terça-feira, dezembro 15, 2009

EPR... EHR ... Health IT...
Arquivos Médicos

Expressões como Health IT (Health Information Tecnology), EPR (Electronic Patient Records) e EHR (Electronic Health Records) há algum tempo têm ganhado espaço na mídia especializada e nas rodas de discussão, tanto tecnológicas como da área de saúde e da informação. A tendência é essa, eliminar papel, tornar tudo digital, encurtar distâncias, agilizar processos operacionais e decisórios, cortar custos... Resumo o que penso no fim desta curta postagem.

São bilhões de dólares em projetos grandiosos, nos EUA e na Inglaterra que visam estimular a criação de um sistema integrado de informação em saúde. Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que tantas empresas inundem o mercado com opções de sistemas computacionais, programas e infraestrutura, das mais diversas e apresentadas como solução. Afinal, quem não quer uma fatia desse bolo bilionário?

Tenho acompanhado muito menos do que gostaria, mas pelo pouco que tenho pesquisado e lido, surge a impressão de que a "novidade" está sofrendo derrota. Mas não de todo. As discussões e as polêmicas são importantes para que, o que quer que venha a surgir disso tudo, seja algo positivo.

Foi publicado ontem um artigo que pode ser importante para a analisa e compreensão da situação atual. Trata-se de Tensions and Paradoxes in Electronic Patient Record Research (Tensões e Paradoxosos na Pesquisa sobre Arquivos Médicos), resultado do estudo da professora Trisha Greenhalgh do University College London. Conclusões da pesquisa:

Conclusions: The findings suggest that EPR use will always require human input to recontextualize knowledge; that even though secondary work (audit, research, billing) may be made more efficient by the EPR, primary clinical work may be made less efficient; that paper may offer a unique degree of ecological flexibility; and that smaller EPR systems may sometimes be more efficient and effective than larger ones. We suggest an agenda for further research.

Conclusões: Os resultados sugerem que o uso de EPR sempre exigirá ação humana para recontextualizar o conhecimento; que, embora o trabalho secundário (auditoria, pesquisa, faturamento) possa ser mais eficiente com o EPR, o trabalho clínico primário pode ser menos eficiente; que o papel pode oferecer um grau de flexibilidade ecológica único; e que a implantação de sistemas de EPR locais às vezes podem ser mais eficientes e eficazes do que as mais globais. Sugerimos uma agenda para futuras pesquisas.


Leia o artigo na íntegra clicando aqui (em inglês)


Em minha monografia de conclusão de curso, fiz um estudo de caso sobre a situação arquivística em meu ambiente de trabalho. Algo que procurei obordar foi a importância do fator humano quando se trata do gerenciamento de informações, da gestão de arquivos. O estudo da professora parece corroborar esse aspecto. Planejar um sistema com o intuito de beneficiar o ser humano, mas sem envolvê-lo de fato, é no mínimo uma incoerência. Vemos ainda que o papel está cada vez mais presente como mídia em nosso cotidiano, "suportando" nossas informações. Aparentemente, quanto mais nos digitalizamos, mas papel usamos no processo. Por fim, pensar grande neste caso parece ser um erro. Projetos menores, pontuais, se tornam mais simples de serem implantados, acompanhados, analisados, observados. E corrigidos. O velho ditado "quanto mais alto, mas dura é a queda" é bem oportuno.

Ah, o resumo do que penso... As discussões, a política, o processo e os projetos em torno dos Arquivos Médicos giram em torno de aspectos informáticos, financeiros e tecnológicos. Penso que o ideal fosse uma abordagem mais informacional, social/humana, e arquivística. Talvez eu pense demais. Talvez não.

domingo, dezembro 13, 2009

Racismo: uma confusão semântica?

É aquela velha história: a polícia prende e a “justiça” solta. Listo o nome deles (Está publicizado - clique aqui- eu uso): Emílio Pechulo Ederson (Belém/PA) e com 20 anos, Felipe Grion Trevisani (Campinas/SP), de 21, Abrahão Afiune Júnior (Ribeirão Preto), de 19 aninhos.

São estudantes de medicina de uma faculdade particular de Ribeirão Preto. Foram presos e soltos. Leia aqui. Irei me referir aos acusados seguindo a mesma maneira tendenciosa e preconceituosa da mídia em casos similares, isto é, onde os criminosos - do sexo masculino, adolescente ou pós-adolescente - fogem ao estereótipo “esperado” do praticante de delito: eu os chamarei de “jovens”. Poderia também chamá-los de “universitários”. Sempre algo respeitoso, adequado, leve.

