sexta-feira, dezembro 24, 2010

Deus, agnosticismos, ateísmos e outras coisas

Recentemente um jovem amigo anunciou uma descoberta pessoal. Disse ele: "sou ateu!". Disse que pensava nessas questões de crer e não crer há algum tempo, que já tinha uma visão crítica, mas agora tinha certeza. Interessante observar o fato de sua família ser predominantemente católica e tal postura, descoberta ou certeza veio após assistir ao documentário Religulous.

Algumas semanas antes desse "anúncio", li um bilhete - muito bonito e bem escrito... à mão - de minha irmã. Ali ela expressava sua felicidade por encontrar conforto em sua fé e como isso estava sendo importante para ela. Não entrarei em detalhes, mas confesso minha emoção não apenas por ver que minha irmãzinha esta se expressando tão bem na forma escrita e demonstrando maturidade, embora com certo ar adolescente, num assunto tão delicado. É claro que não perdi a oportunidade de escrever, também à mão, um elogio e um pedido para que sempre lidasse e vivesse as questões de fé com muito respeito.

Uma coisa que devem saber sobre mim é que não sigo nenhuma religião, procuro respeitar todas as formas e manifestações de religiosidade, porém, não deixo de criticar algumas práticas e instituições (e seus líderes) quando "pecam" em questões básicas sobre ética e moral, colocando interesses cretinos acima de um bem maior para a humanidade. E, embora não seja religioso, em minhas três décadas de vida tive a oportunidade de tomar contato com diversas práticas.

Mas vou me ater ao tal anúncio. Ah, por favor, não esperem que eu pregue a velha ladainha de que "todos temos de ter uma religião". Respeitando o próximo, sendo ético nas ações, cada um que siga o caminho que melhor lhe aprouver.

A verdade é que não pude deixar de pensar nas mudanças que vivenciei até aqui. Mudanças no modo de encarar a vida, o mundo. Os questionamentos que nos fazemos a todo o momento. As certezas de outrora que se tornam duvidosas. Duvidas que ficaram no passado. Adaptações pelas quais passamos, de forma inconsciente, para continuar vivendo e convivendo. O tradicional de então tido como normal e hoje visto como antiquado, o moderno de hoje que se tornou normal, embora tenha sido considerado muitas vezes como tabu.

A humanização da crença em Deus é um desses casos. O "deus" que fui criado para acreditar era um senhor branco, barbudo, sentado nas nuvens e que volta e meia lançava castigos por um ou outro pecado cometido por nós, seres humanos inferiores. Isso, por si só, já poderia ser considerado um fator para crítica em um modo de acreditar em Deus um tanto forçado. Mas é um exemplo extremo.

O fato é que as religiões não parecem ter se desenvolvido ao longo dos séculos para suportar críticas. As religiões são como instituições totalmente dissociadas da condição humana.

Sei que o mito é parte integrante de todas as crenças. Creio que todas têm lá seu misticismo, suas histórias fantásticas, suas filosofias, que atuam como ferramenta de compreensão da fé professada por essa ou aquela religião e não para serem considerados ao pé da letra. Mas também pode ter efeito contrário, justamente quando tais mitos são considerados como fatos e, assim, são alvos de análise crítica.

Por isso, declarações do tipo "eu não acredito em Deus" ou "Deus não existe" deveriam ser abordadas de outra forma. Na ocasião do tal anúncio, eu, um sem-religião, não pude deixar de argumentar com aquele jovem amigo que o que estava em jogo ali não era Deus e sim a concepção Dele.

Ateísmo ou agnosticismo?

Consultando as definições de ambas as doutrinas, percebo que talvez muitos dos que se declaram ateus, nada mais são do que agnósticos.

Ateísmo: doutrina ou atitude de espírito que nega categoricamente a existência de Deus, asseverando a inconsistência de qualquer saber ou sentimento direta ou indiretamente religioso, seja aquele calcado na fé ou revelação, seja o que se propõe alcançar a divindade em uma perspectiva racional ou argumentativa

Agnosticismo: doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica

Com isso, vejo que a questão central não está em crer ou não na existência de Deus. A questão é a concepção de Deus. A forma como cada um concebe deus fica um tanto engessada por uma cultura imposta seja por instituições criadas por pessoas (e não por uma inspiração divina; e muitas com viés político) seja por cultura imposta ou perpetuada no âmbito familiar, social, etc. É tudo muito reto, imutável, tudo muito estabelecido.

Lembrando que não estou aqui discutindo criacionismo versus evolucionismo. Falo de religião. E, falando em religião, posso tranquilamente declarar que não acredito na concepção de deus instigada em mim desde a infância. Da mesma forma, e com igual tranquilidade, posso declarar hoje que percebo ou concebo Deus em coisas simples, como uma paisagem bonita, uma brisa num dia quente, um momento feliz em família ou entre amigos, num sorriso sincero, num ato de bondade desinteressado...

Ele... Buda, Olodumare, Alá, Jeová, Brama, as Coisas Boas, Alegria, Paz, Saúde, Serenidade, Uma Força Maior, a Natureza, o Acaso, o Caos... está no meio de nós. Que assim seja, verdadeiramente, Amém!

terça-feira, dezembro 21, 2010

Aid creates dependency
Ajuda cria dependência

Though I have not read her famous book DEAD AID, the studies of Dambisa Moyo help me to figure out how poverty could be create/mantained from the simple act of help. When this act comes full of bad interests or is bad executed. The following video was an indication from Ms Moyo from Twitter, when she brought the international organization Poverty Cure to our knowledge.

Embora eu não tenha lido seu famoso livro DEAD AID, os estudos de Dambisa Moyo me ajudaram a descobrir como a pobreza pode ser criada/mantida a partir do simples ato de ajudar. Quando este ato vem cheio de segundas intenções ou é mau executado. O vídeo a seguir foi uma indicação da Sra. Moyo no Twitter, quando ela nos fez conhecer uma organização internacional chamada Poverty Cure.




The kind of aid the video talks about is that global system of aid that basically works on transfering money from rich to poor countries. The kind of aid wich dont creates wealth, but keep the dependency, the domination and the power of interference of rich countries above the poor ones. It is importante to note that the very part of those financial resources hardly reach the people who really need.

O tipo de ajuda sobre a qual o vídeo fala é o conhecido sistema global de ajuda que trabalha basicamente na transferência de dinheiro de países ricos para países pobres. Um tipo de auxílio que não cria riqueza, mas mantêm a dependência, a dominação e o poder de ingerência dos países ricos sobre os pobres. É importante observar que a maior parte desses recursos financeiros dificilmente alcança as pessoas que realmente precisam.


"The reason there will be no change is because the people who stand to lose from change have all the power and the people who stand to gain from change have none of the power"

"A razão pela qual não há nenhuma mudança é porque as pessoas que têm a perder com tal mudança têm todo o poder e as pessoas que têm a ganhar com a mudança não têm poder algum"

Nicolau Maquiavel
Niccolò Machiavelli

domingo, dezembro 05, 2010

Lembranças permanente
Poemas perdidos e Memórias apagadas

Bem antes de me aventurar nesse incrível mundo que é a blogosfera, eu já experimentava a enriquecedora forma de expressão que é a escrita.

Um pequeno histórico... A primeira lembrança que tenho de um contato - e vislumbramento - com um texto, e sua estrutura, e seu ritmo, e sua rima e seu significado é de um poema. Aula de português, Escola Municipal Rotary (em Mesquita), Professora Denise (que também ministrou inglês)... lá nos idos de 1989 ou 90, talvez antes. Era o Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes. Esse texto foi uma, digamos, exceção que minha lamentável memória e minha quase incapacidade de concentração me concederam, pois não o esqueci desde então.

Talvez o que tenha facilitado este registro em meus parcos neurônios, além da beleza do poema, tenha sido exatamente sua estrutura, sua forma, isto é, a disposição dos 14 versos de um soneto. Achei algo simples, acessível. E, por isso, mais tarde pude aplicar aquela lógica estrutural (dos versos) em meus próprios poemas. Abaixo eu transcrevo um deles, graças a uma cópia impressa de uma página web onde foi publicado.


nesses dias em que a realidade parece um sonho
... mas não há sonho

nesses dias em que a relidade
parece um sonho que sempre sonhamos em sonhar
esse sonho se mostra mas que a verdade
que nunca sonhamos em pensar

e quando o sonho que um dia ousamos viver,
mas que nunca havíamos sonhado, acontecer
que possamos vivê-lo sem pensar
que esse sonho um dia vai acabar

por isso abraçamos, beijamos e nos damos
um ao outro de forma intensa e despreocupada
para que essa realidade mereçamos

pois além desse sonho não há nada
que possa fazer que um dia padeçamos
nesse sonho dessa noite enluarada

Não discutamos aqui a qualidade da obra que a alguns pode agradar, a outros não. O fato é que foi escrita e publicada em 2001 e, naquele momento, confesso que senti muito orgulho, me senti muito bem. Alguns anos mais tarde, eis que começo minha aventura blogueira. Embora com pouco lirismo e muita crítica, mas me expressando mais constantemente (apesar dos constantes hiátos) na forma escrita.

A razão desta postagem não é divulgar um poema de minha autoria. Com certeza serve a esse tipo de exposição, como também uma parte autobiográfica, mas não é a intenção principal.

