domingo, agosto 29, 2010

Da clarineta ao carimbó

Paulo Moura foi (e continuará sendo) um dos maiores instrumentistas do Brasil e do mundo.



Caso não consiga visualizar, clique aqui.

sábado, agosto 28, 2010

Minhas desculpas ao Leandro

Recentemente recebi de um amigo uma indicação de vídeo. Não posso dizer que fiquei espantado com o conteúdo. Creio que o primeiro sentimento foi de indignação. Depois, ou ao mesmo tempo, senti certa vergonha, misturada com perplexidade ao pensar a situação mais amplamente. Em cena está o até então desconhecido Leandro com dos homens públicos bem conhecidos, o Presidente do Brasil, Luiz da Silva e o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

Vamos aos homens públicos. Esses senhores são muito bem vistos pela maioria da população, segundo as pesquisas. O primeiro, inclusive, vive quebrando os próprios recordes de popularidade como "nunca antes nesse país...". Ambos também tentam ser reeleitos. O segundo é de fato. O primeiro, "por tabela", uma vez que a candidata de seu partido e sua candidata está bem cotada nas pesquisas principalmente por ser instrumento de continuidade. Fora isso, não tenho muito a acrescentar. Ambos são o que são. Fazem parte do que fazem. E, ainda segundo as pesquisas, talvez consigam o que pretendem.

Quanto ao Leandro. Bem, pelo que li tinha 17 anos na época em que registrou a cena. E cobra até hoje uma promessa feita por um daqueles homens públicos. No curto vídeo, eu visualizo Leandro como sendo a personificação de uma população que olhar crítico e atenta a suas próprias demandas (um sonho) e os dois senhores personificam o Estado atual das coisas.

Mas antes do vídeo eu gostaria de explicar o título desta postagem. Peço, sim, desculpas ao Leandro, pois sou uma das pessoas (um entre milhões) que pagam aqueles homens públicos. Eu não os contratei, não assinei a contratação deles. Nessa empresa chamada Brasil existe democracia e o voto da maioria venceu. Mas meu trabalho ajuda a mantê-los onde estão. Peço desculpas, pois os meus (e seus) funcionários não poderiam ter lhe tratado daquela forma. A atribuição de seus cargos não deixa margem para ofensas a quem eles devem servir. Isso mesmo, SERVIR. São servidores públicos! Juro que tentei despedir o primeiro uma vez, há quatro anos, e não consegui. Farei minha parte para que o segundo não continue no cargo por mais quatro anos. Isso eu lhe prometo. É o mínimo que eu posso fazer. Ah, Leandro, você também pode ajudar. Você faz parte dessa empresa e tem o poder do VOTO.

terça-feira, agosto 24, 2010

Biblioteca do Congresso Americano (última parte)

Nesta biblioteca, pesquisadores e restauradores trabalham incessantemente para salvar uma gigantesca coleção de um de seus maiores inimigos: a ação do tempo.



terça-feira, agosto 17, 2010

Biblioteca do Congresso Americano (primeira parte)

A Biblioteca do Congresso dos EUA é a maior do mundo e tem mais de 140 milhões de itens divididos entre 463 idiomas de todas as partes do mundo. Existe um departamento inteiramente dedicado ao Brasil. Nele pode-se encontrar de tudo, desde os desenhos originais da nossa capital, Brasília, até os sucessos de Zeca Pagodinho. A instituição bicentenária reúne segredos e raridades, como o documento, de quase 500 anos, que revela uma briga judicial entre uma tribo indígena e a corte espanhola.


domingo, agosto 08, 2010

Da falta de ética ao dedo-duro

Ontem, um telejornal esportivo estava transmitindo uma reportagem sobre a mais nova polêmica do futebol: a cirurgia do Kaká. A polêmica se dá pelo fato de o jogador declarar já estar sentindo dores no joelho desde a copa. Além das declarações do belga Marc Martens, médico que conduziu a cirurgia, alertando que Kaká arriscou comprometer toda sua carreira futura por ter jogado a última copa, ao invés de se afastar para tratamento. É mais ou menos isso. Não sou muito fã de futebol e o foco desta postagem não é esporte.

