segunda-feira, dezembro 31, 2012

Um brinde à Vida

Enquanto o último texto do balanço que faço de 2012 não sai [dessa caixola, desse coração irregular, dessa alma confusa…] vou por aqui um poema muito apropriado para o momento. O (re)encontrei há poucos minutos, durante meu 5S material. Resta iniciar, caso isso seja possível, um 5S emocional.

Vale destacar como o texto chegou as minhas mãos. Foi em Buenos Aires, na Feira de San Telmo, em meados desse ano que se finda. Um senhor muito elegante, nos gestos, nas palavras, no olhar e na postura, se aproximou de nossa mesa. Muito educadamente, ofereceu seus versos. A cadência de sua voz ao declamar o poema foi algo único. Um belo momento, cheio de vida.

¡ Vivir!

Vive la  vida com apuro,
ávido, ansioso, impaciente;
no hay pasado ni futuro,
tan sólo existe el presente.

Gózalo sin reflexión,
vívelo sin meditar,
disfruta casa ocasión
sin detenerte a pensar.

No analices el pasado,
que ya se há quedado atrás
y el futuro es impensado,
sabe Dios qué pasará.

Vivír, es gozar la vida,
disfrutarla, embellecerla;
paso a paso, día a día,
antes que puedas perderla.

¡Vive! ya nada te niegues,
pues desde tu nacimiento,
el ataud ya está abierto
esperando a que tu llegues.

Roberto Carlos Cúneo

segunda-feira, dezembro 24, 2012

2012. Um balanço. (parte 3)


Na família

Como a mais importante instituição de nossas vidas pode ser algo tão complexo? Pelo menos para mim. Mas já que me propus fazer um balanço do meu 2012, escrevendo sobre tópicos relevantes [para mim], não posso deixar a família de fora. E, considerando a data, talvez seja o tema certo no momento adequado.

A relação que tenho com minha família não é muito boa. Protocolar em algumas ocasiões, intensa em outras tantas, distante em alguns momentos, inexistente em outros. Em 2012 não foi diferente.

O decorrer do tempo, em se tratando de famílias, deveria significar aprimoramento e fortalecimento de relações, renovação ou reafirmação de tradições. A família nasce, a família cresce, a família envelhece… mas a família não morre. Ou não deveria.

A [minha] família que nasceu e cresceu mostrou-se envelhecida talvez precocemente em 2012. O passar dos dias também significa isso, claro. Tenho consciência. Eu sei. É como naquela música do Alvaiade, belamente cantada pela Velha Guarda da Portela. “O dia se renova todo dia. Eu envelheço cada dia e cada mês. O mundo passa por mim todos os dias. Enquanto eu passo pelo mundo uma vez.” 

Alguns membros de minha família envelheceram, e muito rapidamente em 2012. Os dias se renovaram, as pessoas não. E o mundo continua a passar, naturalmente, a cada dia. Um mundo cheio de possibilidades, mas que parece tão distante dos olhos e das aspirações dessa família que tanto amo. Uma pena.

Posso dizer que me retirei “ao mundo” (e não do mundo) há quase duas décadas e isso, em muitos aspectos, significou um distanciamento, físico, obviamente, mas também intelectual. E, nesse ponto, intelectualidade não significou [apenas] escolaridade (embora seja um ponto relevante nessa história complexa que é minha família), mas compreensão e entendimento… do mundo, das coisas, das causas e efeitos, das consequências, das possibilidades concretas e mesmo das abstratas. Compreensão e entendimento do que [eu] penso ser simples ou complexo.

O fato é que, em 2012, esse distanciamento se elevou, se ampliou. E sou um pessimista. Talvez mude um dia, talvez não. 

O sentimento de culpa também ficou um tanto [mais] evidente e, externalizado em determinado momento deste 2012, tem me ajudado (o reconhecimento desse sentimento) a pelo menos esboçar uma mudança [em mim]. 

História de amor e ódio? Definitivamente, não. História de amor e incompreensão.

Família. A mesma família cujas mulheres homenageei há alguns anos aqui no TUIST.

Bem, fico por aqui no desabafo, vago (é difícil), mas bem pessoal, do tópico família nesse balanço do meu 2012.

Aproveito para desejar a todos e a cada um, independente de seu credo e de sua fé, Feliz Natal!


sábado, dezembro 22, 2012

2012. Um balanço. (parte 2)


Na saúde

Hum… aqui temos um tópico bem particular. Talvez os Maias estivessem mesmo certos. Falar sobre certas coisas aqui no blog é tabu (ou censura, se lembram?). Mas vamos lá. 
Rinite alérgica. Desvio de septo como fator agravante. Repetidas crises ao longo dos últimos quatro ou cinco anos. A última foi bem complicada e, por conselhos da esposa (insistência mesmo), houve uma mudança na abordagem desta “questão”. Agradeço, publicamente.

E eis que a homeopatia ganha espaço. Está sendo bem interessante. Principalmente, e foi a grande novidade de tudo, a forma como se dá a consulta, a pesquisa de causa e efeito. Completamente diferente de tudo o que tive até o momento com médicos alopatas. A conexão com determinadas questões e o impacto dessas questões na saúde. É tudo muito novo, mas estou confiante. 

Continuo praticando o sedentarismo consciente. Caminhadas esporádicas, pedaladas descompromissadas… 

Um pouco de serenidade e calma ajudariam em muitas situações deste intenso 2012. Mas não deu, e deu no que deu. Ficou, isto sim, evidente, que minha saúde física depende de minha saúde emocional. E nesse ponto mais uma vez tenho a impressão de estar sendo óbvio. E estou. Creio que essa relação corpo e mente é evidente para todos. Mens sana in corpore sano.

Resumo do resumo: “e o pulso ainda pulsa.”

CONTINUA...

2012. Um balanço. (parte 1)

Aproveitarei este espaço (eu sempre me aproveitando dele!) e esses dias de festas (quem me conhece sabe que tento me manter longe... tento) para escrever, de forma resumida, como foi o meu 2012. Claro, até este momento. E de forma resumida, também, porque acabo me censurando em alguns pontos. É isso aí, eu me imponho uma censura. Vou dividir os "desabafos" em tópicos de modo que eu possa refletir e melhor externar o que sinto e penso de acordo com minhas lembranças. Mas tudo está relacionado, é uma coisa só.


