sexta-feira, setembro 28, 2007

Blogueiros do mundo, uni-vos!

Essa semana a internet, mais especificamente os seus milhões de blogueiros, mostrou que pode desempenhar um papel social, humanitário e político. A tarefa é simples: difusão da informação. A junta militar que impõe um regime ditatorial em Mianmar (antiga Birmânia), aparentemente calou um jornalista japonês, que segundo informações teria sido morto por soldados durante a repressão ao protesto dos monges. Devido a toda dificuldade e o perigo que correm os jornalistas, um canal alternativo torna-se de suma importância. Blogueiros driblam a censura, contando (e mostrando) ao mundo o que acontece no país. São vídeos e fotos, muitos de baixa qualidade, feitos com celulares e sob grande risco, mas que ajudam a informar ao mundo o que realmente acontece em Mianmar. O assunto mereceu uma reportagem da BBC, intitulada Dissidentes cibernéticos driblam censura de Mianmar, de Stephanie Holmes.

Infelizmente, parece que os milicos burmenses perceberam isso e, como mostra reportagem do The Independent ['Internet cut' as Burma troops move into monasteries], estão bloqueando o acesso à internet. Mas sempre tem um jeitinho.
África: premiando a boa governança

Bons exemplos sendo premiados. Eu não gosto muito da idéia de premiar, ainda mais monetariamente, as boas ações. Acho de certa forma triste, pois mostra que fazer o que é certo se tornou algo raro. Li algo sobre a prefeitura do Rio iniciar um programa que dá prêmios em dinheiro aos alunos com bom desempenho escolar. Vejam isso! O estímulo deixou de ser um futuro melhor, cheio de possibilidades, de desenvolvimento pessoal e para uma sociedade melhor. Agora o estímulo é uma graninha para gastar no presente, agora… E sem pensar no futuro, senão estraga!

Bem, comparações a parte, a intenção aqui é comentar, ou melhor, expor um fato novo no continente africano (e talvez no mundo): a premiação para a boa governança. O prêmio se vincula ao Ibrahim Index of African Governance da Mo Ibrahim Foundation. O Index analisa 48 países subsaarianos de acordo com cinco fatores: estabilidade e segurança; respeito às leis; transparência (e corrupção); participação popular e direitos humanos; oportunidades para sustentabilidade econômica; e desenvolvimento econômico.

Na mais recente pesquisa da Fundação as Ilhas Maurício lideram, seguidas das Ilhas Seychelles, Botsuana, Cabo Verde, África do Sul e Gabão. Já no outro extremo, a Libéria, Guiné-Bissau, Sudão, Chade, Republica Democrática do Congo e Somália, são listados como os Estados com os piores indicadores.

Mo Ibrahim é o fundador da maior companhia de telefonia celular da África ao sul do Saara, a Celtel, presente em 15 países. É um homem milionário que criou uma fundação com o intuito de premiar e enaltecer os bons líderes, que trabalham pelo engrandecimento dos países que governam e para o desenvolvimento de seu povo, combatendo a corrupção e a pobreza. A fundação também serve para nomear e apontar aqueles que insistem em conduzir políticas onde a corrupção e o enriquecimento de uma minoria ligada ao poder são realidades paralelas ao sofrimento de milhões.

Certo ou não, espero que seja um incentivo para o desenvolvimento do continente africano, conduzido pelos africanos.

Maiores informações:

Al Jazeera English News - Mauritius 'best-run African state'
Mo Ibrahim Foundation - Ibrahim Index of African Governance
Mail&Guardian's Editorial - Africans can find solutions for Africa

quinta-feira, setembro 27, 2007

Os milicos de Burma e a Imprensa

Parece que, finalmente, a imprensa olha para o que ocorre em Burma (antiga Birmânia) e atual Mianmar, país asiático governado por uma junta militar há mais de 40 anos. Escrevi há dois meses aqui no blog, quando tomei conhecimento, por acaso, da violência que ocorre lá. Mas agora virou notícia quente, após 10 dias de protesto pacífico liderado pelos monges birmaneses. Além disso os protestos acontecem no momento em que ocorre a Assembléia Geral das Nações Unidas, na qual uma breve reunião do Conselho de Segurança teve como resultado a oposição para que se aplique sanções ao país asiático, graças ao voto da China (o Brasil também foi contra, segundo o Bom Dia Brasil) . Pois bem, veremos o que acontece agora que o mundo está assistindo.