Bem, nesse confusão toda, surge José Luiz Runco, médico da seleção brasileira, teoricamente responsável (sic) por liberar ou não um atleta para jogar. Seria, considerando a declaração do cirurgião, responsável (sic) por qualquer problema mais grave que o jogador pudesse vir a ter. Runco pôs em dúvida a ética de Martens. Em entrevista, declarou “companheiro de profissão tem que ser ético”. Clique aqui para assistir. Reparem que em dado momento Runco contesta a necessidade da cirurgia. Mesma postura do Martens. Teria sido falta de ética também?

Isso tudo me pareceu um corporativismo de uma categoria. Uma espécie de pacto protecionista. Runco chama de ética. Não vou discutir filosofia aqui. Estou preguiçoso hoje. Mas exporei algumas comparações que o caso trouxe à essa mente conturbada.

Começo com uma situação que acontece com uma pessoa próxima. Ela se submeteu a uma cirurgia que, pelo quatro pós-operatório, despertou dúvidas quanto a intervenção. Essas dúvidas são ratificadas por outros profissionais, embora não formalizem ou mesmo se prestem a ajudar, intermediando junto ao seu colega para procurar uma solução. Até aqui, o fator “paciente” foi preterido pelo fator “colega de profissão”. O paciente, vítima de um possível erro, foi posto em segundo ou último plano, se é que foi considerado. Situações como essa, creio eu, se repetem com frequência. Eu mesmo já presenciei essa dita postura ética.

Me lembrei também dos sambas cantados por Bezerra da Silva, sambas que eu considero uma aula de sociologia, com ritmo e humor, mas acima de tudo extraída do mundo real. Uma das músicas se chama “Defunto caguete”. A figura do alcaguete, popularmente chamado de caguete, é sempre vista ou representada como alguém que não foi amigo suficiente de uma pessoa ou de um grupo, uma vez que não soube guardar segredo e/ou denunciou alguma atividade do grupo ou de um de seus membros. É o delator. É o conhecido dedo-duro.



Essa visão negativa relacionada com a ação de denunciar, talvez (repito... talvez) explique, em parte (para fortalecer o talvez), a razão de muitos criminosos ainda atuarem em certas áreas da sociedade (seja nos morros “dominados” pelo tráfico, seja nas repartições e órgão públicos “dominados” pelos eleitos e nomeados). Considerando que a maioria dos moradores daquelas comunidades e trabalhadores dessas repartições são pessoas honestas, de bem, que não aprovam atos criminosos, é extremamente baixo o número de denuncias, uma vez que crimes, como sabemos, continuam sendo praticados. Tanto daquelas informações que chegam através de serviços como Disque-denúncia, como daquelas que nós tomamos conhecimento através de reportagens e/ou ações policiais.

O denunciante ficou estigmatizado. Mesmo quando a denuncia se configure numa postura cívica, humana. Complicado, né?

Imaginem a seguinte cena. Um traficante foragido se reúne com seus parceiros, sua quadrilha. Entre um plano e outro para se manter escondido dos “cana”, o bandido manda a seguinte declaração para sua turma: “Pô, tô bolado! O caguete foi daqui o da otra favela. Aí, se'eu pegá quem mi dedurô, vô esculachá! Vô quebra! Pô, foi vacilação, foi anti-ético”.

sábado, agosto 07, 2010

Um toque para preservar

Continuo com minhas lembranças sobre a curta e incompleta viagem à Paris e Lisboa. Como o olhar crítico não ficou embaçado pela grandiosidade e beleza daquelas cidades, nem pelo incrível museu que é o Louvre, principal inspirador desta postagem, não pude deixar de notar algumas coisas. Uma dessas coisas está relacionada com minha formação em Arquivologia. Mas especificamente com uma, digamos, preocupação arquivística. Falo de preservação.