No trabalho

Um ano interessante. Coisas novas. A começar pelo ambiente de trabalho. Como num ciclo, como uma espécie de déjà vu profissional, eis que volto (após 15 anos!) a trabalhar numa empresa de navegação. Na verdade um ramo bastante relevante da empresa na qual trabalho desde 2008. Muito embora eu tenha estado bem próximo do shipping, prestando serviços na área de telecomunicações, durante mais de 10 anos. Outro aspecto interessante foi “voltar” para o Centro do Rio, lugar onde tanto aprendi e que tanto gosto. A soma desses dois aspectos, um de negócios outro geográfico, me proporcionou retomar o contato com algumas pessoas importantes em minha vida profissional e pessoal.

O trabalho em si – com sua sistemática própria, com processos bem específicos – é outra novidade. Algumas tarefas instigantes, outras monótonas. Algumas claramente relevantes e outras absolutamente dispensáveis e que persistem por puro vício empresarial (lê-se: pessoal que decidem). Ah, sim, continuo um crítico. Com tudo (inclusive alguns problemas) que isso possa me causar. Mas vou até onde posso. 

O idealizado, isto é, atuar em minha área de estudo, ainda não se concretizou. Mas ao longo do tempo tento amadurecer no sentido de aceitação de algumas coisas que, nesse momento, não posso mudar. Em parte creio que minha atuação tem sido importante.

A novidade também se deu nas relações de trabalho. Pessoas, a parte mais crítica de qualquer atividade profissional, de qualquer processo de negócio ou projeto. E foram tantas! Cada uma com sua característica própria, com seu modo de interagir, com sua forma de executar suas funções, suas atribuições. Cada uma com sua experiência, com seu ritmo. Talvez não seja errado afirmar que a convivência foi civilizada, como devem ser as relações humanas. Aprendi. Ensinei. 

Claro, em se tratando de relações humanas eu deixei (ou pelo menos tento deixar) de esperar perfeição. Aborrecimentos e decepções ocorreram. Senti e causei. 

Da alta administração da empresa aos estagiários, aprendizes e tantos outros. Cada um me ensinou algo, cada um me inspirou. Somos todos ensinantes e aprendentes.

Essa mudança também significou sair de uma área de conforto (mais uma vez). Pisei em terreno desconhecido. E me mantive de pé.

Nos estudos

Enfim, a PÓS! De fato tenho de aprender a não adiar certas coisas em minha vida. Pois a cada dia percebo o quanto ela é curta. E a impressão de que tenho mais passado que futuro ainda permeia essa mente conturbada. 

Mas o positivo é que iniciei a pós-graduação. Uma especialização em Gestão Eletrônica de Documentos é uma maneira de me manter “no mercado”. Não menos importante, é uma forma de mostrar respeito por quatro anos de estudos para me graduar numa Universidade “pública, federal e gratuita”, parafraseando um respeitado professor, profissional e teórico da área arquivística.

É certo que devo me dedicar mais e aproveitar mais essa oportunidade para me consolidar como Arquivista, não apenas com um registro na carteira de trabalho (mais uma formalidade), mas como um profissional respeitado da área e na área.

Os estudos também ocorrem através da internet, através da modalidade EAD (ensino à distância). Finalizei um primeiro treinamento em digitalização e pretendo realizar outros na área de documentação. Além disso, farei pelo menos uma Certificação no início de 2013, esta presencial, numa instituição em São Paulo.

Um débito pessoal, em se tratando de estudos, é com relação aos concursos. Como é de conhecimento público (está lá no diário oficial!) fui aprovado nos concursos para o Iphan e para a Eletronuclear. Embora minha classificação não tenha sido tão ruim, também não foi tão boa. Recentemente fiz uma prova para outro órgão público, a Dataprev. Para minha surpresa (e preocupação*) fui também aprovado, embora em minha colocação (19º, média preliminar) fique bem difícil ser convocado. Mas uma coisa ficou bastante clara (embora seja óbvia para qualquer pessoa): eu preciso estudar

(*) Sei que concorri com profissionais que já atuam na área e mesmo recém-formados que, teoricamente, estariam com os conhecimentos mais “frescos” na mente. A primeira coisa que pensei ao verificar o primeiro resultado preliminar foi sobre o nível desses profissionais que estão chegando ou já chegaram ao mercado. Principalmente ao verificar os resultados das provas de português e conhecimentos gerais. Não encarem isso como uma arrogância de minha parte. É uma preocupação genuína. Já demonstrava isso na graduação.

Ainda nos estudos, em 2012 eu não me dediquei muito a outras matérias. Quem acompanha o blog já deve ter percebido o interesse por questões políticas (internas e externas), história, cultura, história, sociedade, literatura, arquivística… E África (sociedade, política, cultura, história). Li pouco. 

A tática de leitura dupla (um na mochila e um na cabeceira) não funcionou muito bem em 2012. Mas a manterei. Não culpo os livros. 

CONTINUA...

domingo, dezembro 16, 2012

Um plano para uma triste realidade

Explicando... Ao longo do tempo o foco em educação diminuiu enquanto o foco na repressão aumentou. Não educaram ontem, hoje reprimem. O "foco" aqui poderia ser substituído por investimento ou coisa do tipo. Assim como a linha de educação poderia representar "família", "infraestrutura", "emprego", "saúde", etc.

segunda-feira, novembro 05, 2012

1 ano, 5 meses, 1 dia


Nessas semanas que antecedem a posse do Ministro Joaquim Barbosa, atual vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, como presidente da casa, eu comecei a vislumbrar a possibilidade de o Ministro assumir, interinamente que seja, a Presidência da República. Um presidente negro no Brasil.

A constituição prevê, em seu artigo 80, que “em caso de impedimento do Presidente e do Vice-Presidente, ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da Presidência o Presidente da Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o do Supremo Tribunal Federal”.

Numa pesquisa rápida (ou aqui), tive uma surpresa. Não seria novidade. Entre 14 de Junho 1909 e 15 de Novembro de 1910 o Brasil foi governado por um mulato. Com o falecimento de Affonso Penna, assumiu seu vice, Nilo Procópio Peçanha.

A pesquisa também mostrou que a origem mestiça de Nilo Peçanha não passou incólume aos olhos da sociedade (e da imprensa) na época.  Foi “ridicularizado na imprensa em charges e anedotas que se referiam à cor da sua pele”.