Um fato interessante é a narrativa dos acontecimentos. Se quizerem ler o que os milicos de Burma dizem sobre esses dias de fúria, é só ler o site do governo de Myanmar, em inglês (link informado pela BBC). Dizem eles que o uso da força somente foi usado depois de muito aviso e tentativas pacíficas de acabar com os protestos; dizem que há pressão (até extorsão) para que as pessoas saiam às ruas, aderindo aos protestos. E a forma como é "narrado" fica parecente brincadeira. De qualquer forma, é bom "ler" o que o outro escreve.

Ibejis, Erês com São Crispin e São Crispiano, Médicos e Farmacêuticos com Sapateiros, Cristianismo com Umbanda e Candomblé, tradição católica com Ioruba… Sincretismo. Viva São Cosme e São Damião!!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Em Angola…

… acontece o III Encontro Internacional de História de Angola, no Centro de Convenções de Talatona, em Luanda. Tendo começado ontem (25), o evento que vai até sexta-feira (28) reúne dezenas de especialistas de Angola e diversos outros países da África, América e Europa, não exclusivamente historiadores, mas também sociólogos, antropólogos, geógrafos, especialistas em literatura, dentre outros. Os temas são "Questões da Historiografia de Angola", "Povoação, Migrações, Formações Políticas e sua evolução", "O Impacto das Relações com o Novo Mundo. O tráfico de Escravos", além de "História Geral de Angola: Contribuição do Reino do Congo".

Tendo em vista a história recente não só de Angola, como também do continente africano, o evento torna possível uma integração dos estudos nacionais (de angola) e estrangeiros sobre o país dentro do contexto africano, como ex-colônia recentemente independente de Portugal, e também do mundo globalizado.

Numa reportagem do Jornal de Angola, o ministro da Cultura angolano, Boaventura Cardoso, comenta sobre o evento e cita os arquivos, com locais ainda pouco visitados. Aqui entra com certeza a questão do acesso. Não somente as condições de acessos aos citados arquivos, mas também a cultura de acesso. Uma revisão histórica e historiográfica passa necessariamente pela consulta aos arquivos, pela investigação documental. Recuperando-se, não no sentido da integridade física, mas sim trazendo para o presente, para o contexto atual do país, documentos (e informações) esquecidos, ignorados. Isso não acontece somente lá. Espero que dê bons frutos.
A escravidão moderna e o Senado
O crescimento econômico e a mordaça


A chaga da sociedade continua aberta. A escravidão é algo real, atual, cotidiano. Trabalhadores rurais mantidos em condições degradantes, análogas às do período escravista. Esse foi um tema de uma postagem intitulada “Conhecendo para mudar: Trabalho escravo”, quando falei sobre o assassinato de fiscais em Unaí, da dificuldade e do perigo em fiscalizar a prática escravista moderna, e do coronelismo ainda presente.

Na ocasião não comentei muito sobre o importante Grupo de Fiscalização Móvel, subordinado à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, que tem a função de percorrer o país fiscalizando para coibir a prática da escravidão moderna. Recentemente, porém, tal grupo sofreu uma intervenção política com a suspensão de suas atividades. O “presente” à nação foi dado pela bancada ruralista do Senado. Nosso querido Senado que também recentemente nos proporcionou o espetáculo Renan.

A economia brasileira cresce, isso é fato. O agro negócio se volta para o fornecimento de insumos para a produção do biocombustível. Qualquer coisa que “atrapalhe” esse processo é, com certeza, visada. Mas acontece que não se trata de atrapalhar. Trata-se de coibir uma prática que fere os direitos humanos mais primordiais. Existem fazendas que fazem uso de mão de obra escrava, em pleno ano de 2007. E quando fiscais fazem seu trabalho na tentativa de erradicar essa praga, sofrem todo tipo de perseguição. Então não se pode mais criticar. Devemos ficar calados, caso contrário estaremos sendo contra o crescimento do país. É a lei da mordaça.

A ação de detonou o recente entrave entre os fiscais e a bancada ruralista foi na Usina Pagrisa, em Ulianópolis, no Pará, realizada no final de junho passado, quando 1064 cortadores da cana foram retirados por conta das condições degradantes de trabalho às quais eram submetidas.

O caso é sério. Os interesses são grandes. De um lado, senadores e deputados que colocam a posse das grandes extensões terra antes das questões humanitárias, dificultando a punição dos fazendeiros, estes, íntimos do Congresso (formando a bancada ruralista do mau). De outro, são os que tentam apagar de nossa história a prática da escravidão, tentando garantir condições dignas de trabalho aos brasileiros, aplicando a lei.