Como disse, esse soneto foi publicado em 2001. Nessa época, a edição online do Jornal O Dia contava com uma área de literatura que permitia, dentre outras coisas, que anônimos como eu publicassem seus trabalhos por mais amadores que fossem. Era o Contextos, um portal literário agregado ao O Dia Online.

Creio ter publicado de três a quatro poemas, talvez todos sonetos. Minha esposa imprimiu e quandou até hoje um deles, devidamente recuperado na arrumação de hoje (talvez encontre outros). Veja a página impressa aqui.

Eram muitos os trabalhos publicados no Contextos. Pessoas desconhecidas expondo suas veias literárias num meio (a Internet) que ainda cresceria bastante. Isso foi bem antes dos blogs tomarem esse vulto que têm hoje.

Não me recordo quando aconteceu, não fui comunicado (o e-mail cadastrado eu acesso até hoje), mas o Contextos não está mais acessível. Assim como todas as obras que lá foram publicadas e ficaram armazenadas dos servidores daquele portal. Por certo havia alguma cláusula que eximia O Dia Online da obrigatoriedade de guarda permanente daquele conteúdo, embora eu não possa afirmar.

Porém, existe um fato relevante que pode ser utilizado como exemplo prático para corroborar a preocupação com a preservação de conteúdo armazenado em meio digital: Um portal com o objetivo de incentivar e promover a produção e divulgação de conteúdo literário interrompe suas atividades e, com isso, todo aquele conteúdo é perdido. Para sempre? Não sei. Já encaminhei mensagem ao jornal O Dia pedindo informações sobre o Contextos, mas até o momento não houve retorno.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Há 100 anos

Um fato na história dos direitos humanos que realça a importância de nos indignarmos, de não aceitarmos sermos tratados de maneira indigna. Realça também o quanto o Estado foi (hoje o meios são outros) cruel com quem assumisse postura crítica contra ações e políticas que desrespeitassem direitos fundamentais, básicos. Uma história que nos mostra que, embora legalmente abolida pouco mais de duas décadas antes, a política escravagista estava bem viva (como até nossos dias), seja num aparato legal que respaldava punições análogas às que eram aplicadas aos escravizados, seja na mentalidade dos entes públicos (militares e civis) que viam o homem negro, os trabalhadores da base da pirâmide daquela hierarquizada sociedade, como inferiores. E, como inferiores, era inaceitável o fato de irem contra ao que lhes era imposto.

Mas eis que um semialfabetizado, negro, de 30 anos, não aceitou, não acatou. João Cândido Felisberto em 22 de Novembro de 1910 iniciou a luta não apenas por seus direitos, mas pelos direitos de todos os seres humanos que não era tratados como tais. Há 100 anos teve início a Revolta da Chibata. Valeu João!

quarta-feira, novembro 03, 2010

Cumprindo a Lei em letras miúdas

Em abril deste ano eu escrevi uma postagem como forma de divulgação da Lei n° 12007 de 2009. Como informado, esta é lei que "dispõe sobre a emissão de declaração de quitação anual de débitos pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviços públicos ou privados". Leiam aqui.

Ontem resolvi entrar em contato com a operadora de telefonia fixa Oi solicitando a declaração quitação citada na lei. Hoje (a rapidez me impressionou), recebi o retorno informando que tal declaração foi apresentada na conta de Maio/2010. Informei que não havia recebido a declaração ou, pelo menos, não havia notado. A operadora então me encaminhou a conta por e-mail indicando o local da declaração. Consultando a conta indicada, realmente identifiquei a declaração de quitação, num texto curto e objetivo, em letras miúdas na primeira página. Reproduzo a conta em miniatura, indicando em vermelho o local da declaração.

Ah, o texto: "Esta declaração substitui a quitação mensal da sua fatura da Oi de jan. a dez. 2009 e anos anteriores, exceto serviços prestados por outras empresas.". Bem, uma lei foi cumprida e uma quantidade considerável de papel será descartada.

sábado, outubro 30, 2010

O exemplo do palhaço

Ele teve um número recorde de votos, independente das razões e motivações de seus mais 1 milhão eleitores. Ainda não foi empossado e a polêmica continua com indícios de que não seja alfabetizado. Esse é mais um capítulo dessa novela que é a vida pública e política no país. Não posso deixar de dar os meus pitacos. Longe de mim tentar resolver. A intenção é usar a notícia. E farei isso de 5 modos.

1° - A culpa não é do analfabeto. Ao contrário do Luiz da Silva, não vou exaltar a falta de estudos. Isso não é algo para se ter orgulho. Mas uma coisa não podemos negar: a roubalheira, a falta de ética e moral, o desrespeito com o bem público, os crimes que acontecem na vida política brasileira não são cometidos por analfabetos! Muito pelo contrário. As Vossas Excelências, que tanto nos envergonham, que tanto nos roubam, que exaltadamente bradam suas virtudes e suas imaculadas inocências na tribuna, são em sua maioria doutos e distintos cavalheiros e damas, com seus diplomas, muitas vezes obtidos em cursos conceituados em universidades respeitadas.

2° - Relacionado ao primeiro.... Façamos um exercício mental. Vamos imaginar que no lugar do palhaço tivéssemos um latifundiário ou um empresário conhecido. E, ao invés do analfabetismo, o que estaria em jogo, o que teria de ser provado, seria sua honestidade e capacidade ética e moral para exercer o cargo. Será que haveria tanto furou das autoridades? A resposta é simples: não. Isso é ficção. O desonesto, o canalha, o bandido, pode ser latifundiário, empresário ou até mesmo palhaço. Basta saber ler.

3° - Será que uma exigência dessas faz sentido quando se permite... bem, os anúncios abaixo falam por si. Vale ressaltar que sempre destacam “reconhecido pelo MEC”

4° - Esse processo para provar se é ou não alfabetizado é uma verdadeira palhaçada! Deem um jornal nas mãos dele e peça que leia em voz alta (analfabeto ou não?) e comente uma notícia qualquer (funcional ou não?). Ah, mas isso não seria... justo (?). Além de não dar a devida audiência.

5° Agora puxando a bola para o lado informacional da coisa. Existem reportagens investigativas sobre a vida escolar do humorista (um exemplo aqui). Pelo visto não encontraram documentação comprobatória de sua vida escolar. Até aí tudo bem, não seria, se fosso o caso, a primeira pessoa a se alfabetizar longe da sala de aula. Mas o estranho, e até criminoso, é essa ausência de documentação. O histórico escolar, se não me engano, é documento de guarda permanente. Mesmo uma escola fechando, esse documento deve ficar sob tutela do Estado. Num quadro ideal de gestão da informação, respeitando a legislação vigente, uma informação objetiva deveria ser fornecida pela Secretaria de Educação do estado de origem. São inaceitáveis declarações do tipo “não encontramos o documento”. Deveriam simplesmente informar SIM, existe documentação e está em tal lugar, ou NÃO, não existe registro.
Eleições 2010

Está quase no fim. No domingo à noite já teremos escolhido os traseiros que ocuparão a cadeira da presidência durante os próximos quatro anos. O plural é proposital, pois sabemos que é sempre um grupo que vai ao poder.

Evitei (e evito) entrar nas discussões que ocorrem nos lugares e momentos mais inadequados sobre quem seria melhor ou pior para o Brasil. Seja no trabalho, algumas vezes de forma desrespeitosa; seja durante um jantar na casa de amigos; nos infindáveis e-mails que desafiam os recursos anti-spam e filtro (nunca os usei tanto); seja nas redes sociais com uma quase imposição a leituras das mais diversas que “comprovariam”, com a mesma paixão, as falcatruas de um ou de outro candidato; até mesmo em festa de criança...

De qualquer forma, por mais que me incomode a maneira e principalmente os lugares e momentos nos quais esse tipo de discussão é levantado, é ótimo saber que podemos discutir, que podemos nos posicionar. Essa tal liberdade também ajuda a descobrirmos até que ponto nossa liberdade incomoda. É curioso. Ás vezes penso que meu silêncio incomoda tanto, ou mais, que o barulho de outros. Liberdade de expressão, de escolha, de posicionamento político, filosófico, religioso, intelectual... liberdade! Mas creio que existe momentos e lugares para exercermos esse direito básico, sob o risco de desrespeitar o direito do próximo.

Recentemente uma amiga que trabalha num sindicato me ligou e num determinado momento o rumo da conversa foi (ela direcionou) para a questão eleitoral. O simples fato de não ter me posicionado a favor de um dos lados (nem do outro) bastou para que ela se espantasse. Foi muito engraçado. Ela praticamente me ameaçou com “um monte” de e-mails, com certeza com o mesmo conteúdo daqueles que citei no início e que venho ora bloqueando, ora filtrando e sempre deletando.

Creio que seja comum, numa relação de amizade, esperarmos pensamentos similares. Mas aprendi que a visão de mundo (o posicionamento político, filosófico, etc.), mesmo de um amigo, por mais íntimo que seja, é sempre carregado de subjetividade, de influências ao longo da vida, de experiências. E, bem, minhas influências e experiências foram diferentes das de minha amiga. E com certeza nossa amizade não é posta à prova a cada quatro anos.

O fato é que na próxima semana os assuntos mudam... um pouco. As discussões seguirão outro rumo. Provavelmente o futuro. Os próximos quatro anos. Mas quatro anos de construção. Será uma sequência, independente de qual grupo assuma, pois o que somos hoje começou ontem, assim como o que fomos ontem começou bem antes.

domingo, outubro 10, 2010

Uma lei, uma luta, uma fruta

Que fique claro: não sou nenhum puritano! Posto isso, permitam-me destilar talvez um preconceito, talvez um incomodo, talvez uma inquietação ou mesmo curiosidade.

