vi cenas insólitas de mulheres se aliviando em plena rua, ao lado dos homens já acostumados (por elas, mulheres, mães).

Mas nada se compara a cena da barraca, montada por um camelô visionário em cima de um bueiro de águas pluviais, que oferecia o alívio coberto por R$ 0,50. Como não posso deixar de lançar um olhar crítico, pensei cá com meus botões soltos: as pessoas da fila são as mesmas que ficam chateadas com as praias poluídas. Veja a foto.

Mas uma coisa ficou nítida neste carnaval. Pelo menos onde estive. As pessoas se emocional com manifestações pacíficas. É uma constatação que me impressionou.


Cartões. Parece que o ato da ex-Ministra Matilde Ribeiro, além do cometido pelos ministros do Esporte e da Pesca, desencadeou uma corrida para saber quem mais vacilou. Acho legal. Serviu para alguma coisa. Algo que a maioria da população ignorava, essa ferramenta de gasto indiscriminado do dinheiro público (mais uma) é freada para análise. Como sempre nessas horas percebemos as idiossincrasias da política. Quando a oposição propõe investigar os gastos do governo-situação, a situação-governo diz que quer estender a investigação ao governo anterior. Num primeiro momento fica a questão da justiça, a importância de saber não só o que acontece, mas também o que aconteceu e punir os culpados de hoje e de ontem. Mas o discurso me faz pensar que o que se pretende é dizer a população: Estão vendo? Eles roubaram! Por que não iríamos roubar também? É lamentável.

Interessante. Enquanto escrevo lembro de um livro que estou lendo no momento. Ainda não terminei O Nome da Rosa, mas já engrenei em outro. Leio "O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio". Título grande. É mais um do Bukowski. Esse lançado postumamente. Trata-se de um diário onde posso perceber certa maturidade de um escritor que mantém a personalidade. Então com 71 anos, o eterno Henry Chinaski me brinda com suas observações de um mundo louco. Num dos textos ele fala do ato de escrever. Elogia e critica alguns escritores famosos e fala de quando constatou que alguns de seus colegas não tinham como se sustentar, apesar de ostentar uma condição sempre melhor que sua miséria. Descobriu então que muitos eram bancados pela mãe ou viviam de renda, a boa herança deixada por descendentes que realmente haviam construíram algo que deixou frutos materiais. Bem, não me enquadro na categoria de escritor. Aqui eu só lavo a alma digitando letras que se transformam em palavras na tela.

No início falei que a data de hoje era especial. E é. Meu primo faria aniversário. Ainda é difícil.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Nosso empregado quer privacidade

Alguns de nossos empregados (que são tantos) receberam cartões de crédito para arcar com despesas extraordinárias e de valor baixo relativas aos serviços que nos prestam. Só que, sem controle e demonstrando falta de ética, começaram a usar tais cartões para comprar artigos de uso pessoal, alugar carros, viagens, etc. Nós, patrões, temos acesso às "faturas" dos cartões e pudemos verificar esses gastos absurdos. Nasce mais um escândalo.

Agora, nossos empregados que são muito unidos, estão pensando em nos tirar o acesso a tais faturas detalhadas. Dizem que é por questão de segurança. Fico pensando qual o tipo de segurança a que se referem. A história parece ficção, um absurdo total, mas é a realidade.

O governo federal considera acabar com a transparência dos gastos com os cartões corporativos. Um governo de caixa dois e muitos ministérios e secretarias especiais, quer ter mais privacidade em suas compras com o dinheiro do povo. Um retrocesso total. Justificam com o argumento da segurança institucional. É, a instituição quer ter a segurança de que não será incomodada quando alugar carros, almoçar em churrascarias, comprar perfumes e artigos de academia.

Não sou contra o cartão, uma vez que as opções são as contas tipo B e os cheques onde o controle não existe e o acompanhamento se torna quase impossível. Com os cartões é possível saber quando, onde e quanto foi gasto, além de quem gastou. E todos os dados podem ficar disponíveis on-line. Isso é transparência, é o princípio da publicidade nos gastos públicos. É, ao meu ver, o certo. Só que o certo agora gera insegurança, o certo não é conveniente.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Palavras, (pré)conceitos, erros

Como já esperado, a ministra pediu demissão. Tal pedido poderia ser mais digno se não viesse acompanhado das palavras que contribuirão para que sua imagem (na verdade não apenas a imagem dela) fique mais prejudicada. Li no O Globo Online e destaquei duas frases da coletiva em que anunciou sua saída.

- Se eu tivesse sido alertada do erro, eu teria corrigido antes, mas só fui alertada no momento atual.
- O país ainda é um país que enfrenta o preconceito e o racismo. E isso se denota em atitudes cotidianas. Eu não tenho mais nada a dizer sobre isso.

Com relação a primeira, um repórter perguntou se a ex-ministra "não tinha discernimento para saber o que é certo e o que é errado". A ótima pergunta ficou sem resposta. Usar um cartão de crédito corporativo (um bem público) para efetuar compras particulares em freeshop é errado, é um crime, que não pode ser atribuído a ninguém além de quem o cometeu. Assim como alugar um carro claramente para fins particulares. Será que se o funcionário a orientasse a rasgar o próprio dinheiro ela também seguiria essa orientação? É lamentável.

A segunda talvez tenha sido a frase mais dispensável que ela pronunciou. O preconceito e o racismo no Brasil são fatos. A situação de desvantagem do negro também. O próprio Estado (IBGE) comprova isso. Preconceito eu sinto quando ando nas ruas e as pessoas mudam de calçada e/ou seguram fortemente suas bolsas, ato que poderia ser cômico se não fosse triste, se não ferisse tanto. Ou quando se recusam a compartilhar o elevador comigo. Quando o atendimento que me é dispensado em estabelecimentos comerciais diversos é nitidamente inferior ao de uma pessoa de pele clara. Já deixei de freqüentar lojas, pois sempre era seguido por seguranças nada discretos. Isso, sim, pelo simples fato de ser negro. Poderia listar aqui situações das mais diversas que acontecem cotidianamente. Mas não se pode confundir isso com o que ocorre com a ministra. Ela cometeu um erro, um crime. Repito: ela usou um bem público para fins particulares. E merece, sim, se afastada.

Li num blog que a ministra está sendo usada como boi de piranha. Se não levarmos em conta a cor da pele, imaginando que todos sejam azuis, sem nuances de azul, eu concordo que a ministra está mesmo servindo de bode expiatório. Quantos cometeram crimes envolvendo quantias bem maiores e ainda estão por ali? E os milhões que foram sacados em dinheiro sem possibilidade de estarem indicados e discriminados (como o aluguel de carro e a compra no freeshop) no portal Transparência? Será que o ministro do Esporte e o da Pesca (sic) também cairão? Será que os que sacaram milhões em dinheiro vivo responderão? São perguntas para as quais aguardo resposta. Mas não acredito em erro relativo. Os erros de outros não diminuem o erro de um.

Mas há algo que espero mais que as respostas para as indagações acima. Espero que as iniciativas e os projetos, que visão promover igualdade e proteção dos direitos do indivíduo, não se tornem piada como ocorre com a ex-ministra.

Um pedido

V. Ex.a, Ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, Matilde Ribeiro, caso ainda não tenha feito, peça demissão.

Motivo: V. Ex.a foi corrupta ao usar um bem público para fins privados.