domingo, março 01, 2009

Hibernei? O que está acontecendo?

Num texto que postei há quase dois anos, fiz as seguintes indagações: "Numa eventual descriminalização de drogas como maconha e cocaína, quem fabricará? A FioCruz, Bayer, Glaxo, Pfizer?? Quem comercializará? Quem determinará os preços? Onde serão adquiridas as matérias-primas para a produção? Quem ganhará com tudo isso?"

Parece que essa questão de legal ou ilegal, libera ou não libera, já virou coisa do passado. Hoje simplesmente não se discute mais, pelo menos não abertamente e com a profundidade, responsabilidade e seriedade necessárias. O que ocorre abertamente é a venda, o consumo. Não sou nenhum puritano. Das drogas do mercado, consumi e consumo somente uma, e lícita: o álcool. Ok, eu assisto telenovelas, mas isso não vem ao caso. Também não incluo medicamentos, que só uso em último caso, como toda pessoa avessa a tratamento/consulta médica (ninguém é perfeito!)

O fato é que sempre minimizam o assunto, reduzindo-o até que se transforme em algo banal. Ou acabam com ele, complicando-o até que todos resolvem simplesmente abandonar no estilo “não entendo e não quero saber”. É o caso da maconha, que sou contra, pois: 1) sou contra o fumo (de qualquer coisa); 2) dúvidas pairam quanto benefícios e malefícios; 3) dúvidas também pairam sobre como funcionaria um ambiente/sociedade onde "ela" fosse legalizada (vide meus questionamentos acima e se informem sobre o que ocorre na Holanda (*), onde já pensam em rever a forma como se dá a legalização); 4) é ilegal... e, por fim, mas não por último, 5) o cheiro não me agrada.

(*) Por favor, considerem as diferenças culturas e estruturas de um país e outro.

Quando digo que o assunto parece ultrapassado, é baseado (sem trocadilhos) em fatos. Já me retirei de muitos lugares onde a erva estava sendo consumida. Lugares freqüentados pela grandiosa e intelectualizada e esclarecida e bem resolvida classe mérdia, quer dizer, média. Até na universidade isso ocorre! Isso mesmo, e não se trata de trabalho científico em prol do esclarecimento para enriquecer a discussão. Vão ao Posto 9 (praia de Ipanema) ou outro reduto de cidadãos conscientes, responsáveis, pacíficos e de alto poder aquisitivo.

Imaginem vocês se o crime de roubo a banco estivesse sendo discutido como o caso da maconha. Na sociedade existem pessoas que praticam, outras que fornecem a estrutura e instrumentos para a prática, algumas pessoas são contra, outras a favor, outras estão na dúvida. Enquanto isso, o roubo a banco continuaria sendo praticado em maiores problemas. Pra quem rouba, é claro. Absurdo! Colocar meio termo em certas coisas só agrava o problema.

Hoje uma reportagem no jornal O Globo (de hoje) me surpreendeu (qualquer dia eu infarto). O título era o seguinte: "Fumar maconha em casa, uma polêmica acesa". Pensei, caramba, liberaram e eu nem sabia. Mas não liberaram coisa alguma, porém, o roubo a banco continua sendo realizado.

Num dado momento a matéria traz uma declaração de uma mãe (professora e usuária, nas horas vagas) cujos filhos, menores, começaram a se interessar pelo assunto. Diz ela – identificada como A - "Minha maior preocupação é que eles não entrem em situações perigosas e comprem sempre com amigos que revendem...". Sempre? Perigo? Amizade? Revenda? Preocupação?!! Sinto como se tivesse hibernado durante um século. Tudo mudou.

Bem, estando a família protegida, comprando o "produto" sempre com amigos revendedores, garantindo sua segurança e a qualidade (da erva, do atendimento, preço...), consumindo no aconchego do lar, e em família, o que é lindo... que tal sairmos da superfície, aprofundarmos a discussão (já que somos esclarecidos, inteligentes, humanos, vivemos em sociedade e não isolados, somos responsáveis, blábláblá...) e abrirmos os olhos?

Qual o caminho percorrido pela maconha (proibida!) usada nessa feliz reunião de família? O que ocorreu até ela chegar às mãos desses singelos e inocentes usuários? Será que o amigo da família foi ao MAKRO, ou outra rede de atacado, se abastecer para a tal revenda? Talvez também tenha aproveitado e comprado umas guloseimas! Vocês sabem, além do vício, a larica pode se transformar num negócio lucrativo.

E qual foi o impacto disso na sociedade? Isso mesmo, sociedade. Não vivemos isolados, certo? Oh, que tal "Meus queridos filhos, estamos contribuindo para aquele aviãozinho (o guri que de outra mãe, outra família, outra realidade) compre um tênis novo!" Seria uma justificativa a altura de todo esse absurdo.

Se estive hibernando, gostaria de voltar. Acordar repentinamente faz mal.

Um comentário:

Unknown disse...

Meu caro amigo, fico feliz pois vejo que não estou só, li esta matéria no Globo e tive a sensação te estar ultrapassada, como assim? na matéria o pai dizia que comprava pra filha e assim sentia que ela estava protegida. É parece alguma coisa está fora da ordem!
Para o mundo que eu quero descer.
Bjim
Vitoria

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