Hoje, ao ler uma nota curta num jornal sobre uma certa mulher, nascida a pouco mais de 20 anos, me veio a mente outra mulher, cuja luta começou anos antes do nascimento da primeira. A luta a que me refiro teve e tem sua importância não apenas para ambas, mas para todas as mulheres. E, por que não dizer para todos nós, independente de gênero?

A primeira mulher, conhecida por seus dotes físicos (é realmente impressionante!) e..., bem, creio que só. Penso que foi uma das precursoras na adotação de pseudônimos frutíferos (com trocadilhos, por favor). Atualmente está em evidência num reality show que, pelo menos para mim, não tem relevância alguma. Isto é, nada que acrescente ou possa acrescentar algo na minha vida (só na minha?). Não posso dizer que seja a única razão para que eu não assista o tal programa. Mas não vem ao caso comparar com outras porcarias que já assisti. É claro, sempre é possível fazer alguma reflexão psicológica, sociológica, antropológica ou seja lá o que for.

A segunda mulher, como adiantado no início, é conhecida por sua luta. Abaixo um resumo, retirado do site do Projeto AME.

Em 1983, Maria da Penha recebeu um tiro de seu marido, Marco Antônio Heredia Viveiros, professor universitário, enquanto dormia. Como sequela, perdeu os movimentos das pernas e se viu presa em uma cadeira de rodas. Seu marido tentou acobertar o crime, afirmando que o disparo havia sido cometido por um ladrão.

Após um longo período no hospital, a farmacêutica retornou para casa, onde mais sofrimento lhe aguardava. Seu marido a manteve presa dentro de casa, iniciando-se uma série de agressões. Por fim, uma nova tentativa de assassinato, desta vez por eletrocução que a levou a buscar ajuda da família. Com uma autorização judicial, conseguiu deixar a casa em companhia das três filhas. Maria da Penha ficou paraplégica.

Tendo o que pode ser considerado preconceito [meu] sido exposto parágrafos acima, agora vamos ao que me incomoda, ao que me inquieta, vamos a minha curiosidade. O que pensaria a segunda mulher, a mulher da luta, ao ouvir a primeira mulher declarar “Eu gosto de homem que bate, sabe?”?

Preferência sexuais à parte, não pude deixar de pensar no que significa para as tantas mulheres que sofreram ou sofrem violência doméstica ouvir em cadeia nacional algo desse tipo. Bem, conhecendo a personagem, surpreenderia se usasse a oportunidade para alguma declaração conscientizadora e relevante sobre essa temática. Mas eu entendo. Isso não traria frutos (com trocadilho), não daria audiência.


segunda-feira, outubro 04, 2010

Quebrando o silêncio

Admiro muito os escritores, jornalistas, cronistas e blogueiros. Gostaria de escrever mais, com mais constância, com mais regularidade. E também gostaria de produzir textos melhores, mais bem escritos, aprimorando a cadência com que as palavras são lançadas do início ao fim, sem deixar que as ideias expostas percam a coerência.

Além da admiração, tenho profundo respeito pela arte da escrita. É uma arte, talvez como todas as outras, terapêutica. Sim, muitas angústias são extirpadas junto com a derradeira palavra no texto. Em outras postagens cheguei a comentar o que representa, para mim, o ato escrever, e mais especificamente o que escrevo neste blog.

Por isso, esses mais de trinta dias sem que uma única nova linha fosse acrescentada ao TUIST me deixam com certa frustração. Uma sensação de fracasso, para ser extremo. Sei que não há nenhum compromisso formalizado, ou promessa de escrever tantas postagens ou tantas linhas de texto por semana, por mês. Mas não adianta.

Certa vez, durante uma das muitas conversas em mesas de bar, uma amiga contou a um jornalista amigo que eu estava me aventurando na blogosfera. Embora não tenha usado as mesmas palavras, ele me fez uma única pergunta: “Qual a periodicidade com que você publica os textos no seu blog?”. Creio que na época eu tenha respondido “uns 2 por semana”. Não me recordo. Mas qualquer que tenha sido a ordem de grandeza apresentada, eu menti. Bem, não foi realmente uma mentira, pois acreditava que poderia produzir textos com a periodicidade que bem entendesse. Pura arrogância de um novato.

Mas eu estava numa fase em que a natureza de meu trabalho me permitia momentos para isso. Ócio, reflexão, abstração, solidão, concentração. Eu lia mais, pesquisava mais, andava pela cidade observando e formando o que se tornaria uma análise crítica de assuntos tão diversos quanto os que vocês podem ver (ler) desde a primeira postagem, em Dezembro de 2006.

Talvez essa minha limitação, essa minha incapacidade, tenha servido para aumentar meu respeito e admiração por aqueles que melhor escrevem, que mais produzem a arte textual.

Recentemente houve proposta, muito honrosa, especial e que me deixou lisonjeado, de usar essa minha admiração e respeito para atuar profissionalmente, de forma remunerada inclusive. Como ainda não se concretizou, não entrarei em detalhes. Mas são coisas que a arte oferece.

A limitação sobre a qual me referi acima se agrava por uma dificuldade que tenho em memorizar e abstrair. Isso mesmo! Minha memória é algo lamentável. O que se torna mais preocupante com o passar dos anos :)

Por sua vez, minha abstração não se limita a algo intelectual ou filosófico. Abstrair, no meu caso, requer que uma séria de características físicas, ambientas e emocionais estejam em profunda congruência. É quase uma utopia!

Por isso, me protejo sob o manto do amadorismo. Sou um blogueiro-escritor amador.

Essa, digamos, reflexão sobre a escrita se tornou uma constante em minha vida. Porém, recentemente me sinto mais instigado a pensar sobre isso, pois estou cada vez mais admirado com a capacidade e até brilhantismo com que alguns escrevem. Para ser mais específico, cito um livro denso em seu volume (são quase mil páginas) escrito por Ana Maria Gonçalvez. Trata do romance “Um defeito de cor”.

A personagem principal, narradora (e escritora, pois é a história de uma história) chama-se Kahinde. E, quanto mais me aproximo das últimas páginas (neste momento estou na página 917) mais sinto um misto de medo e saudades por chegar ao fim deste romance e não mais acompanhar a vida desta personagem. Este sentimento, confuso e estranho, eu confesso, me faz perceber o quão envolvente uma obra escrita pode ser. E a construção desta obra é algo que me impressiona. Quase mil páginas de coerência em uma história que nada tem de tediosa, que envolve, que instiga, que ensina, que desperta sentimentos extremos como o amor e o ódio, que emociona, que choca, que diverte...

Em parte do enredo, essa história épica lembra um pouco outro livro que me emocionou. “Negras Raízes” de Alex Haley. Lembro que sua leitura me fazia esquecer do demorado e desconfortável trajeto de casa ao trabalho e vice-versa. Foram muitos os livros que me ajudaram nesse momento da minha vida. E mesmo em casa, criando meu próprio mundo entre quatro paredes, me isolando de situações um tanto... destrutivas... Bem, mas o fato é que, numa das passagens desse incrível livro, foi impossível segurar as lágrimas, mesmo estando naquele ônibus lotado. Até hoje não sei se alguém percebeu. Tanto faz. A passagem a que me refiro foi quando o autor descreve a situação dos escravizados no navio negreiro, que sequestrou o personagem principal, Kunta Kinte, levando-o para o novo continente.

Essa narrativa que emociona, esse poder de construir textos que despertam tanta emoção, essa é a arte que mais admiro. E não falo apenas de romances. Textos jornalísticos, críticas, científicos, dentre outros, quando bem escritos, sempre despertam pelo menos minha admiração.

Bem, esta foi a maneira que encontrei para quebrar o silêncio. Espero que a inspiração esteja sempre presente, ou pelo menos seja mais constante, assim como a disposição para lançar mais palavras no TUIST.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Sarney, PLS 166 e a fumaça que encobre a história

Sempre me pergunto a razão de José Sarney ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Figura conhecida mais por sua atuação no cenário político do que no mundo literário, este maranhense não desperta muitos sentimentos bons nas pessoas que conheço. As palavras corrupção e coronelismo o acompanham. Uma pergunta que já virou piada é "você já leu algum livro do Sarney?". Não vou e nem posso julgar sua qualidade literária, até porque a desconheço, nunca li seus livros. Já me basta sua influência política.

Mas um texto de sua autoria está sendo motivo de discussões e vale conhecer, mesmo em parte. Até porque não se pode combater ou criticar estando completamente ignorante. Este texto, um Projeto de Lei do Senado, é como um livro, com suas mais de 250 páginas, e capítulos e parágrafos.

Li muitos livros que me decepcionaram no fim. Algumas vezes por um parágrafo, outras pela sensação de que algo deixou de ser escrito. Este "livro" é mais um da autoria do senador-escritor que não li, pelo menos não por completo (fui direto ao ponto). Porém, por se tratar de um projeto de lei, creio que a leitura parcial, direcionada ao item de interesse, não é empecilho para o entendimento da gravidade.

Um único artigo, uma pequena parte, e bastou para que o "livro" mostre que propõe um crime histórico. Desrespeita o patrimônio documental do Brasil. Facilita o esmaecimento da memória, tornando-a inacessível sobre a fumaça da incineração de documentos públicos.