História

Achei bastante interessante também a mensagem apresentada ao Congresso Nacional em 3 de Maio de 1910. Com certeza é um documento histórico importante que apresenta um retrato do Brasil no início do século XX.

Indústria, educação, saneamento, imigração, política externa e interna, iluminação pública, conservação de patrimônio, infraestrutura, seca no nordeste… Está tudo lá.

Destaque para o “abandono” ao assumir a presidência, quando apenas dois ministros aceitaram continuar. E também para o subsidio (e cuidados e benefícios) concedido aos imigrantes.

Vale a pena ler. Em alguns momentos irá parecer algo bem atual. Clique aqui.

Arquivista Registrado

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Mauritânia - Escravidão não abolida


Há alguns anos eu assisti uma reportagem sobre a escravidão num país africano. Mauritânia. Lembro que a aberração foi contextualizada culturalmente. Não exatamente para explicar a situação de tantos seres humanos subjugados por essa “prática” deplorável, mas talvez para não criminalizá-la (digo isso pelas repetidas citações da palavra “cultura” e suas variações). E realmente confusa essa relação, por vezes paradigmática, contraditória, entre o que seria [aceitável e admissível] cultura e o que seria considerado crime, crueldade, desumanidade [logo, inaceitável e inadmissível].

Já disse aqui no TUIST e repito que, nesse espaço, eu lanço meus preconceitos, minhas verdades efêmeras, transitórias, algumas vezes minhas fraquezas, minhas dúvidas, minhas inseguranças. Mas também minha raiva, meus desconfortos, minhas agonias.

Assinei a Rider’s Digest durante alguns anos e a matéria que mais me marcou foi a história de Waris Dirie, modelo Somali (linda!) que contou em primeira pessoa o que passou quando criança, como vítima da circuncisão feminina (mutilação) praticada em sua tribo. Cultura aos olhos de quem? Crueldade aos olhos de quem? Fiquei chocado e até hoje é difícil aceitar a prática como algo admissível. É cruel, abominável, triste. Preconceito de minha parte? É.

Pois bem, voltemos à Mauritânia.

Há alguns dias li um artigo (pode ser lido também aqui) de Abda Wone no The Africa Report  entitulada “Mauritania: Enslaving Africans in Africa in 2012” (Mauritania: Escravizando Africanos na África em 2012). O título, por si só, já gera um desconforto (no mínimo). Wone não está denunciando um grupo criminoso; não está relatando um caso isolado; tampouco está fazendo alusão a algo no passado. Ele fala de um país: a Mauritânia; de algo hediondo: a Escravidão; que está ocorrendo neste momento, “enquanto você lê este artigo”.

Abaixo, segue uma tradução que fiz do artigo. Segundo um dos autores citados por Wone, a persistência da prática escravista naquele país (de certa forma institucionalizada) é a o fato de um mundo ignorar aquela situação. Fica a questão, ignorar no sentido de “deixar prá lá”, “não é comigo”, “não to nem aí”, ou ignorar no sentido de desconhecer. Para ambos os casos, é importante que nos informemos.

Mauritania: Escravizando Africanos na África em 2012
Abda Wone

Para melhor compreender a Mauritânia, deve-se entender que a escravidão foi abolida três vezes! A quarta abolição da escravatura ainda está para ser anunciada uma vez que a prática generalizada no país continua inabalável.

A primeira abolição no país da África Ocidental foi colocada no papel em 1905, quando colonizado pela França.

A segunda, como resultado de uma continuidade da prática, era para ser aplicada quando a Mauritânia se juntou à Organização das Nações Unidas (ONU). Mas essa lei abolicionista era tão ambígua que apenas deu a entender que a prática seria proibida pela Constituição. Não naquele momento, mas em uma data futura!

As próprias classes que estão no comando das leis são as mesmas que se beneficiam com a escravidão, e o regime continua explorando os cidadãos considerados como "escravos". Não há sinais de que as autoridades sejam sinceras quando falam de liberdade, seja de pensamento, de movimento (de ir e vir) ou econômica.

Consequentemente, alguns negros, conhecidos como "Negro-mauritanos", ainda são possuídos como escravos pelos ricos senhores árabes, que apesar de serem Africanos preferem ser chamados de Árabes.

Então, essa é a luta em 2012 para libertar os escravizados na Mauritânia em uma sociedade moderna.

Estamos em 2012, numa sociedade moderna, e ainda luta-se na Mauritânia para libertar os escravizados.

A consciência política pré-histórica é tamanha que Birame Ould Dah, um abolicionista Mauritano, líder da Iniciativa para o Ressurgimento do Movimento Abolicionista (sigla do original, IRA-Mauritanie) está detido desde abril 2012.

Birame foi acusado de queimar obras acadêmicas muçulmanas, enquanto insistia que seus autores justificam a prática de escravatura na Mauritânia, por força do Islã. Opiniões nacionais e internacionais associam a prisão de Birame a seu ativismo antiescravidão e sua luta para informar o mundo sobre o que está realmente ocorrendo em seu país, Mauritânia.

A prisão de Birame não cumpre nem mesmo as normas concebidas para animais abandonados quando levados para o abate e não é surpresa sua vida estar em perigo devido a sua condição de saúde. Uma condição imposta pelas mesmas autoridades que em três ocasiões proibiram a prática que Birame os lembra ainda existir.

Sudão e Mauritânia, onde os negros e os chamados árabes coexistem no mesmo espaço geográfico, há muito tempo estão no negócio de escravidão.

Dr. Samuel Cotton, autor da obra-prima "O Terror Silencioso: uma jornada àescravidão Contemporânea no Continente Africano", expressa seu choque ao descobrir a extensão da escravidão.

"Dezenas de milhares de escravos negros na Mauritânia?”

"Propriedade de mestres de árabes e berberes? A ideia me pareceu absolutamente incrível! Como isso pode estar acontecendo e como poderia o resto do mundo não saber?".

Cotton atribui a continuação da escravatura na Mauritânia de hoje à ignorância do mundo acerca da situação.

"Com o desenvolvimento de minha pesquisa, tornou-se claro para mim que, embora com certa abundância de dados, o mundo não sabia o que estava acontecendo ao norte da África Ocidental. Enquanto trilhava o meu caminho através dos vários mapas, documentos e artigos que solicitei e recebi, um retrato da Mauritânia começou a surgir em minha mente.”