Gostaria de indicar um artigo do frei dominicano Xavier Plassat, que é membro da Coordenação Nacional da Campanha de Combate ao Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), intitulado “Não à flexibilização do combate ao trabalho escravo no Brasil” onde ele analisa as questões recentes ligadas a intervenção da bancada ruralista no trabalho de combate à escravidão.

Também coloquei abaixo o documentário Aprisionados por Promessas - A escravidão contemporânea no Campo Brasileiro, que “retrata a situação de trabalhadores do campo aliciados e escravizados em fazendas e carvoarias, e sugere quais são hoje os principais desafios do combate para a erradicação do trabalho escravo no Brasil”. Dura certa de 16 minutos e vale à pena assistir.


sábado, setembro 22, 2007

Questão de existência

A intenção desta postagem é fazer uma indicação. E com fins lucrativos, que fique bem claro; porém, não monetariamente falando. O lucro virá em forma de informação difundida e acessível, de quebra de paradigmas impostos ao longo da história, de conhecimento e de reconhecimento. Mas antes penso ser adequada esta introdução.

Os que leram algumas de minhas postagens e informações pessoais que já publiquei aqui, devem saber que minha área de estudo é a Arquivologia, a Informação, a Memória. Não há como dissociar a arquivística de outras áreas do conhecimento, como por exemplo, da Antropologia, das Ciências Sociais e Humanas, da Psicologia, da História, dentre outras. Por vezes também deixo claro meu interesse por questões ligadas à história, mais especificamente sobre a História da África e do Afro-descendente. Com isso, passo por questões ligadas ao racismo (conceito sociológico), escravidão, ações afirmativas, cultura afro-brasileira e africana, política, relações internacionais e atualidades.

Memória e informação, muitas vezes podem ser uma construção não somente social, mas sobretudo política. Informação e Memória são questões que se relacionam com dominação, de um grupo ou classe sobre outro. Quem sabe mais, quem possui informação, se sobrepõe. É claro, desde que o uso de tal informação se dê favoravelmente a esse processo. Mas a memória (e a informação) também está ligada ao fortalecimento do indivíduo, de uma empresa, de um grupo, de um povo. Já devem ter ouvido frases do tipo “um povo sem memória é um povo sem futuro”. Quando estudamos a questão da informação e memória, não ficamos apenas no âmbito da dominação política, econômica, ideológica, mas lidamos também com a questão da identidade. Assim como precisamos de documentos de identificação para tomar parte na sociedade civil, com nossos direitos e deveres, necessitamos também de identidade cultural e histórica de modo a termos nossa auto-estima elevada, nossos laços fortalecidos. Poderemos assim integrar a sociedade de maneira mais segura, pois saberemos quem somos e o que representamos, cultural, social e historicamente.

Com relação à cultura e história africana e afro-descendente verificamos questões políticas envolvidas, uma vez que não são contempladas no que é “ensinado” nas escolas. O resultado é o enfraquecimento social de boa parcela da população, que desconhece sua história, que vive como “um povo sem memória”, estigmatizado com o preconceito (seu e de outros) com sua própria cultura. Pessoas que existem sem existir. Uma oportunidade para mudar esse quadro é a aplicação da Lei 10.639, sobre a qual já postei aqui. E ferramentas para sua aplicação começam a surgir, seguindo ou não a onda editorial trazida com a regulamentação da lei.

Enfim, chego à indicação propriamente dita. Mas espero que não tenham pulado a introdução. Trata-se de um livro de poucas páginas (126) e inúmeras possibilidades. O autor é mais conhecido como sambista, e dos bons. Além de músicas como “No tempo de Dondom”, “Goiabada Cascão” e “Baile no Elite” soma-se à sua obra livros que já se tornaram referência como “Novo Dicionário Banto do Brasil”, “O Negro no Rio de Janeiro e Sua Tradição Musical”. O curioso é que ele tem mais livros que CDs publicados. Grande Nei Lopes! E é blogueiro também, veja só.

O que li mais recentemente, Histórias do Tio Jimbo, saiu este ano pela Mazza Edições. Um livro de linguagem acessível, que me surpreendeu do começo ao fim com histórias sobre a História que parece ter sido vetada. Olaudah Equiano, O Almirante Negro, As Candaces, Tunka Manin, Sundiata, Abu Bacar, Richard Allen, Maria Firmina dos Reis, Licutan, Juliano Moreira... são tantos e tantas. [Neste seu novo livro, Nei Lopes revela, pela fala “malandra” e intelectual do velho e esperto “Tio Jimbo”, muito do que os currículos escolares e os veículos de comunicação ainda estão por assimilar e difundir].

Por essas e outras eu indico

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...