Tomei conhecimento do fato através de um texto (enviado por uma amiga e colega arquivista) do jornalista Elio Gaspari publicado em 21 de julho de 2010 no jornal O Globo. Acho que não fui o único. Resolvi pesquisar na fonte (o Senado) e, ao mesmo tempo que me estarrece comprovar mais uma tentativa de queimar a história e despedaçar a memória, fiquei contente por conhecer a iniciativa de combate a tais tentativas. No contexto da PLS n° 166, com suas mais de duas centenas de páginas, temos a emenda proposta pela ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História) que, com 5 páginas, nos dá uma aula de importância da preservação da memória e de como podemos nos organizar para fiscalizar os delírios desses nossos empregados, desses nossos servidores.

Imortal deve ser a memória, a história, a democracia.

Links relacionados:

domingo, agosto 29, 2010

Da clarineta ao carimbó

Paulo Moura foi (e continuará sendo) um dos maiores instrumentistas do Brasil e do mundo.



Caso não consiga visualizar, clique aqui.

sábado, agosto 28, 2010

Minhas desculpas ao Leandro

Recentemente recebi de um amigo uma indicação de vídeo. Não posso dizer que fiquei espantado com o conteúdo. Creio que o primeiro sentimento foi de indignação. Depois, ou ao mesmo tempo, senti certa vergonha, misturada com perplexidade ao pensar a situação mais amplamente. Em cena está o até então desconhecido Leandro com dos homens públicos bem conhecidos, o Presidente do Brasil, Luiz da Silva e o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

Vamos aos homens públicos. Esses senhores são muito bem vistos pela maioria da população, segundo as pesquisas. O primeiro, inclusive, vive quebrando os próprios recordes de popularidade como "nunca antes nesse país...". Ambos também tentam ser reeleitos. O segundo é de fato. O primeiro, "por tabela", uma vez que a candidata de seu partido e sua candidata está bem cotada nas pesquisas principalmente por ser instrumento de continuidade. Fora isso, não tenho muito a acrescentar. Ambos são o que são. Fazem parte do que fazem. E, ainda segundo as pesquisas, talvez consigam o que pretendem.

Quanto ao Leandro. Bem, pelo que li tinha 17 anos na época em que registrou a cena. E cobra até hoje uma promessa feita por um daqueles homens públicos. No curto vídeo, eu visualizo Leandro como sendo a personificação de uma população que olhar crítico e atenta a suas próprias demandas (um sonho) e os dois senhores personificam o Estado atual das coisas.

Mas antes do vídeo eu gostaria de explicar o título desta postagem. Peço, sim, desculpas ao Leandro, pois sou uma das pessoas (um entre milhões) que pagam aqueles homens públicos. Eu não os contratei, não assinei a contratação deles. Nessa empresa chamada Brasil existe democracia e o voto da maioria venceu. Mas meu trabalho ajuda a mantê-los onde estão. Peço desculpas, pois os meus (e seus) funcionários não poderiam ter lhe tratado daquela forma. A atribuição de seus cargos não deixa margem para ofensas a quem eles devem servir. Isso mesmo, SERVIR. São servidores públicos! Juro que tentei despedir o primeiro uma vez, há quatro anos, e não consegui. Farei minha parte para que o segundo não continue no cargo por mais quatro anos. Isso eu lhe prometo. É o mínimo que eu posso fazer. Ah, Leandro, você também pode ajudar. Você faz parte dessa empresa e tem o poder do VOTO.

terça-feira, agosto 24, 2010

Biblioteca do Congresso Americano (última parte)

Nesta biblioteca, pesquisadores e restauradores trabalham incessantemente para salvar uma gigantesca coleção de um de seus maiores inimigos: a ação do tempo.



terça-feira, agosto 17, 2010

Biblioteca do Congresso Americano (primeira parte)

A Biblioteca do Congresso dos EUA é a maior do mundo e tem mais de 140 milhões de itens divididos entre 463 idiomas de todas as partes do mundo. Existe um departamento inteiramente dedicado ao Brasil. Nele pode-se encontrar de tudo, desde os desenhos originais da nossa capital, Brasília, até os sucessos de Zeca Pagodinho. A instituição bicentenária reúne segredos e raridades, como o documento, de quase 500 anos, que revela uma briga judicial entre uma tribo indígena e a corte espanhola.


domingo, agosto 08, 2010

Da falta de ética ao dedo-duro

Ontem, um telejornal esportivo estava transmitindo uma reportagem sobre a mais nova polêmica do futebol: a cirurgia do Kaká. A polêmica se dá pelo fato de o jogador declarar já estar sentindo dores no joelho desde a copa. Além das declarações do belga Marc Martens, médico que conduziu a cirurgia, alertando que Kaká arriscou comprometer toda sua carreira futura por ter jogado a última copa, ao invés de se afastar para tratamento. É mais ou menos isso. Não sou muito fã de futebol e o foco desta postagem não é esporte.

Bem, nesse confusão toda, surge José Luiz Runco, médico da seleção brasileira, teoricamente responsável (sic) por liberar ou não um atleta para jogar. Seria, considerando a declaração do cirurgião, responsável (sic) por qualquer problema mais grave que o jogador pudesse vir a ter. Runco pôs em dúvida a ética de Martens. Em entrevista, declarou “companheiro de profissão tem que ser ético”. Clique aqui para assistir. Reparem que em dado momento Runco contesta a necessidade da cirurgia. Mesma postura do Martens. Teria sido falta de ética também?

Isso tudo me pareceu um corporativismo de uma categoria. Uma espécie de pacto protecionista. Runco chama de ética. Não vou discutir filosofia aqui. Estou preguiçoso hoje. Mas exporei algumas comparações que o caso trouxe à essa mente conturbada.

Começo com uma situação que acontece com uma pessoa próxima. Ela se submeteu a uma cirurgia que, pelo quatro pós-operatório, despertou dúvidas quanto a intervenção. Essas dúvidas são ratificadas por outros profissionais, embora não formalizem ou mesmo se prestem a ajudar, intermediando junto ao seu colega para procurar uma solução. Até aqui, o fator “paciente” foi preterido pelo fator “colega de profissão”. O paciente, vítima de um possível erro, foi posto em segundo ou último plano, se é que foi considerado. Situações como essa, creio eu, se repetem com frequência. Eu mesmo já presenciei essa dita postura ética.

Me lembrei também dos sambas cantados por Bezerra da Silva, sambas que eu considero uma aula de sociologia, com ritmo e humor, mas acima de tudo extraída do mundo real. Uma das músicas se chama “Defunto caguete”. A figura do alcaguete, popularmente chamado de caguete, é sempre vista ou representada como alguém que não foi amigo suficiente de uma pessoa ou de um grupo, uma vez que não soube guardar segredo e/ou denunciou alguma atividade do grupo ou de um de seus membros. É o delator. É o conhecido dedo-duro.



Essa visão negativa relacionada com a ação de denunciar, talvez (repito... talvez) explique, em parte (para fortalecer o talvez), a razão de muitos criminosos ainda atuarem em certas áreas da sociedade (seja nos morros “dominados” pelo tráfico, seja nas repartições e órgão públicos “dominados” pelos eleitos e nomeados). Considerando que a maioria dos moradores daquelas comunidades e trabalhadores dessas repartições são pessoas honestas, de bem, que não aprovam atos criminosos, é extremamente baixo o número de denuncias, uma vez que crimes, como sabemos, continuam sendo praticados. Tanto daquelas informações que chegam através de serviços como Disque-denúncia, como daquelas que nós tomamos conhecimento através de reportagens e/ou ações policiais.

O denunciante ficou estigmatizado. Mesmo quando a denuncia se configure numa postura cívica, humana. Complicado, né?

Imaginem a seguinte cena. Um traficante foragido se reúne com seus parceiros, sua quadrilha. Entre um plano e outro para se manter escondido dos “cana”, o bandido manda a seguinte declaração para sua turma: “Pô, tô bolado! O caguete foi daqui o da otra favela. Aí, se'eu pegá quem mi dedurô, vô esculachá! Vô quebra! Pô, foi vacilação, foi anti-ético”.

sábado, agosto 07, 2010

Um toque para preservar

Continuo com minhas lembranças sobre a curta e incompleta viagem à Paris e Lisboa. Como o olhar crítico não ficou embaçado pela grandiosidade e beleza daquelas cidades, nem pelo incrível museu que é o Louvre, principal inspirador desta postagem, não pude deixar de notar algumas coisas. Uma dessas coisas está relacionada com minha formação em Arquivologia. Mas especificamente com uma, digamos, preocupação arquivística. Falo de preservação.

Alguns podem se perguntar o que a preservação em arquivística tem haver com o acervo museológico do Louvre. Mas preservação é algo bem mais amplo do que a mera conservação de um papiro, por exemplo. Pode estar relacionada com uma atuação política da instituição detentora do acervo, seja ele museológico, bibliográfico ou arquivístico. Pode também ter um aspecto social envolvido. E eu arriscaria dizer até que um aspecto psicológico pode estar presente. Algo como a necessidade do tocar. Ou, numa adaptação à desconfiança do apóstolo, aqueles que “só acreditam tocando”.