Enquanto você lê este artigo, "escravos" que tomaram o corajoso passo de entrar em cidades como Nouakchott e Nouadhibou estão vivendo em condições econômicas extremamente difíceis. Esta situação é repetida por Kevin Bales no livro Disposable People, que revela que os Haratines ganham cerca de US$ 8 por mês e são forçados a pagar taxas, como escravos comuns, para o governo.

Para os negros (Fulani, Wolof e Soninke) que vivem ao sul e, portanto, a certa distância de assentamentos tradicionais dos árabes, a vida não poderia ser pior. Discriminação legal é a ordem do dia, apesar de o primeiro presidente da Mauritânia, Mokhtar Ould Daddah ter declarado seu objetivo político de busca de um país em que árabes e negros viveriam juntos em paz e juntos construiriam um Estado-nação, em 1960.

Mas há uma grande diferença entre as declarações Mokhtar e o que ocorreu. Datando da época em que a Mauritânia tornou-se independente em 28 de novembro de 1960, e continua até os dias atuais, a construção nacional focou apenas na afirmação de um sistema discriminatório. Mokhtar, bem como os seus sucessores, quebrou a promessa de construir um país igualitário e, ao invés disso, tratou negros africanos como cidadãos de segunda classe, em termos legais.

Em 2000, por razões descritas como autoexplicativas, a Mauritânia deixou a Comunidade Econômica dos Estados Oeste Africano (ECOWAS), para se juntar ao grupo principalmente formado por países árabes do Norte Africano, consolidando assim a seu projeto de "arabização".

A implementação deste sistema de Apartheid da Mauritânia levou a sérios problemas de coexistência entre árabes e não-árabes.

Em 1989, mais de 120, 000 negros foram deportados para o Senegal e para o Mali e as razões por trás disso foi diminuir a quantidade de negros, uma vez que seu objetivo era criar um país todo árabe - e para explorar suas terras. Mauritânia é conhecido entre alguns círculos como "O Outro Apartheid".

Publicado originalmente em 28 de Agosto de 2012

Brasil e Mauritânia

Tendo em vista que a escravidão faz parte de nossa história, com marcas tão permanente até nossos dias, fiquei curioso para saber qual a relação entre o Brasil e a Mauritânia. Em resumo, sim, o Brasil mantêm relações diplomáticas com o país, digamos, escravocrata. Temos embaixada , eles têm . Está tudo muito bem, tudo muito bom. Ninguém fala nada.

domingo, novembro 04, 2012

A lei de acesso e a alternância no poder


Terminou o segundo turno das eleições municipais. Em 2013, os mais de 5000 municípios brasileiros terão novos prefeitos e novos vereadores. Novos? Bem, em sua maioria, creio eu, dadas as muitas reeleições.

Finda a apuração, duas das muitas entrevistas com os recém-eleitos chamaram minha atenção. Numa delas, o candidato eleito disse que faria uma auditoria na cidade para descobrir o atual estado, digamos, das contas da prefeitura. Em outra, essa não de candidato eleito, o entrevistado (um ex-secretário de Saúde) comentou algo bastante relevante sobre a dificuldade de se manter uma política de saúde na cidade com uma rotatividade tão grande dos gestores da saúde pública. Essa segunda entrevista, assim como a primeira, no contexto das eleições e da eventual troca de prefeitos e vereadores.

Em ambos os casos a Lei 12.527 de 18 de Novembro de 2011 pode ser o remédio.


Não havendo preguiça política dos que pleiteiam os cargos de prefeito ou vereador – sejam eles da oposição ou da situação – e com boa vontade desses e de seus partidos para elaborarem um plano de governo (ao invés de se concentrarem apenas em caras – e sujas – campanhas políticas e em seus planos de poder) e com a observância do que rege a citada Lei que regula o Acesso a informações previsto na constituição, a alternância não será empecilho para um bom governo.

Fala-se em “descobrir” como estão as contas públicas como se a legislação não obrigasse os gestores a publicizar seus atos. Todos temos direito de conhecer quanto, como, quando, onde, estão sendo aplicados os recursos públicos. E as prefeituras têm o dever de prover o acesso a tais informações.

Se temos informações, se temos conhecimento, podemos fiscalizar, auditar em tempo real e, no caso do pleito ao cargo, planejar.

Você compraria uma casa sem antes procurar saber se existe algum débito imobiliário ou impedimento judicial? Parece que, na primeira entrevista, o candidato eleito se preocupará com isso após entrar no imóvel.

E, no caso específico de política pública voltada para a saúde, creio aplicar-se o mesmo princípio. Conhecendo, planeja-se. E, para que conheçamos, é preciso que tenhamos informações. E para que tenhamos as informações, os gestores devem obedecer a lei, e nós (e os elegíveis) devemos cobrar que a lei seja cumprida.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Eu quero 100%!

Bem simbólica a atual "exigência" de 20% da velocidade de internet contratada (leia aqui, ou aqui). Pela norma da Anatel (aprovada um anos após a publicação), se pagamos por 1 mega (de megabit, não de megabyte... veja o glossário) por segundo, temos direito a um quinto (inevitável lembrar das aulas de história... a Lei do Quinto).

Poderíamos estender isso a outros direitos pouco exigidos, cobrados, defendidos. Será que temos direito a apenas: 20% de políticos honestos, 20% de promessas de campanha atendidas (podendo ser negociado), 20% de hospitais funcionando, 20% de saneamento, 20% de escolas de qualidade... e por aí vai.

Exigimos pouco, temos pouco.

Eu quero 100% do que tenho direito, pois me é exigido 100% do meu dever. 


domingo, outubro 07, 2012

SOU ARQUIVISTA!

Será que é tão difícil adequar os formulários de cadastro a nossa realidade? Com certeza não. Já cansei de, todas vez que me cadastro para algum serviço (concursos, eventos, compras, etc) na internet, ao chegar na parte relativa a profissão, não encontrar "Arquivista" na lista de opções.


Sei que não é o único caso de invisibilidade (ou descaso), mas em se tratando de uma profissão que consta do quadro de órgãos da administração pública em todas as esferas, e com tantas instituições da área, é inadmissível que seja esquecida.