Pois bem, resumindo a história: “Os três jovens estavam em um carro e enrolaram o tapete do veículo para bater nas costas da vítima, que caiu no chão. Testemunhas que estavam em um posto de combustíveis chamaram a polícia, que prendeu o trio.” Fonte: O Globo Online.

Se prestarem atenção nas reportagens dos jornais e outras mídias que divulgaram o caso, talvez um detalhe passe despercebido. Mas isso me intrigou, embora tenha plena consciência de que deve haver alguma “desculpa legal” (ou logística, ou sorte, ou... sei lá) que justifique. O juiz que concedeu a liberdade aos jovens, aceitando a alegação da defesa de que não houve agressão nem a conotação racial para que os três jovens ficassem presos, meritíssimo Ricardo Braga Monte Serrat (o sobrenome é aqui apresentado como grafado no site do Tribunal de Justiça de São Paulo, embora a mídia esteja usando Montesserat), da 1ª Vara da Família e das Sucessões de Ribeirão Preto. Isso mesmo, um juiz da Vara da Família. Teria ele competência para isso? Provavelmente sim. Afinal, juiz é juiz! Mas o que a lei diz sobre competência de um Juiz da Vara de Família? Vamos à Lei nº 11.697, de 13 de Junho de 2008. Bem recente. Veja lá. Artigo 27. O tema é rico, vamos pra outra…

A ciência biológica, com o desenvolvimento da pesquisa genética, deixou claro: não existem raças. Logo, não existe racismo, racista. Logo, cota racial é uma insanidade e vai acabar gerando um conflito de... raças… que não existe no Brasil, que é um paraíso… racial. Afinal de contas é preciso que todos entendam que somos uma raça apenas: a humana. Que lindo!

Aí que penso estar todo o problema. Ficar defendendo a existência de outro conceito de raça, o sociológico, cansa e não está levando ninguém a lugar algum. Além de começar a ficar repetitivo assim como o mantra “não existem raças… somos todos da raça humana”.

Por isso é preciso trabalhar mais o assunto. Talvez semanticamente. Criticando os conceitos, analisando, quebrando e refazendo as palavras e expressões, comparando, fazendo analogias… Se não conseguimos nada, pelo menos se cria alguma confusão, algum desconforto.

A primeira coisa que venho pensando é sobre a palavra “racismo”. Como a questão está mais relacionada à cor da pele, poderíamos usar isso. Mantemos apenas o sufixo ISMO e passemos a usar COR como radical. Com isso, poderíamos dizer que os jovens cometeram corismo. É um tanto ridículo, mas talvez o neologismo acalme os corações dos que não aprovam a outra expressão. E também, quem sabe, ajude juízes e outras autoridades na interpretação das ocorrências.

A segunda coisa que me vêm à mente está relacionada ao mantra “não existem raças… somos todos da raça humana”. Vocês leram a descrição do ato que fez com que os jovens fossem parar no xilindró. Segundo a polícia, ainda gritaram "toma nego!" ao agredirem, com o tapete de borracha do carro enrolado, o auxiliar de serviços Geraldo Garcia, quando este andava de bicicleta a caminho do trabalho. Pois bem, vocês enxergam alguma humanidade nesse ato? Ok, o ser humano é capaz de atos dos mais horrendos. Mas, por um momento, vamos pensar ou considerar o “humano” no sentido adjetivado de humanitário.

Nesse sentido, se bem me entenderam, os jovens não se enquadram na categoria de seres humanos, não são da raça humana. Emilinho, Felipinho e Juninho são bichos (que me desculpem os animais).

São três bichos privilegiados que, por sua [e de seus “donos”] condição social e financeira, podem agredir seres humanos e serem liberados pela “justiça” para que voltem para suas famílias, onde são bem criados.

Para finalizar, e considerando que os jovens bichos cursam medicina (sic), duas belas passagens do Capítulo I [Princípios Fundamentais] que constam do atual Código de Ética Médica. Será que os jovens já leram? Será que os bichos sabem ler?

Art. 1° - A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade (…)

E o melhor

Art. 6° - O médico deve guardar absoluto respeito pela vida humana (…)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Projeto de Lei to Ato Médico

Está em tramitação no Senado um projeto de lei que dispõe sobre o exercício da Medicina. Trata-se da PLS 268/2002 de autoria do Senador Benício Parente de Sampaio. O texto completo pode ser lido aqui. O parecer da casa, aqui. Na página do Senado existe uma enquete sobre o tema que, até o momento deste post, havia registrado pouco mais de 140 mil votos, estando praticamente empatados aqueles contrários e os que apoiam a lei.