Não somos submetidos a sermões iniciais ou palestra de conscientização para entrarmos no Louvre. Afora a questão de segurança normal e esperada naquele país, se considerarmos suas relações internacionais e posturas políticas de seu atual governo, não há nada de muito rigoroso ou constrangedor. As bolsas passam por um detector de metais, outras, além disso, são vistoriadas, mas tudo muito rápido. Paga-se 9.5 € por pessoa e o Louvre abre as portas para seu grandioso acervo.

Mas os alertas, em forma de mensagens de texto ou figuras, estão por toda a parte. Bem, para aqueles que se preocupam com esses detalhes. Também existem muitos guardas circulando por todas as áreas, além das câmeras de segurança, para coibir os abusos dos turistas mais... como posso dizer?... sem noção. Não tocar, não usar flash ao fotografar, etc. Ah, além disso, as informações sobre o que o visitante não deve fazer constam do guia do museu. Um instrumento de grande utilidade e disponível gratuitamente em diversos idiomas. Logo, quem comete as infrações, ou não sabe ler nem interpretar desenhos, ou não tem consciência do certo ou errado.

Não se pode considerar excesso de zelo certos cuidados dos responsáveis e as orientações aos turistas. Algumas coisas, como as que eles indicam, podem ser evitadas facilmente, sem que nos privemos de visitar o acervo. Lembro que, mesmo que todos se comportassem como se espera, os acervos continuariam se deteriorando. Nada é eterno. A vibração proporcionada pelo deslocamento das pessoas, ou pela reverberação da voz, e mesmo as trocas térmicas entre os corpos e o ambiente, contribuem para esse processo.

Mas nota-se que muitas pessoas resolvem, mesmo que inconscientemente, acelerar tal processo. O flash é usado indiscriminadamente por muitos. Bastava um momento de distração ou ausência da vigilância. Como disse anteriormente, na referência à São Tomé, talvez pela indescritível beleza e complexidade das obras, somada a sua antiguidade, algumas pessoas parecem precisar senti-las para crer na sua existência. Por isso, quando não há o flagrante, podemos observar diversas esculturas e outras obras marcadas, não pelo tempo, mas pela soma de umidade e oleosidade e poeira deixadas por muitas mãos.

De Paris para Lisboa, me recordo de outro momento onde a relação usuário (ou turista) está bem relacionada com a preservação. Visitando a bem conhecida Feira da Ladra, fiquei impressionado com a venda indiscriminada de azulejos antigos. Uma marca da beleza arquitetônica e decorativa, típica de Portugal, sendo vendida pelos “feirantes”. Num primeiro momento, podemos considerar como algo aceitável, pois talvez a aquisição tivesse sido feita numa demolição de algum prédio antigo. Mas andando pelas ruas dos bairros antigos de Lisboa (e eu andei bastante) podemos notar que em muitas paredes, muitas fachadas, faltam azulejos. Neste caso, poderíamos pensar, “ah, mas azulejos se desprendem com o tempo”. Antes fosse só esse o caso!

Por isso, aqui vãos alguns toques. Não comprem azulejos antigos em feiras. Esse tipo de obra de arte só tem significado no seu conjunto, no seu contexto. Admire os prédios, fotografe as fachadas. E, ao visitar museus, consuma com os olhos. Não duvide da veracidade das obras ao ponto de precisar tocá-las. Acredite, o ser humano é capaz de construir coisas de extrema beleza. Mas, como você bem sabe, ele também é capaz de destruir com extrema frieza.

Registrei alguns desses momentos em que o olhar crítico de arquivística se manifestou no turista. Observo que, nas imagens do museu, o recurso de flash não foi utilizado. A pessoa que aparece tocando uma estátua, foi devidamente alertada por seu companheiro. Sua figura foi descaracterizada, pois a intenção é apenas exemplificar o caso, não constranger quem quer que seja. O bilhete de entrada e as informações do guia de visita foram digitalizados (guardei como lembranças!) e a foto da venda de dos azulejos na Feira da Ladra foram retiradas da internet.


quarta-feira, agosto 04, 2010

Metas Desumanas

Domingo passado eu saí de casa e fui ao Aterro do Flamengo com uma intenção: andar de bicicleta. Pensei nisso nos dias anteriores àquele fim de semana. Tinha esse objetivo, essa meta. Pedalar num dia de sol.

Como não tenho esse meio de transporte, aluguei uma. Dez reais por uma hora. Paguei antecipado. Altura do banco regulada. Guidão um pouco torno (mas isso eu percebi depois) e mãos à obra. Ou melhor, pés no pedal. Aterro cheio. Dia de corrida de... bicicleta. Segui a orientação de seguir pela ciclovia e evitar as ruas que, mesmo interditadas para lazer, estavam sendo usadas para o evento ciclístico. Estava fazendo um dia lindo. Pedalando, sem músicas no ouvido, mas com toda a bela paisagem harmonizando o passeio.

Pessoas andando, pessoas pedalando, pessoas sentadas, em pé, pessoas caminhando. Na praia de Botafogo, reparo um senhor, com seus quarenta, talvez cinquenta anos, olhando o relógio. Mas não era uma simples conferência das horas. Era, mais que isso, uma verificação do tempo, uma análise de desempenho. Ele, assim como outros tantos, havia estabelecido uma meta. Não era uma simples caminhada de lazer, descompromissada. Era uma meta a ser atingida no espaço e no tempo.

Comecei, nesse momento e entre pedaladas em rítmos variados de velocidade, a refletir sobre as metas. Fiquem pensando se não seria mais prazeroso para aquele senhor simplesmente caminhar, curtindo a paisagem, o Sol ameno, a brisa à beira da Baía de Guanabara. Se o corpo tem de fato uma ligação com a mente, uma caminhada livre, relaxada e sem a subordinação ao tempo, seria muito mais proveitosa para o
conjunto corpo e mente.

Ao mesmo tempo que refleti sobre isso, foi inevitável pensar no ambiente profissional. As metas do funcionário, do setor, da empresa. Metas determinadas, metas negociadas, metas, metas, metas.... Metas para terminar uma tarefa até tal dia. Meta para apresentar determinado número de trabalhos prontos. Meta para iniciar algo antes de alguma coisa. Meta para reuniões. Meta para treinamentos. Metas ambientais. Metas e mais metas. Nunca me senti tão robotizado. Tão menos humano.

Num ambiente mais humano, talvez metas inexistíssem. Procuraríamos fazer o correto para com o ser humano, seja ele nós mesmos, seja ele o colega ao lado. Se eu sei que a execução de determinada tarefa, sob minha responsabilidade, impacta diretamente a empresa, o setor, ou as atividades do colega ao lado, eu não deveria ter meta para executar tal tarefa. Deveria executá-la por respeito, por responsabilidade, por consideração.

A empresa evita poluir, ou estabelece "meta de poluição" (sic) não porque tem consciência dos efeitos da poluição no meio ambiente e na vida das pessoas, mas para se enquadrar em padrões internacionais que a valoram por não poluir.

Acabamos por executar nossas tarefas para atender à leis, normas, padrões. Desvinculamos nossas atividades do resultado humano, social, ambiental.

Ao invés de ter como objetivo o correto, o adequado, o respeitoso, o humano, enxergamos uma meta, que muitas vezes é transformadas em um número, analisada como um gráfico. Distamos do objetivo humano, social, e nos prendemos a objetivos mensuráveis.

Nos programamos ou somos programados de acordo com uma meta. Neste momento me vem em mente o filme baseado na obra de Isaac Azimov, "Eu, Robô". No filme, os robôs substituíam seres humanos na execução de determinadas tarefas. A diferença aqui é que não estamos nos substituindo. Estamos nos robotizando.

Terminei a pedalada. Entreguei a bicicleta. Olhei no relógio. Um minuto para completar uma hora. Bem a tempo. Meta atingida!?

sexta-feira, julho 30, 2010

Da Coca-cola ao Louvre
A educação comparada

Tenho algumas boas recordações do tempo de escola. Consigo “regressar” até o jardim de infância. Hoje o lugar já não é uma escola. Bem, já fazem uns 27 anos! Depois disso, um ano no segundo e último colégio particular, para concluir a alfabetização (na verdade, comprovar) e a primeira séria que, com as recentes mudanças, eu não sei mais como se chama esse período escolar. Depois disso, entregue ao Município e então ao Estado. Nesses tantos anos de escola não me recordo de muitos passeios. Mas dois deles eram emblemáticos, quase obrigatórios: Zoológico e fábrica da Coca-Cola. No primeiro eu tenho certeza de não ter ido. No segundo, sim, eu estava lá.

Eu acredito, hoje, que toda a experiência de vida pode ser usada como aprendizado. Não sei se ou quanto minha vida seria diferente se tivesse participado do passeio ao zoológico. E, da mesma forma, não acredito que a visita à fábrica do refrigerante tenha acrescentado algo. Ali não aprendi química, nem o processo de fabricação ou logística industrial. E, se pensarmos no apelo consumista ou na “fabricação” de consumidores, aquela empresa já trabalhava esse aspecto num marketing de massa. Além disso, naquela época eu tinha preferência por algo mais acessível: o guaraná Simba! Mas isso é outra história.

Essas lembranças dos passeios escolares do meu passado têm o propósito de lançar um olhar crítico sobre o ensino. Pelo menos o ensino que tive. Eu imaginava, naquela época, que os passeios serviam apenas para tirar as crianças do ambiente escolar e proporcionar diversão descompromissada. Não tinha a noção de ensino fora dos muros escolares. E, cá entre nós, essa nobre possibilidade não era o que motivava certas atividades externas. Museus, pontos históricos, bibliotecas públicas, exposições... são exemplos de destinos que não estavam no itinerário dos ônibus que conduziam aquela penca de infantes.