São 68 as profissões regulamentadas, que constam da lista da CBO - Classificação Brasileira das Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego. Veja aqui. É oficial!


quinta-feira, outubro 04, 2012

Apagão seletivo?


Um detalhe sobre o recente incidente com o sistema elétrico brasileiro me deixou intrigado. Pela manhã, a reportagem reproduziu uma nota do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) na qual o órgão informava que a interrupção de energia se deu em locais selecionados e de modo planejado, controlado. A mesma reportagem listava regiões do Rio de Janeiro. Depois ficou registrado no portal de notícias G1.

Além de Jacarepaguá, o corte no abastecimento atingiu Cascadura, Campo Grande, Higienópolis, Guadalupe e Penha. Ainda ficaram sem energia as cidades da Baixada, Nova Iguaçu e Seropédica. E na Região Metropolitana São Gonçalo e Niterói.”

Hoje moro numa região dita nobre na cidade do Rio de Janeiro. Ao acordar, a primeira certeza sobre a regularidade no fornecimento de energia foi ver o relógio do aparelho de som bem aceso e sem piscar. Aqui na região, pois, não sofre o apagão.

Mas volto ao detalhe. A palavra é simples: seletivo! Bem, se foi seletivo, alguém selecionou por alguma razão. Tal razão, até o momento, não me é clara, talvez ainda não tenha sido explicitada pelo órgão competente. Aliás, a posição do órgão (falo da ONS) é apenas informativa ou também explicativa?

Comentei com minha esposa que parecia que as regiões mais pobres do Rio haviam sido “sacrificadas” para que, nas palavras da ONS, “evitar um mal maior”.

Claro que tudo isso pode ser paranoia minha, mania de perseguição, sei lá. O fato é que tudo poderia ficar muito mais claro (sic) se quem planejou e controlou as quedas de energia e selecionou as regiões que seriam afetadas pela falta de luz explicasse.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Seu conteúdo digital é realmente seu?


Considero bastante interessante a matéria de Hilary Osborne publicada hoje no The Guardian. Ela aborda um assunto ainda novo, principalmente se consideramos a legislação atual: o direito que [não]temos sobre o “nosso” conteúdo digital.

… Antes era simples: suas fotos enchiam álbuns e caixas; seus CDs, livros e filmes enchiam as prateleiras; seus pensamentos e ideias enchiam suas agendas e diários, e quanto você morria podia deixar esses materiais para serem distribuídos entre sua família e seus amigos.

… A tecnologia mudou a forma com que armazenamos e compartilhamos nossas memórias…

Clique aqui para ler a matéria na íntegra (em inglês)

Arquivologia. Algumas artigos

Alguns trabalhos na área arquivística publicados e garimpados na Internet.

Título: O PAPEL INSTRUMENTAL  DOS ARQUIVOS E AS QUALIDADES PROFISSIONAIS DO ARQUIVISTA
Instituição: Universidade de São Paulo
Resumo:Artigo relata duas conferências, Encontro dos Estudantes de Arquivologia no VII Congresso de Arquivologia do Mercosul, realizado em Viña del Mar, Chile, 23 de novembro de 2007, sobre as responsabilidades éticas e cidadãs na formação do arquivista; Mesa-Redonda o papel social, instrumental e político dos arquivos no Seminário Arquivo, Memória. Fundação Cultural de Santos. Santos, SP, 28 de agosto de 2009. Arquivos são essenciais, ferramentas, cidadanias, direito, historiografia, ações administrativas, técnicas, científicas, pois são provas fundamentais na eficiência da administração pública e privada. Arquivos são instrumentos insubstituíveis para a administração pública/privada, devido ao fato de integrarem os mecanismos de decisão e de ação e, nesse sentido, deveriam ter lugar tanto nas políticas públicas como nas estratégias empresariais no conhecimento práxis.
Palavras-chave: Arquivo. Instrumentos de arquivos. Ética.
Clique aqui para ler na íntegra.

Título: A ARQUIVÍSTICA FUNCIONAL E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA DISCIPLINA CONTEMPORÂNEA
Instituição: UNESP
Resumo: Nos últimos vinte anos, as novas formas de produção documental e as tecnologias de informação têm levado os arquivistas a repensarem seu papel na sociedade, assim como os princípios e conceitos arquivísticos promulgados no século XIX. Neste contexto, emergem, notadamente no Canadá, novas abordagens para a organização do conhecimento arquivístico contemporâneo, destacando-se, dentre elas, a Arquivística Funcional, ou Pós-Moderna. O presente artigo aborda a contribuição dessa nova corrente para a constituição de uma disciplina contemporânea, notadamente a partir dos estudos de seu precursor e disseminador, Terry Cook.
Palavras-chave:  Arquivística funcional. Arquivística Pós-Moderna. Arquivística Contemporânea. Terry Cook
Clique aqui para ler na íntegra.

Título: A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA IMAGÉTICA DO HOSPITAL DO CÂNCER DE LONDRINA: PROPOSTA DE ORGANIZAÇÃO DO ARQUIVO FOTOGRÁFICO
Instituição: Universidade Estadual de Londrina.
Resumo: O arquivo de fotografias caracteriza-se, entre outros aspectos, como lugar de preservação da memória dentro do contexto de cada instituição ao qual está organicamente ligado, torna-se clara a necessidade do estabelecimento de um processo de gestão documental baseado em critérios que possibilitem de forma eficiente e eficaz, a organização e consequentemente o acesso a esses documentos imagéticos.  O objetivo visa apresentar uma proposta de organização e mais especificamente de representação de fotografias relativas às instituições voltadas à  área da saúde, enfatizando aquelas fotos, as quais, de algum modo, estão relacionadas ao Hospital do Câncer de Londrina.
Evidenciou-se a contribuição da Linguística Textual e suas questões acerca da comunicabilidade textual. Em decorrência, critérios como coesão e coerência foram caracterizados como fundamentais à elaboração com qualidade dos resumos. Tal proposta acredita-se, possibilitará não somente uma forma de consolidar a memória da Instituição ao garantir a integridade física desses documentos e o seu acesso, como também oportunizou momentos de reflexões a respeito da importância da gestão sistematizada dos arquivos imagéticos para os diversos segmentos da sociedade contemporânea.
Palavras-chave:  Organização da informação imagética. Representação da Informação. Hospital do Câncer de Londrina. Arquivos de fotografias.
Clique aqui para ler na íntegra.