Adianto que votei contra. Basicamente pelo ítem I do artigo 5° desse PLS.

Art. 5º São privativos de médico:
I – direção e chefia de serviços médicos;

Até que alguns médicos aprendam a olhar o paciente como um ser humano, aprenda a exercer sua linda profissão com humanidade, consciente de sua importância, responsabilidade e dever, não poderão ter exclusividade na chefia ou direção de tais serviços. Essa é minha opiniçao.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Informática e Informação: o acesso e o uso

Há poucos dias estive numa lan house, creio que pela terceira vez na vida. Apesar de focado num objetivo (pesquisa e impressão de legislação), não pude deixar de notar algo curioso, embora não tenha me surpreendido. O responsável pelo local, um rapaz com seus 17 ou 18 anos teve clara dificuldade em processos simples e primários de informática.

Utilização de e-mail online, impressão, utilização de múltiplas guias no navegador, abertura de arquivo, associação de arquivos com programas específicos. Foram muitas as situações naqueles poucos minutos, mas serviram para demonstrar a difícil relação entre o acesso e o uso de recursos informáticos.

Conheço pessoas que tiveram acesso a essa cobiçada e sonhada tecnologia quando para mim era apenas um sonho, e essas mesmas pessoas hoje têm dificuldade em operações simples como redigir um documento ou pesquisar na Internet.

Eu também aplaudo a tão aplaudida democratização da informática. A aparente estabilidade econômica e o preço de um computador básico hoje permitem que mais e mais pessoas usufruam desse bem de consumo [a propósito, leiam post recente]. Mas me parece que o fato de possuir esse "aparelho" não é garantia de nada. Quando muito de status (oh, eu tenho um micro em casa!). Me faz lembrar o termo Analfabetismo funcional.

Mas a questão também me chama atenção como Arquivista, pois posso traçar um paralelo entre o acesso e uso de recursos informáticos com o acesso e o uso da informação.

Se o acesso às informações públicas é condição para o exercício pleno da cidadania, nem sempre o puro acesso garante tal direito. Se o [bom] uso da informação não estiver consolidado, o exercício da cidadania também não o estará.

Aí entra a educação. Sem uma política educacional que vise realmente a democracia, a liberdade, o pensamento crítico, não existirá cidadão preparado para viver democraticamente, em liberdade e com visão crítica de sua realidade, podendo, então, exercer sua cidadania.

Com certeza isso não interessa aos "mandatários" da nação. Imaginem se cada brasileiro tivesse o nível de educação (notem que não falo de escolaridade) que descrevi acima.

Dezenas de milhões de pessoas cônscias de seus direitos e deveres. É o pior pesadelo dos políticos!

Por isso não podemos dissociar o acesso do uso. Tanto em termos informáticos (tecnologia) como informacionais (para cidadania).

Na história temos experiências que comprovam meu raciocínio. Analisemos o que ocorreu no continente africano. Além da política de dividir para dominar, aplicada pelos colonizadores europeus, houve outra forma de subjugação. O aparato burocratico imposto pelo colonizador, modelado numa realidade totalmente diferente, com bagagem cultural diferente, foi conduzido (comandado) não por africanos. Embora muitos africanos, ao longo daqueles anos, trabalhassem nos órgão de controle e diretamente ligados a esse "modelo de gestão européia", a cultura e a filosofia daquela gestão não era africana, tampouco o comando de fato.

Com isso, quando começou o processo de descolonização, além de nações artificialmente criadas e destruídas por anos de exploração, os colonizadores deixaram de herança um modelo de gestão exótico, um aparato burocrático estranho. E para o qual muitos africanos, apesar de executarem tarefas naquele ambiente, muito provavelmente não estavam de fato preparados. Isto é, a tecnologia estava em suas mãos (acesso), mas a operacionalidade de tal tecnologia, considerados os aspectos intrínsicos e extrínsicos ao Continente Africano, não estava consolidada (uso). Deu no que deu.


Paguei cinquenta centavos por meia hora e um real por cada folha impressa. Pelas dicas de informática eu não cobrei nada. Acessei e usei.

A propósito...

Veja o inciso XXXIII artigo 5° da Constituição Federal clicando
aqui
E a Lei 11.111 que o regulamenta, aqui.
Além disso temos o Projeto de Lei nº 5228/09 que visa regulamentar o acesso,
aqui.
Dia Nacional do Samba


José Flores de Jesus

Um homem de opinião. Um grande sambista. Viva Zé Keti.

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...