Me embrenho por este assunto por conta do impacto que tive recentemente, em minha curta e incompleta visita à Paris, quando me deparei, em várias ocasiões, com crianças tendo aulas externas. A foto que ilustra esta postagem foi tirada na Basílica de Sacré Cœur, mais que uma igreja, um monumento histórico dentre os tantos conhecidos naquela linda cidade. Me chamou a atenção a organização, as crianças uniformizadas e “sinalizadas”. Acompanhadas de instrutores, professores e outros profissionais que se mostravam bem dedicados. Pelo menos aparentavam. Em outra ocasião, essa bem mais significante e evidente quando se fala em ensino e aprendizado em passeios, aconteceu no Louvre. Eram vários grupos escolares. Alguns, fazendo trabalhos escolares em meio às exposições, munidos de cadernos e lápis, analisando itens, escrevendo, conversando entre si, ouvindo, atentas, as histórias e explicações de seus professores. Foi um momento de surpresa e encanto. Mas também de interrogação sobre as muitas e belas possibilidades que aquelas crianças teriam em sua formação cultural e intelectual.

E, como bem devem imaginar, naquele momento eu lembrei, e muito, do meu passado. Lembrei de um determinado passeio a uma tal fábrica de um certo refrigerante.

quinta-feira, julho 29, 2010

Um leitor escreve o que muitos pensam
E a mesmice é propagada como relevante novidade

Espaço bastante democrático, embora eu não entenda qual o critério para o uso, a versão online do jornal O Globo permite que leitores escrevam e publiquem artigos. Eu mesmo já postei no Eu-repórter. Também existe o serviço Opinião do Leitor. Creio que os textos passam por revisão, mas a essência está lá. O pensamento, o sentimento externado em palavras escritas. É algo que gosto muito. O TUIST é um pouco disso. Um espaço para desabafos literários. Mesmo que não profissional. Aqui, embora transcrevo minhas angústias pessoais, meus preconceitos, meus medos, minhas revoltas (e outras coisas mais), tenho certeza que tais revoltas, medos, preconceitos e angústias são familiares de outros. Assim são os textos, as postagens, as opiniões, tanto em blogs (amadores) como em jornais (profissionais). A opinião de um pode refletir a opinião de outrem.

Hoje, estava fazendo minha varredura diária do portal de notícias, e fui atraído pelo título Hipocrisia do "politicamente correto". Leia aqui. O texto, escrito por um leitor, é pensado e redigido dentro do contexto do Estatuto da Igualdade Racial, instituído e recentemente sancionado com a Lei 12.288 de 20 de Julho de 2010. Confesso que ainda não a li na íntegra, mas lerei. É um assunto que me interessa, por motivos que não são tão óbvios quanto minha foto aí em cima pode levar a crer.

Voltemos ao artigo do leitor... Enquanto fazia a leitura, foi como se me deparasse com algo já visto, um texto já lido, uma história já contada. E é realmente isso, o âmago, a substância, é algo mais que explorado. Chego a conclusão que o discurso não mudou. Temos lá a genética, a evolução, as pesquisas que interessam, as porcentagens impactantes, as frases de efeito, a diversidade semântica, as aspas, as comparações, os exemplos... Enfim, temos lá uma opinião formada, um pensamento consolidado, um conceito.

A impressão que tenho é de muitas pessoas escrevendo, não apenas o leitor, ou um leitor, que usou o espaço democrático daquele portal de notícias. Aquelas palavras pareciam ter sido escritas por uma multidão de pessoas que reafirmavam algo em prol do que chamavam de igualdade. "Somos todos iguais" diz a derradeira frase.

Os comentários funcionam como um complemento, fortalecendo tudo o que o texto tem a oferecer. Todo esse conjunto, texto e comentários, me mostram (talvez mostrem a outros) o quanto é complicada a questão rac... a questão da cor da pele na sociedade. A fervorosidade com que os que são contra e os que são à favor exprimem suas opiniões só perde para a falta de criatividade e a mesmice com que tais opiniões são externadas. O resultado é a velha propriedade física da inércia. Um conjunto de forças de resultante nula.

Em minha opinião, muitas pessoas, geralmente as que têm espaço midiático ou mesmo acadêmico, estão desumanizando uma questão que, em primeiro lugar, deveria considerar o fator humano. Eu não sou um ponto percentual! Eu respiro, vejo, escuto. Eu sinto. Eu vivo.

Mas essa inércia é aparente (eu espero). O primeiro, e melhor, passo para resolver certos desacertos (sociais, humanos, psicológicos, etc) já está sendo dado. Mesmo que ao ritmo de uma canção, no dois prá lá, dois prá cá. Estamos falando. Estamos tocando no assunto. Estamos trocando uma idéia, sobre tudo o que está aí.



sexta-feira, julho 09, 2010

PEC 89/2003. Ao Juiz, o que é justo!

Se um dia critiquei, nesse caso específico eu aplaudo. Senadora Ideli Salvatti (PT-SC), autora da PEC - Proposta de Emenda à Constituição, nº 89 de 2003 de 18/11/2003 que "dá nova redação aos artigos 93 e 95 da Constituição Federal, para impedir a utilização da aposentadoria dos magistrados como medida disciplinar e permitir a perda de cargo, nos casos que estabelece."

Até então, se um Juiz comete um crime (ou seja lá qual for a palavra amena que se use ao invés de... crime) o castigo, a punição, a pena, era a aposentadoria. E com toda a pompa que o cargo permite e o nosso dinheiro paga. Uma aberração, assim como o foro especial.

Bandido, esteja ele atuando como juiz, presidente, deputado, vereador, senador... goleiro, merece a cadeia. Isso, sim, é justiça.

Matéria relacionada: "Aposentadoria deixa de ser punição para juízes" - O Globo

quinta-feira, julho 08, 2010

O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht (1898 — 1956)

quarta-feira, junho 30, 2010

L'Étranger avec Fraternité (...)

Programa Globo News Especial, exibido em 13/06/2010 sobre a vida dos imigrantes na França.

(...) Com um pouco de Liberté
Mas sem Égalité!

Como comentei em postagem anterior, estive em Paris. Oh, Paris, Paris... A Cidade do Iluminismo, a Cidade Luz. Belas ruas e avenidas, construções cheias de personalidade, Catedrais grandiosas, monumentos incríveis, estrutura e infraestrutura de tirar o fôlego. Torre Eiffel... Louvre... Sena... E pessoas, muitas pessoas de toda parte. Sotaques, vestimentas, cores e olhares que nos fazem pensar estar em várias partes do mundo numa única esquina ou num único vagão de metrô ou numa única sala de exposição, restaurante, praça...

É, de fato, uma cidade atraente. Mas o que seria atraente para muitos, como eu, que estive lá à passeio, torna-se atraente para outros tantos que veem em Paris, ou alguma outra cidade europeia, uma oportunidade de recomeço, uma oportunidade de vida.

Minha curta viagem à Europa começou em Lisboa, onde chegamos em 2 de Junho. Ao sair às ruas, após "largar" as malas no Hotel, uma coisa me impressionou: A quantidade de pessoas de origem africana. AS vestimentas, os olhares, as intonações de vozes. Ainda não havia percebido que a Ásia também se fazia presente, com muitos indianos, assim como países menos favorecidos do leste europeu. Imigrantes. Ilegais? Talvez alguns deles, talvez boa parte deles. Talvez.

Ao chegar em Paris, o que já não era uma simples impressão, mas uma constatação, se consolida quando circulo por ruas quase que totalmente formadas por lojas de artigos, a maioria roupas, indianos. As cores, as formas, o brilho.

Uma das coisas que penso, até por exemplo do que muitos brasileiros vivem ao "tentar a sorte" no exterior, é como seria a relação entre imigrantes e locais. A resposta para essa indagação eu creio que me foi apresentada numa situação que presenciei na tarde do dia 11 de junho na calçada do Museu Nacional de Monumentos Franceses, no Trocadéro.

Naquela região, próximo à Torre Eiffel, vi um grande número de vendedores ambulantes. Em sua grande maioria, de origem africana. O evento que presenciei envolveu um deles. Estávamos caminhando, já retornando para o lado oposto ao Trocadéro, e começou uma discussão entre o vendedor ambulante e um suposto comprador. Sem conhecer o idioma (ou idiomas) que estavam sendo falados ou gritados, não pude saber a razão da contenda. Mas, pela cena, era difícil saber com quem estava a razão, quem era o culpado ou inocente. Naquele momento se aproximou um terceiro ator daquele triste espetáculo sócio-cultural-étnico-racial. Parecia ser um policial ou segurança, estava á paisana. A primeira e única coisa que ouvi, e entendi, foi esse terceiro elemento pedindo, ou melhor, exigindo os documents do vendedor ambulante.

Ficou claro naquele momento que, mesmo estando certo e inocente - se é que estava - o vendedor era o lado mais fraco. Num lado tínhamos o imigrante negro, no outro um turista branco. E, pesando isso tudo, um suposto agente de segurança francês no papel de balança. Uma balança que se vicia a medida que o problema da imigração cresce.