Título: A CONTRIBUIÇÃO DOS ARQUIVISTAS NOS SISTEMAS DE SGQ
Autora: Gabriela Farias Queiroz
Resumo: Com este trabalho, procura-se mostrar a estreita relação entre os Sistemas de Gestão de Qualidade, descritos no conjunto de Normas da da família NBR ISO 9000:2000, e os Sistemas de Gestão de Documentos subsidiada pela implantação e pela manutenção dos Sistemas de Gestão de Qualidade. Diante disto o presente trabalho possui como objetivo a análise da contribuição do arquivista nos sistemas de SGQ.
Palavras-chaves: Arquivista, Documento, Qualidade, Registro.
Clique aqui para ler na íntegra.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Testamento Vital


Publicado hoje, no Diário Oficial da União - Seção 1, edição 170, páginas 269 e 270. Reproduzo na íntegra.

É bom ter escolha.


CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA
RESOLUÇÃO No 1.995, DE 9 DE AGOSTO DE 2012

Dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes.

O CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, no uso das atribuições conferidas pela Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957, regulamentada pelo Decreto nº 44.045, de 19 de julho de 1958, e pela Lei nº 11.000, de 15 de dezembro de 2004, e CONSIDERANDO a necessidade, bem como a inexistência de regulamentação sobre diretivas antecipadas de vontade do paciente no contexto da ética médica brasileira;

CONSIDERANDO a necessidade de disciplinar a conduta do médico em face das mesmas;

CONSIDERANDO a atual relevância da questão da autonomia do paciente no contexto da relação médico-paciente, bem como sua interface com as diretivas antecipadas de vontade;

CONSIDERANDO que, na prática profissional, os médicos podem defrontar-se com esta situação de ordem ética ainda não prevista nos atuais dispositivos éticos nacionais;

CONSIDERANDO que os novos recursos tecnológicos permitem a adoção de medidas desproporcionais que prolongam o sofrimento do paciente em estado terminal, sem trazer benefícios, e que essas medidas podem ter sido antecipadamente rejeitadas pelo mesmo;

CONSIDERANDO o decidido em reunião plenária de 9 de agosto de 2012, resolve:

Art. 1º Definir diretivas antecipadas de vontade como o conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade.

Art. 2º Nas decisões sobre cuidados e tratamentos de pacientes que se encontram incapazes de comunicar-se, ou de expressar de maneira livre e independente suas vontades, o médico levará em consideração suas diretivas antecipadas de vontade.

§ 1º Caso o paciente tenha designado um representante para tal fim, suas informações serão levadas em consideração pelo médico.

§ 2º O médico deixará de levar em consideração as diretivas antecipadas de vontade do paciente ou representante que, em sua análise, estiverem em desacordo com os preceitos ditados pelo Código de Ética Médica.

§ 3º As diretivas antecipadas do paciente prevalecerão sobre qualquer outro parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares.

§ 4º O médico registrará, no prontuário, as diretivas antecipadas de vontade que lhes foram diretamente comunicadas pelo paciente.
§ 5º Não sendo conhecidas as diretivas antecipadas de vontade do paciente, nem havendo representante designado, familiares disponíveis ou falta de consenso entre estes, o médico recorrerá ao Comitê de Bioética da instituição, caso exista, ou, na falta deste, à Comissão de Ética Médica do hospital ou ao Conselho Regional e Federal de Medicina para fundamentar sua decisão sobre conflitos éticos, quando entender esta medida necessária e conveniente.

Art. 3º Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação.

ROBERTO LUIZ D'AVILA
Presidente do Conselho

HENRIQUE BATISTA E SILVA
Secretário-geral

terça-feira, agosto 28, 2012

Nossa tragicomédia tetranual


Nenhuma proposta é de fato apresentada. Pelo menos nada sério. O desrespeito é visível. A ignorância pelo fazer político, no que concerne a um bem maior, parece reinar. Alguns até poderiam ser consideramos inocentes peças num joguete perverso e muito mais amplo do que o posto pleiteado. Na festa da democracia muitos dos convidados parecem querer... farra.

O que num primeiro momento é risível, também preocupa. Mas, em tempo, ficarei nesse primeiro momento.

Passeei hoje pelos canais abertos a procura dos candidatos em Mesquita (não encontrei). Foram poucos minutos. Apesar de hilariante, tudo aquilo é muito difícil de aturar, pois sei que não é uma história de ficção, não é comédia.

Não resisti. Resolvi tomar nota de alguns nomes. Como a oferta parece ser ilimitada, optei por aqueles que, em seu apelido, se relacionam (ou referenciam-se) com alguma coisa, algum lugar, alguém, etc. Vamos a pequenas lista:

da Xerox
da Pensão
de Jesus
do Preparatório
da Padaria (foram dois)
da TV
do Açaí
do Sítio
do PT (uns 4)
do Caminhão (dois)
da SUCAM (dois)
do Império
da Laje
do Urso
do Bairro
da Comunidade (dois)
da Ambulância
da Kombi (dois)
da Bicicleta
da Vila
da Barraca
da Índia

Isso sem contar Maluquinhos, Batatas, 100%s, Bispos e Bispas, Pastores e Pastoras, Professores e Professoras, Tios e Tias, Presidentes e tantos outros.



A droga da incoerência midiática

É notório que a Rede Globo e muitos dos chamados Globais – o grupo, claro, é bem mais amplo - estão engajados numa campanha voltada para mudança na política de combate às drogas. Minha percepção é que tal campanha critica basicamente a repressão. O consumidor de drogas ilícitas não poderia ser tratado como um criminoso (que é). A campanha trás histórias bem tristes, de injustiças, de imperícia e morosidade judicial, para sensibilizar a opinião pública, colocando a questão das drogas sob a ótica somente do dito consumidor eventual. Aquele consumidor que, segundo eles, não faz mal a ninguém “cheirando seu pó ou fumando sua maconha, na boa, na social…”. Tudo balela!



A reportagem recente sobre o consumo e a venda de drogas na Lapa (algo conhecido de todos andam nas ruas) não enfatizou apenas o absurdo que é o tráfico e o consumo de drogas numa área de lazer tanto para cariocas como para turistas de todo o mundo. A reportagem focou bastante na ação (ou melhor, na inação) do poder público, ali representado pelos policiais e guardas municipais. Estes foram mostrados como os criminosos da história. Não são! Na verdade, agentes da lei poderiam mesmo ser considerados, em alguns casos, uma das vítimas.