Alguns podem se perguntar o que a preservação em arquivística tem haver com o acervo museológico do Louvre. Mas preservação é algo bem mais amplo do que a mera conservação de um papiro, por exemplo. Pode estar relacionada com uma atuação política da instituição detentora do acervo, seja ele museológico, bibliográfico ou arquivístico. Pode também ter um aspecto social envolvido. E eu arriscaria dizer até que um aspecto psicológico pode estar presente. Algo como a necessidade do tocar. Ou, numa adaptação à desconfiança do apóstolo, aqueles que “só acreditam tocando”.

Não somos submetidos a sermões iniciais ou palestra de conscientização para entrarmos no Louvre. Afora a questão de segurança normal e esperada naquele país, se considerarmos suas relações internacionais e posturas políticas de seu atual governo, não há nada de muito rigoroso ou constrangedor. As bolsas passam por um detector de metais, outras, além disso, são vistoriadas, mas tudo muito rápido. Paga-se 9.5 € por pessoa e o Louvre abre as portas para seu grandioso acervo.

Mas os alertas, em forma de mensagens de texto ou figuras, estão por toda a parte. Bem, para aqueles que se preocupam com esses detalhes. Também existem muitos guardas circulando por todas as áreas, além das câmeras de segurança, para coibir os abusos dos turistas mais... como posso dizer?... sem noção. Não tocar, não usar flash ao fotografar, etc. Ah, além disso, as informações sobre o que o visitante não deve fazer constam do guia do museu. Um instrumento de grande utilidade e disponível gratuitamente em diversos idiomas. Logo, quem comete as infrações, ou não sabe ler nem interpretar desenhos, ou não tem consciência do certo ou errado.

Não se pode considerar excesso de zelo certos cuidados dos responsáveis e as orientações aos turistas. Algumas coisas, como as que eles indicam, podem ser evitadas facilmente, sem que nos privemos de visitar o acervo. Lembro que, mesmo que todos se comportassem como se espera, os acervos continuariam se deteriorando. Nada é eterno. A vibração proporcionada pelo deslocamento das pessoas, ou pela reverberação da voz, e mesmo as trocas térmicas entre os corpos e o ambiente, contribuem para esse processo.

Mas nota-se que muitas pessoas resolvem, mesmo que inconscientemente, acelerar tal processo. O flash é usado indiscriminadamente por muitos. Bastava um momento de distração ou ausência da vigilância. Como disse anteriormente, na referência à São Tomé, talvez pela indescritível beleza e complexidade das obras, somada a sua antiguidade, algumas pessoas parecem precisar senti-las para crer na sua existência. Por isso, quando não há o flagrante, podemos observar diversas esculturas e outras obras marcadas, não pelo tempo, mas pela soma de umidade e oleosidade e poeira deixadas por muitas mãos.

De Paris para Lisboa, me recordo de outro momento onde a relação usuário (ou turista) está bem relacionada com a preservação. Visitando a bem conhecida Feira da Ladra, fiquei impressionado com a venda indiscriminada de azulejos antigos. Uma marca da beleza arquitetônica e decorativa, típica de Portugal, sendo vendida pelos “feirantes”. Num primeiro momento, podemos considerar como algo aceitável, pois talvez a aquisição tivesse sido feita numa demolição de algum prédio antigo. Mas andando pelas ruas dos bairros antigos de Lisboa (e eu andei bastante) podemos notar que em muitas paredes, muitas fachadas, faltam azulejos. Neste caso, poderíamos pensar, “ah, mas azulejos se desprendem com o tempo”. Antes fosse só esse o caso!

Por isso, aqui vãos alguns toques. Não comprem azulejos antigos em feiras. Esse tipo de obra de arte só tem significado no seu conjunto, no seu contexto. Admire os prédios, fotografe as fachadas. E, ao visitar museus, consuma com os olhos. Não duvide da veracidade das obras ao ponto de precisar tocá-las. Acredite, o ser humano é capaz de construir coisas de extrema beleza. Mas, como você bem sabe, ele também é capaz de destruir com extrema frieza.