Os sem-papéis, como são conhecidos os imigrantes ilegais, muitas vezes executam funções que os "nativos" dispensam. Alguns dizem que, sem eles, a economia desses países pararia. E isso não é apenas em Paris. Vi isso em Lisboa e muito antes li e ouvi sobre essa questão em outros países. Principalmente nos EUA, cujas informações sobre esse aspecto da sociedade (e da economia) mais facilmente chegava por essas bandas. O que imaginamos ser uma convivência pacífica ou até natural, muitas vezes resume-se numa relação tênue de tolerância vigiada.

E o Estado se faz presente de maneira paradoxal. Se abrindo sem conseguir manter ampla política de bem estar social. E se fechando, sendo taxado como xenófobo. É realmente uma questão complicada. Mas não deixa de ser irônico. Há alguns séculos a França (e Portugal, e Inglaterra...) saiu ao mundo, dominando, colonizando, emigrando. Hoje, podemos dizer que a França está sendo colonizada. Mas relativamente em paz. Outros países não tiveram essa chance.

A arte de viver é simplesmente a arte de conviver...
simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!
Mário Quintana

segunda-feira, junho 28, 2010

domingo, junho 27, 2010

A grandiosidade das coisas

Vivo na cidade do Rio de Janeiro. Antiga capital do país, cheia de histórias. Muitas delas registradas na forma de monumentos, praças, estátuas, chafarizes, casarões, igrejas, museus, bibliotecas… Muita coisa de inspiração européia, muitas adaptadas aos trópicos, são construções de extrema beleza. Muitas, infelizmente, em estado de conservação precário. Mas muitas conservam os detalhes que fazem os mais atentos, e interessados, pararem por algum tempo de modo a contemplar as verdadeiras obras de arte. Belo exemplo é o Teatro Municipal, recentemente reformado e reaberto ao público. Eu, sempre fiquei vislumbrado com tamanha riqueza de detalhes, de formas. Algo que me faz parar são as portas de certos prédios. Já repararam as do Iphan (e Livraria da Travessa) na Avenida Rio Branco? E as portas da Igreja do Colégio Zaccaria, no Catete? Os detalhes, a beleza, a riqueza.

Em Portugal (Lisboa, Porto, Sintra) e França (Paris) não foi diferente. Porém, chamou minha atenção a constância com que me deparava com construções e monumentos com essas características. Além disso, o tamanho de tais construções. Faz pensar que foram feitas não apenas para impressionar e prender nossos olhares, mas também para nos fazer sentir pequenos. Pode parecer estranho, mas essa foi minha sensação em muitos lugares. O primeiro desses foi o monumento na Praça do Rossio, em Lisboa. Uma estátua de D. Pedro IV, vigésimo-oitavo rei de Portugal e primeiro imperador do Brasil. A altura impressiona. A segunda, talvez tenha sido o Arco da Rua Augusta. Igualmente rico em detalhes e em tamanho. E não paro por aí. Igrejas seculares, mosteiros, castelos, casarões… A diversidade de grandiosidades parece não ter fim em Lisboa.

Em Paris, tive mais surpresas monumentais. A catedral de Notre Dame, a basílica de Sacre Coeur, o Museu do Louvre (que não se resume à pirâmide!), a Torre Eiffel, e os prédios, as fachadas…

Posso dizer pelo que vi que Paris está mais conservada que Lisboa. E as comparações param por aí. São cidades diferentes, com características e distintas. Em Paris eu “estive” turista, cumprindo o protocolo de visita a pontos conhecidos. E Lisboa, até pelo tempo de permanência, pude sentir mais a cidade. Além disso, não havia a barreia do idioma e, muitas vezes, nem da nacionalidade, tamanha a quantidade de brasileiros que lá vivem.

Me sentido tão à vontade e relativamente com tempo, pude conferir e me ater aos detalhes que tanto me impressionaram. Pude “respirar” a história, não apenas de Lisboa, mas do Brasil também. O Monumento dos Descobrimentos, às margens do Tejo foi um deles. Outro momento que fiquei boquiaberto foi na Igreja do Mosteiro dos Jerônimos. Logo na entrada, à esquerda têm-se uma grande urna, creio que em mármore (abundante em várias construções, novas e antigas), o túmulo de Vasco da Gama. À direita, por sua vez, outra urna, a de Camões.

Fica difícil expressar em palavras tudo que vi e senti. Mesmo as imagens, como poderão ver, não conseguem transmitir a grandiosidade dos monumentos, tanto os de Lisboa, como os de Paris.

quinta-feira, junho 24, 2010

Voltei. E já digo: "até breve, Lisboa!"

Esta é a terceira postagem de hoje e desde que retornei das merecidas férias. Passei 18 dias de muita festa, novidades, vistas fabulosas, novas e marcantes amizades, muita cultura, muitas surpresas, muitas coisas para lembrar, para refletir, para amadurecer como ser humano. E, como não poderia deixar de ser, muita bebida e comida... tudo moderadamente, é claro. Estive na Europa, minha primeira viagem internacional. Mais especificamente em Portugal e França. E, para ser mais específico ainda, em Lisboa (a maior parte do tempo), Porto, Sintra e Paris.

Foi um choque cultural. A palavra cosmopolitismo define um pouco do que vi no conjunto das pessoas. Encanto e surpresa poderia definir o que vi e senti no conjunto das coisas.

Em muitas postagens eu externei aqui minha decepção e tristeza no trato com o ser humano, exemplificando isso com situações que vivi (e, infelizmente, vivo). O que faz com que me sinta um ser estranho dentro de meu próprio ambiente (rua, bairro, cidade, trabalho...). Questões relacionadas com preconceito, que vem da ignorância, e que gera o medo, o desrespeito e a desconsideração pelo outro, pelo ser humano. Posso afirmar que lá, principalmente em Lisboa, onde, como disse, estive a maior parte do tempo e pretendo retornar o quanto antes, estive em paz com essas questões que tanto me afligem, me desalentam e entristecem. Me senti bem. Muito bem.

Nas próximas postagens eu pretendo relembrar e registrar aqui essa experiência inesquecível. Hoje (e sempre) gostaria de agradecer às meninas da Rua Maria que tão bem nos ciceronearam durante aqueles dias de Junho. Brasil e Portugal sempre juntos! Desejo muita felicidade, união, paz e saúde a dupla que em trio em breve se tornará. Espero estar à altura quando visitarem este lado do Atlântico. Grande abraço ao Senhor do "Pá", uma enciclopédia viva de Lisboa, fonte de muita cultura, animação e informação. A mineira tão atenciosa, animada e de fala peculiar (um sotaque diferente de tudo que já ouvi). Ao brasiliense saudoso e amigo que exprime toda sua competência percutindo o Brasil e sua emoção em pratos, bumbos, caixas, surdos.... A luso-moçambicana de olhar penetrante e sincero e palavras firmes numa voz suave. A romena de sorriso doce que se ruborizava com a algazarra e brincadeiras daquela linda turma luso-brasileira. A delicadeza da Bela Flor. A todos os brasileiros e portugueses da Beira Minho. Enfim, meu abraço a todos os que participaram direta ou indiretamente daqueles inesquecíveis dias.

A imagem abaixo é da Praça da Figueira, onde ficamos hospedados. Naqueles dias, ao acordar, eu podia contemplar essa área do mundo em plena Lisboa antiga, com suas construções seculares e belas. Ao fundo, o Tejo. No alto, à esquerda, o milenar Castelo de São Jorge. À direita, e além, o Bairro Alto, com suas belas construções, e sua áurea de festas e animações quando as estrelas se fazem vistas. E bem perto também a Casa do Alentejo, o ponto estratégico para se saborear uma generosa dose de Ginginha, e a Praça do Rossio com seus magníficos chafarizes e grandioso monumento central, e o centenário e histórico Café Gelo onde tanto saboreei meus pequenos-almoços... E tantos outros lugares e tantas outras vistas e tantos outros sabores e ares... Até breve Lisboa!

Conversa animada

Tirando toda a política (ou politicagem) envolvida no encontro, e a questão alimentar onde os líderes dão um péssimo exemplo nutricional (péssimo e, provavelmente delicioso... ninguém é ferro), a imagem é, no mínimo interessante. Pensem no seguinte fato, antes de olharem a foto novamente: esses dois carinhas comandam países que, juntos, possuem mais de 10 mil ogivas nucleares.

Um crime arquivístico

Não me refiro ao arrombamento e roubo dos documentos. Me refiro, sim, ao descaso com que os processos estão armazenados. Aquilo não pode ser considerado um arquivo. A Polícia Federal, além de investigar o crime de arrombamento, investigar a responsabilidade do Estado na guarda daqueles processos.



sábado, maio 15, 2010

Após o 13 de Maio

Relembrando um texto postado em 2007.

Alvorecer de um novo dia

Manhã de 14 de maio de 1888. O Brasil acordava feliz. Enfim livre de uma chaga. Talvez não soubesse que ficaria aberta durante muito tempo. Naquela ocasião, assim como nos dias de hoje, já existiam dois Brasis. Um deles, embora feliz, estava preocupado com o porvir. “E agora?”, se perguntava. O outro, também feliz, dizia: “Esqueçamos!”.


Leia o texto na íntegra.

sexta-feira, maio 14, 2010

The Color of Beauty

Renee Thompson is trying to make it as a top fashion model in New York. She's got the looks, the walk and the drive. But she’s a black model in a world where white women represent the standard of beauty. Agencies rarely hire black models. And when they do, they want them to look “like white girls dipped in chocolate.”