Explico com uma de minhas analogias esdrúxulas… Imaginem um escritor para o qual é dado papel e caneta. A função do escritor, que é pago para executá-la, é… escrever. Só que o papel não pode ser tocado. Assim, vemos lá o escritor olhando para o papel, para a paisagem, para a caneta…

Conseguem perceber? Estão cobrando a polícia para que reprima o consumo e o tráfico de drogas. Ótimo! Eu também cobro, exijo… e espero que assim seja feito. Mas, ao mesmo tempo, pregam, através de campanhas bem elaboradas e bem financiadas, que o consumo seja… vamos falar francamente… liberado. E que o consumidor seja blindado, seja tratado como um especial. E, como o consumidor é especial, bonitinho, na maioria das vezes filhinho de pai, inocente, frágil… bem, para este “ator” dessa peça absurda e triste, ficam garantidos todos os direitos de cidadão. Então o jeito é voltar-se para (ou contra) a polícia que, vejam vocês, parece ser o lado mais fraco nessa briga.

Eis a incoerência!

Que fique claro:
1) Sou contra qualquer tipo de violência. Seja da polícia ou do bandido. Logo, não estou defendendo aqui que a polícia use de violência no cumprimento de seu dever.
2) Sou a favor de uma discussão sobre a questão das drogas. Mas que seja séria e coerente com as leis vigentes.
3) Se a lei atual não atende, temos ferramentas e instituições para adaptá-las, modificá-las ou até mesmo anulá-las. Até lá, temos o dever de obedecê-las.
4) Na reportagem, a ação tanto da Guarda Municipal como da Polícia Militar foi errada. Assim como o consumo. Assim como a venda. Assim a defesa desse erro por parte da mídia.
5) Pontos conhecidos de consumo (e talvez de venda): além da Lapa (não apenas nas ruas, mas também em alguns estabelecimentos); vários pontos do Aterro do Flamengo; Glória (próximo a SEARJ e a rua do Russel – pertinho da Rádio Globo); Praia do Flamengo assim como o famoso e bem frequentado e badalado Posto 9, em Ipanema… E tantos outros lugares, bem conhecidos, turísticos até, onde o poder público assim como o poder midiático, ambos representados por seus agentes, se fazem presentes. 

terça-feira, agosto 21, 2012

Orgânica Lei


Em 20 de Agosto de 2012, por meio do Decreto 7.794 fica instituída a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica

A PNAPO tem como objetivo "integrar, articular e adequar políticas, programas e ações indutoras da transição agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e da oferta e consumo de alimentos saudáveis."

Clique aqui para ler a íntegra do decreto.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Por que agora pode?

Uma pergunta que fica aqui martelando... Considerando que o partido ora na situação fora grande crítico de privatizações (as pretendidas e as propostas, além dos métodos) ocorridas no passado - quando o mesmo  era de oposição - e as ações que se seguem do governo (desse partido) no sentido de privatizar setores que já poderiam estar a cargo da iniciativa privada...

Será que hoje vivemos um atraso de pelo menos uma década por conta de picuinhas partidárias? Será que desenvolvimento tão aguardado e necessitado por nosso país estava travado por diferenças ideológicas? Por ganância, egoísmo, cobiça de poder?

sábado, agosto 11, 2012

Mais massa no mesmo tabuleiro


Visitei o novo trem a ser usado pelo MetrôRio em exposição na estação Carioca. Foi há mais ou menos um mês. Particularmente não gostei.

A proposta principal, pelo que vi, é aumentar a área para as pessoas viajarem em pé, elevando, assim, a capacidade do transporte.

Hoje, indo para a Central do Brasil de metrô, percebi que faltava um dos bancos. Logo, penso que o MetrôRio já está fazendo essa experiência. Eis a solução para o caos no transporte público do Rio: se pessoas sentadas ocupam mais espaço, eliminemos tais lugares. Todos de pé! Mais sardinhas numa mesma lata. Ou, falando em transporte de massa… temos mais massa, num mesmo tabuleiro.

Outro ângulo

Licença poética… A monótona mesmice cotidiana às vezes nos proporciona momentos, digamos, necessários.

A rotina a que me refiro ocorre, no meu caso, de segunda a sexta-feira dos dias úteis (serão os outros dias inúteis?). De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Itinerário básico.

Sobre os momentos necessários… Há poucos dias, indo pra o trabalho, entro no ônibus e pensando não ter lugar vago, inicialmente permaneço de pé. Com mais atenção percebo um lugar vazio. Me sento. O ônibus é relativamente novo, com uma estrutura interna um pouco diferente. Um dos bancos duplos, por exemplo, é voltado para trás. Ocupo justamente um dos lugares nesse banco.

Olho a paisagem passando do lado de fora. E a rotina se quebra por alguns momentos.

O que vejo parece diferente do “normal”. São paisagens novas. Aquele parque não é o mesmo. Aquela rua, aquele monumento, aquela vista… A Praça Paris, na Glória, ganhou um novo contorno. Ao dobrar a Presidente Antonio Carlos e cruzar a Presidente Wilson, lá ao fundo o Cristo recebe meu olhar de braço aberto. Mais a frente o imponente prédio do Ministério da Fazenda ocupa toda a paisagem, embora mostre, em alguns detalhes, que vem sendo maltratado com descaso e mau gosto na indiscriminada instalação de aparelhos de ar condicionado. Mas continua forte, grandioso. E estamos na Primeiro de Março, e temos o Palácio Tiradentes, e o Paço, e a Antiga Sé…

Está tudo ali, como sempre. Mas tudo é novo.

Pode parecer simples. Uma bobeira mesmo, para alguns. Mas algumas vezes é preciso olhar o Rio de Janeiro com outros olhos. Algumas vezes é preciso olhar a vida por outros ângulos.

domingo, julho 15, 2012

Paulo Moura

Ao PM, que hoje completaria 80 anos. E que continua nos brindando com seu eterno talento.

Ingá, ninguém mais pega.