Registrei alguns desses momentos em que o olhar crítico de arquivística se manifestou no turista. Observo que, nas imagens do museu, o recurso de flash não foi utilizado. A pessoa que aparece tocando uma estátua, foi devidamente alertada por seu companheiro. Sua figura foi descaracterizada, pois a intenção é apenas exemplificar o caso, não constranger quem quer que seja. O bilhete de entrada e as informações do guia de visita foram digitalizados (guardei como lembranças!) e a foto da venda de dos azulejos na Feira da Ladra foram retiradas da internet.


quarta-feira, agosto 04, 2010

Metas Desumanas

Domingo passado eu saí de casa e fui ao Aterro do Flamengo com uma intenção: andar de bicicleta. Pensei nisso nos dias anteriores àquele fim de semana. Tinha esse objetivo, essa meta. Pedalar num dia de sol.

Como não tenho esse meio de transporte, aluguei uma. Dez reais por uma hora. Paguei antecipado. Altura do banco regulada. Guidão um pouco torno (mas isso eu percebi depois) e mãos à obra. Ou melhor, pés no pedal. Aterro cheio. Dia de corrida de... bicicleta. Segui a orientação de seguir pela ciclovia e evitar as ruas que, mesmo interditadas para lazer, estavam sendo usadas para o evento ciclístico. Estava fazendo um dia lindo. Pedalando, sem músicas no ouvido, mas com toda a bela paisagem harmonizando o passeio.

Pessoas andando, pessoas pedalando, pessoas sentadas, em pé, pessoas caminhando. Na praia de Botafogo, reparo um senhor, com seus quarenta, talvez cinquenta anos, olhando o relógio. Mas não era uma simples conferência das horas. Era, mais que isso, uma verificação do tempo, uma análise de desempenho. Ele, assim como outros tantos, havia estabelecido uma meta. Não era uma simples caminhada de lazer, descompromissada. Era uma meta a ser atingida no espaço e no tempo.

Comecei, nesse momento e entre pedaladas em rítmos variados de velocidade, a refletir sobre as metas. Fiquem pensando se não seria mais prazeroso para aquele senhor simplesmente caminhar, curtindo a paisagem, o Sol ameno, a brisa à beira da Baía de Guanabara. Se o corpo tem de fato uma ligação com a mente, uma caminhada livre, relaxada e sem a subordinação ao tempo, seria muito mais proveitosa para o
conjunto corpo e mente.

Ao mesmo tempo que refleti sobre isso, foi inevitável pensar no ambiente profissional. As metas do funcionário, do setor, da empresa. Metas determinadas, metas negociadas, metas, metas, metas.... Metas para terminar uma tarefa até tal dia. Meta para apresentar determinado número de trabalhos prontos. Meta para iniciar algo antes de alguma coisa. Meta para reuniões. Meta para treinamentos. Metas ambientais. Metas e mais metas. Nunca me senti tão robotizado. Tão menos humano.

Num ambiente mais humano, talvez metas inexistíssem. Procuraríamos fazer o correto para com o ser humano, seja ele nós mesmos, seja ele o colega ao lado. Se eu sei que a execução de determinada tarefa, sob minha responsabilidade, impacta diretamente a empresa, o setor, ou as atividades do colega ao lado, eu não deveria ter meta para executar tal tarefa. Deveria executá-la por respeito, por responsabilidade, por consideração.

A empresa evita poluir, ou estabelece "meta de poluição" (sic) não porque tem consciência dos efeitos da poluição no meio ambiente e na vida das pessoas, mas para se enquadrar em padrões internacionais que a valoram por não poluir.

Acabamos por executar nossas tarefas para atender à leis, normas, padrões. Desvinculamos nossas atividades do resultado humano, social, ambiental.

Ao invés de ter como objetivo o correto, o adequado, o respeitoso, o humano, enxergamos uma meta, que muitas vezes é transformadas em um número, analisada como um gráfico. Distamos do objetivo humano, social, e nos prendemos a objetivos mensuráveis.

Nos programamos ou somos programados de acordo com uma meta. Neste momento me vem em mente o filme baseado na obra de Isaac Azimov, "Eu, Robô". No filme, os robôs substituíam seres humanos na execução de determinadas tarefas. A diferença aqui é que não estamos nos substituindo. Estamos nos robotizando.

Terminei a pedalada. Entreguei a bicicleta. Olhei no relógio. Um minuto para completar uma hora. Bem a tempo. Meta atingida!?