sexta-feira, abril 22, 2016

O Centro do Rio

Muitas obras, algumas violências e tantas hipocrisias.

O Centro do Rio sempre me despertou admiração e encanto. Principalmente pelas construções antigas, carregadas de histórias. Os sobrados, os casarões, os palácios, as ruas…

Uma das coisas que a insegurança, ou a sensação de insegurança, nos tira é a oportunidade de contemplação. Mas nem sempre foi assim, tão proibitivo (e pouco recomendado) contemplar os sobrados, os casarões, os palácios, as ruas…

O Rio passa por uma transformação. Os Jogos Olímpicos parecem pedir uma mudança de paisagem. O Rio precisa de roupa nova para essa festa. E contamos que as vestimentas sejam de qualidade e duradouras. Embora, pelo acontecimento recente e triste na Ciclovia Tim Maia…

VLT, Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio, Aquário, Passeios públicos, Túneis… As obras são diversas.

Infelizmente não são apenas obras de melhoria que vemos se multiplicarem. Os assaltos também. O Rio de Janeiro, em particular o Centro do Rio, Cidade Olímpica, está cada vez mais violento. Os assaltos ocorrem diariamente, em vários pontos da cidade, independente do período do dia, independente da presença de aparato de “segurança”. E as aspas nunca foram tão adequadas para se falar em segurança no Rio de Janeiro. Nem a presença da mídia coibe a ação dos assaltantes. Assaltantes de todas as idades.


A insegurança é um monstro. E, como todo monstro, se alimente de algo para crescer e se multiplicar, para tomar espaço.

Será que todo celular roubado será utilizado pelo criminoso que praticou o assalto? E cordões, relógios? Duvido muito. Arrisco dizer que a maioria dos itens serão convertidos em dinheiro para, aí sim, ser usufruído de algum modo por aquele assaltante.

Mas, como se dá a transformação dos celulares, dos cordões, dos relógios, em dinheiro? Comércio! Alguém precisa adquirir a mercadoria. Compra e venda. Oferta e procura. Simples assim.

Mas o monstro tem uma dieta diversificada. Por isso cresce saudável.

Há alguns anos tenho percebido a tranquilidade que algumas pessoas consomem maconha nas ruas do Centro do Rio. Sim, fico chocado, impressionado, preocupado e indignado, ao passar por pessoas fumando maconha em plena Avenida Rio Branco, ou na Presidente Vargas, as duas principais vias do Centro, às três da tarde de um dia útil.

Recentemente alguns veículos de imprensa noticiam o combate ao tráfico no Morro da Conceição. Um morro no coração do Centro do Rio, de grande importância histórica, com construções seculares e grande potencial turístico, a exemplo de Santa Teresa.

A região no entorno do Morro da Conceição conta com alguns dos aparelhos culturais novos ou recentemente valorizados por conta da revitalização da região portuária. Dois museus, bares, bailes de rua.

As pessoas que trabalham no Centro, em especial nas proximidades da Praça Mauá, têm ali um ponto de fácil acesso para curtir.

Infelizmente o consumo de entorpecentes parece fazer parte desse “curtir” para muitas pessoas. E, mais uma vez, temos a velha questão de causa e consequência. Procura e oferta. Compra e venda. Consumo e fornecimento.

E quando o ponto é bom, o comerciante se esforçará para se manter ali. A logística é fácil, pois ele pode entregar a mercadoria ao consumidor em pouco tempo. E o consumidor existe e tem condições financeiras para consumir o seu produto. É simples. É muito simples.

Mas infelizmente temos outro tipo de alimento em abundância, muito apreciado pelo mesmo monstro: a hipocrisia.

Comprar mercadoria roubada é crime e alimenta o crime. A desculpa do desconhecimento é tão perniciosa quanto o próprio ato de comprar mercadoria roubada.


Quem cheira uma carreira de cocaína deve saber que é responsável por toda uma cadeia de acontecimentos até ali, e além dali, envolvendo sofrimento de muitos. O mesmo para os que consideram o ato de fumar maconha coisa inocente e aceitável. Que o ato de acender um baseado ilumine todos os acontecimentos até ali, e além dali, e que o tragar traga também responsabilização.

Autógrafo na era do e-book

Há uns 15 anos, num dos ótimos momentos da roda de samba que acontecia no Museu da Imagem e do Som (MIS), em sua sede da Praça XV, no Centro do Rio, ocorreu o lançamento do Livro A Velha Guarda da Portela de Carlos Monte (pai da maravilhosa Marisa Monte) e João Baptista M. Vargens.

Foi um momento mágico. Muitos artistas compareceram. Beth Carvalho, por exemplo, lá estava. E outros tantos. Comprei o livro, como não poderia deixar de fazê-lo. A leitura foi prazerosa. As muitas histórias de cada um dos integrantes da Velha Guarda, contadas com linguagem fácil e descontraída, foram ali registradas para que todos pudessem conhecer um pouco mais da vida daqueles senhores e senhoras do samba. A Velha Guarda da Portela estava vivendo, e proporcionando, uma ótima fase. Shows, evidência no espaço cultural.

Nunca gostei de abordar famosos para autógrafos. E no MIS não foi diferente. Somado ao fato de que estava bem cheio e a aproximação mais difícil. Mas tive outra oportunidade. A Velha Guarda (ou alguns de seus integrantes) comandava uma pequena casa de show, muito bem localizada num sobrado da Rua Primeiro de Março, também no Centro do Rio. E, pouco tempo depois, entre um samba e uma cerveja, lá estava eu no camarim, com aquelas lendas vivas colhendo autógrafos. Mais um momento mágico.

Pausa de alguns anos. Alguns sambas depois. Muitos livros depois. Muitas cervejas depois…

O lugar é outro. Renascença Clube. Com toda sua força e história. O livro também era outro. Poétnica. Livro com poesias do autor produzidas no período de 1966 a 2013. O autor? Nei Lopes. Com toda sua força e história. Com toda sua consistência artística e intelectual. Além de autógrafo com dedicatória, tive o privilégio de uma foto. Momento mais do que mágico. Seguido por uma roda de samba. E algumas cervejas.

Outros livros foram autografados ao longo desses anos. Caneta no papel. Dure o tempo que durar.

Ao longo desses anos surgiu na minha vida de leitor o e-book. Tenho um Kindle. Facilidade de aquisição. Preço. Variedade. Internet, sincronização e lá está o ícone do livro novo. Livro? 

E meus autógrafos? Será com assinatura digital?
E minha dedicatória? Será um e-mail para ser anexado?
E o olhar do autor? E o deslumbramento de estar diante de quem produziu aquela história, aquelas palavras? 
E a fila para colher a assinatura?
A caneta no papel?

Os argumentos contra e a favor do livro digital, do e-book, são tão frios quanto um click e tão vazios quanto as prateleiras de uma biblioteca sem papel.

Sobre o silêncio

O que dizer quando o que se tem a dizer nada acrescenta?
A relevância da palavra só existe quando o conteúdo da mesma for, em si, relevante.
O que não digo tem mais consistência do que poderia sequer pronunciar.
Embora, se comparado ao que penso, 
e não sou competente para transpor no limiar da língua,
meu silêncio só consiste em ausência de som.
Por isso, o meu silêncio, peço que o relevem.

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