Há algum tempo estava conversando sobre antigos hábitos alimentares. Boas lembranças de décadas atrás, da infância e adolescência em Mesquita. Falava sobre verduras hoje difíceis de vermos a mesa. Tais como a bertalha, a serralha e a taioba. Outras muito menos conhecidas até pelos mais antigos que sempre viveram na “cidade”, mas que faziam parte de minha alimentação quando criança. Como o caruru-do-mato, por exemplo, refogado ou feito com fubá.

Na conversa lembrei também da “ponta de abóbora”, como chamávamos a ponta da planta. Não o fruto, mas a extremidade, o broto, que minha tia-avó fazia refogada e até hoje o cheiro e o gosto e a textura me causam boas recordações. Utilizava-se também o mamão verde, no lugar do chuchu, deixando os ensopados de peixe e camarão muito mais gostosos. Neste caso, era minha avó e autora dos deliciosos pratos.

E por falar em frutas, algo que sempre questiono é o sumiço da goiaba branca. Para usar uma palavra que virou moda na construção de expressões de impacto, parece haver uma ditadura da goiaba vermelha. Sem falar da cana-caiana, do araçá, dos diversos tipos de manga que tínhamos ao alcance.

Apesar de termos hoje mais recursos, vejo que empobrecemos. E ficamos monótonos também. Repetitivos mesmo. A mesmice à mesa parece imperar.

Ao contrário do que apregoa o dito popular, parece que a riqueza não pôs a mesa. Pelo menos não uma variada, em gostos, formatos, texturas, cheiros, temperos...

Há mais ou menos uma semana estava eu em Mesquita, caminhando para um ponto de ônibus com a intenção de visitar minha tia em Nilópolis. Atravessei próximo a um grande ingazeiro que fica no canteiro da Avenida Getúlio de Moura, na esquina com a Rua Regina. Aliás, existiam ou existem (espero eu) vários ingazeiros ao longo dessa avenida. Não deixei de verificar se existia algum ao alcance das mãos, pois ao contrário do que fazia quando criança, eu não achei conveniente (lê-se: vergonha) jogar pedras e balançar galhos para forçar a queda e satisfazer minha vontade.

Olhei então para o chão e vi um verdadeiro tapete de ingás, já pisados, secos, ao tempo. Percebi, com certa tristeza, que as crianças de Mesquita nem sabem que aquela fruta é comestível, não conhecem a doçura e nem a aventura da “colheita”.

Mas em Mesquita ainda tem ingá. E ninguém mais pega.

segunda-feira, julho 09, 2012

"Se o parlamentar mentir, é um problema..."

"Se o parlamentar mentir, é um problema..."

A frase bem que poderia estar completa e deveria ser uma afirmação. Estaria correta. Se um político eleito democraticamente (por uma maioria) mente, é um problema, ponto. E não apenas para a maioria; é um problema para todos. Um problema, digamos, democrático. Mas parece que o nível da podridão na política assumiu níveis assustadores.

A seguir a frase completa.

"Se o parlamentar mentir, é um problema dele com sua consciência e sua audiência, não com o decoro. Aliás, nada do que o parlamentar diz da tribuna pode ser quebra de decoro".


domingo, julho 08, 2012

O uso da lei

Recentemente, no dia 16 de Maio de 2012, através do Decreto 7.724, entrou em vigor a Lei 12.527, de 18 de Novembro de 2011, que regula o acesso a informações previsto na Constituição Federal, esta de 5 de Outubro de 1988. Temos a Lei de Acesso à Informação.

A importância da Lei é evidente, embora, talvez por ser tão recente, essa novidade ainda não tenha gerado o impacto que tem potencial para causar. 

Mas não deixo de sentir certo receio com o andar da carruagem. Basta ficar atento ao noticiário. É lamentável que o uso da lei (pelo menos a mídia assim o faz parecer, pelo destaque dado) esteja sendo resumido a questão salarial dos servidores públicos. Algumas pessoas que lutaram contra o decreto devem estar comemorando. A lei também permite essa discussão, porém, não é APENAS isso. De qualquer forma, abaixo teço alguns comentários sobre a divulgação dos salários.

Já que falamos das possibilidade de uso de uma lei, começo recorrendo a... uma lei. 

Lei 8.112, de 11 de Dezembro de 1990, que "dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais." Lá temos, logo nas disposições preliminares, no parágrafo único do artigo terceiro... 

"Os cargos públicos, acessíveis a todos os brasileiros, são criados por lei, com denominação própria e vencimento pago pelos cofres públicos, para provimento em caráter efetivo ou em comissão."

Deixo para cada um a interpretação do texto em destaque, relacionando-o com a atual questão do acesso à informação e, mais especificamente, sobre o conhecimento do salário dos servidores públicos.

Mas outra questão talvez seja relevante. Boa parte das vagas no serviço público é provida através de concurso público. Tais concursos, como é de praxe, se iniciam com a publicação de um edital e prevê, dentre outras coisas, o salário. Tais editais são divulgados amplamente, assim como o resultado final do concurso, publicado em diário oficial (público). Resultado esse que apresenta lista nominal dos aprovados. Logo, o salário do servidor público, quando nomeado, já é conhecido. A partir daí, com os planos de cargos e salários (quando existentes) e eventuais formas de ascensão, gratificações, adicionais, etc... a coisa fica obscura. O que permanece evidente, claro, óbvio... e relevante, é que o cargo ou a função, continuam sendo pagos pelos cofres públicos.

Fato: eu pago, você paga, nós pagamos!
Pergunta: quanto pagamos?

A aplicação desse direito não deve ser encarada (e nem utilizada) como uma questão pessoal. As pessoas estão confundindo o público com o privado. Basta ouvir as declarações dos que bradam contra a publicação do salário. Para esses, digo: eu não quero saber o quanto você ganha, quero saber o quanto nós pagamos.

E os servidores que, ao longo dos anos, tiveram seus salários estagnados, têm a oportunidade de expor para a sociedade esse problema. 

Voltando a questão do uso da Lei de Acesso à Informação, ratifico, repito, reitero minha opinião de que não devemos resumi-la, subutilizá-la, restringi-la a apenas uma questão (por mais relevante que seja). 


Rio de Janeiro. Belezas e Mazelas

O Rio de Janeiro conta com pontos turísticos naturais e outros tantos frutos de trabalhos arquitetônicos e paisagísticos.  O descaso do...