The Colour of Beauty is a shocking short documentary that examines racism in the fashion industry. Is a black model less attractive to designers, casting directors and consumers? What is the colour of beauty?

This film is part of the
Work For All series, produced by the National Film Board of Canada, with the participation of Human Resources and Skills Development Canada





Fonte: National Film Board of Canadá

quinta-feira, maio 13, 2010

Música ao redor do mundo

A música liberta. E encanta, e une, e emociona. Sintam essa versão de Stand By Me, parte do documentário Playing For Change: Peace Through Music.

quarta-feira, maio 12, 2010

Encurtadores de links e a preservação da informação

Esses dias fiquem pensando nesses serviços de redução e redireciomento de links (os URL Shortening Services) e na capacidade dessas empresas de se manterem. A preocupação está relacionada com a preservação desses links reduzidos e da associação desses links com os originais, para um correto redirecionamento e, consequentemente, a recuperação da informação que se busca.

Os URL Shortening Services são aqueles serviços que transformam links imensos em endereços reduzidos, relativamente fáceis de serem memorizados e usados em redes sociais como o Twitter, que restringe o número de caracteres, e-mails, mensagens via celular. Exemplos: TinyURL, Zapt.in, Migre.me, etc...

São dezenas de empresas que oferecem o serviço. Isso sem contar naquelas que reduzem seus próprios links, tais como a CNN ou a Reuters. A Google, por exemplo, já lançou seu próprio sistema, o Google URL Shortener – Goo.gl – atualmente disponível somente nas aplicações Google (como o Chrome) .

Mas será que essas dezenas de empresas conseguirão se manter no mercado durante muito tempo? Para muitos esses tipo de serviço é considerado nada menos que uma ferramenta (uma feature), e não um negócio em si. E, em caso de encerramento das atividades dessas empresas, como ficam as publicações que usaram seus links reduzidos? Uma atualização de cada referência de modo a recuperar o link original seria um trabalho hercúleo e que demandaria tempo. Com isso, estaria comprometida a recuperação, o acesso à informação. E informação preservada é informação acessível.

Já escrevi algumas postagens relacionadas à preservação da informação em meio digital e a relação com os links. Uma delas está aqui. Os URLs Shortening Services também se enquadram nisso, porém de forma diferente.

Bem, essa preocupação, como não poderia deixar de ser, não é original. Pesquisando, descobri uma iniciativa interessante o Internet Archive no âmbito da preservação de longo prazo (long-term preservation). Em Novembro passado foi lançado o projeto 301Works, que atualmente congrega 22 empresas de URL Shortening. Essas associadas firmam acordo de repassar regularmente back-ups de seus mapas de URL (registros das URLs geradas de forma reduzidas e suas respectivas URLs de origem) e, em caso de encerramento das atividades, todo o controle técnico do serviço será transferido para a 301Works.

Com isso, teríamos mais uma garantia da longevidade dos links reduzidos e sua funcionalidade para o acesso à informação.

Mais: Leia a reportagem Trying to Save the Web's Shortcuts no The Wall Street Journal.

terça-feira, maio 11, 2010

Papel sintético

Papel sintético a partir do plástico reciclado, tecnologia desenvolvida no Núcleo de Reciclagem de Polímeros do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (DEMa – UFSCar) em parceria com a iniciativa privada. Leia uma entrevista sobre o projeto aqui. Além do apelo ecológico, que por si só já atribui grande importância à nova tecnologia, o papel sintético apresenta características que podem auxiliar na preservação. É mais durável, pois apresenta maior resistência química, mecânica e à umidade. Creio que o material não é tão atraente aos fungos quanto o papel feito a partir da fibra de celulose. Também não ficou claro a questão da temperatura, uma vez que se trata de material plástico.

segunda-feira, maio 10, 2010

Política de dominação

Parece que ele aprendeu. E aperfeiçoou essa tal política.

Creio que o Brasil tem um sério problema de memória. E memória num contexto social. Ela é seletiva, funcionando quando interessar. Mas é também planejada e cultivada de maneira sutil e eu diria até profissional de maneira a moldar e a conduzir a sociedade de acordo com os interesses de um ou outro grupo.

Algumas vezes, eventos e ações, que dão corpo a essa memória, são registrados. Temos então os documentos, os arquivos. Nem sempre esses documentos nos são acessíveis da maneira como deveriam segundo a lei. Outras vezes, porém, tais registros constitutivos de nossa memória são publicizados, tornados acessíveis mesmo fora do âmbito do Estado. Com a ajuda das novas tecnologias essas ocasiões têm sido mais frequentes.

Entretanto, a problemática da memória na trama da política de dominação não estaria completa sem o que chamo de política de ignorância. Este, um crime perpetrado ao longo de décadas. Se, no primeiro caso, temos afetada nossa memória, neste é ceifada nossa capacidade crítica. Passamos a aceitar, tal como os gados da canção de Zé Ramalho.

Desta forma, temos o documento, temos acesso aos arquivos, mas sem a capacidade crítica para interpretar a informação transmitida pela ação/evento alí registrada e contextualizá-la com nossa realidade, esse documento é banalizado. Crime perfeito!

sábado, maio 08, 2010



Marcapasso da compreensão


O marcapasso é um dispositivo que produz um estímulo elétrico conduzido até o coração quando este apresenta um número de batimentos abaixo do adequado para o funcionamento do organismo, para manutenção da vida. O aparelho compreende que nossa bomba interna precisa ser ajustada e faz esse ajuste.





Homem é baleado na cabeça ao tentar entrar numa agência bancária. O cliente havia sido foi barrado na porta giratória por usar um marcapasso. O crime foi cometido pelo segurança do banco, que está preso. O Banco emitiu nota lamentando e ao mesmo tempo se defendendo, com uma observação sobre o segurança ser de empresa terceirizada. Seria melhor não terem emitido a nota. Ora, será que a empresa a qual pertence o segurança se apossou do banco naquele momento? A agência bancária é de quem afinal?

Quando ouvi a notícia, além de ficar chocado com a violência gratuita (eu ainda me choco), fiquei imaginando como seria a vítima. Sem mais delongas, imaginei naquele momento qual seria a cor de sua pele. Não seria a primeira vez. Dois dias depois eu vi a foto da vítima, o Sr. Domingos Conceição dos Santos. E a dúvida que tive ao ouvir a notícia se dissipou.

Lembram-se do caso do jornaleiro assassinado em 2006 por um segurança do banco Itaú no Rio de Janeiro? O mesmo cenário, os mesmos tipos, a mesma tragédia.

Fico muito intrigado quando ouço discursos vazios e ao mesmo tempo calorosos a respeito das questões raciais no Brasil – ah, pela enésima vez, raça aqui considerada como fenômeno social, sociológico, já que todos sabemos que a palavra é inapropriada e incorreta se aplicada num contexto biológico. Na rua, nos meios de comunicação, no trabalho, nas conversas de botequim... parece que é sempre a mesma coisa. E aí me vem a mente o tratamento que recebi em determinado estabelecimento comercial, a reação da pessoa à frente na calçada ou ao ocupar o lugar vazio no ônibus, ou o repúdio ao lugar vazio quando este é ao meu lado. Me vem em mente comentários sutis com clara conotação racial, seja rebaixando, seja preconceituando ou mesmo conceituando de maneira negativa as pessoas cuja pele é negra em suas várias nuances. Por vezes, tais comentários ou expressões são usados sem que o falante tenha consciência do falado, tamanha é a incorporação e a naturalização disso. Como dizem, está no sangue.

Gostaria que analisassem quando uma pessoa (pode ser você) usa a gíria/expressão “nego” ou “neguinho” ou a forma ainda mais reduzida e simplificada “neguim”. Nego é, neguinho fez, neguinho aconteceu... Contem quantas vezes esse “neguim” ou esse “neguinho” ou esse “nego” representa um sujeito que realizou coisas boas. Acreditem, é um teste interessante.

Alex de Castro, do LLL escreveu um post muito interessante sobre isso há uns dois anos. O título é
O uso do nego. Também indico Quem sabe da ofensa é o ofendido, do mesmo blogueiro.

Essas situações me permitem ter uma percepção do ponto de vista do segurança do banco, da loja de departamentos, do supermercado, da atendente da lanchonete, da pessoa na calçada, no ônibus, do colega do trabalho, do colégio. Se nas pequenas situações, no cotidiano, essas sutilezas foram tão enraizadas, tão cruelmente naturalizadas no agir, no falar, no olhar de tantos (e esses tantos não se restringem a uma etnia) dificilmente eu explicaria a ação do segurança da agência como um reflexo livre do contexto racial. Essa má resolvida mazela.

Esse e outros seguranças – não todos, pois generalizar seria um erro – não são preparados para dar segurança às pessoas (e nem à instituições). Não estão preparados para lidar com seres humanos e, justamente por isso, são nocivos aos seres humanos. E estão armados.

Acho que as pessoas deveriam todas usar um marcapasso. Não especificamente para o funcionamento de nossa bomba interna, mas um que emitisse um estímulo a nossa consciência todas as vezes que detectasse que nossa visão do outro está sendo deturpada por nossos preconceitos (ou conceitos). Um marcapasso que nos permitisse compreender que o outro somos nós.


"Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter." - Martin Luther King