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segunda-feira, outubro 23, 2017

Rio de Janeiro. Belezas e Mazelas

O Rio de Janeiro conta com pontos turísticos naturais e outros tantos frutos de trabalhos arquitetônicos e paisagísticos. 

O descaso dos governantes ao longo de décadas nos legou muitas mazelas, muitas feridas abertas, onde um grande número de pessoas sofre, sem opções, sem perspectivas. 

Parece absurdo, mas existe uma curiosidade mórbida, uma espécie de fetiche de algumas pessoas que consideram a pobreza, os problemas, a miséria como "atração turística". 

Hoje ocorreu uma tragédia que, em parte, provocada por essa "preferência turística". Uma preferência explorara comercialmente por diversas agências de turismo. Basta fazer uma busca simples no Google: "Favela Tour". 

Temos de parar de glamorizar nossas mazelas, nossa miséria.


sexta-feira, abril 22, 2016

O Centro do Rio

Muitas obras, algumas violências e tantas hipocrisias.

O Centro do Rio sempre me despertou admiração e encanto. Principalmente pelas construções antigas, carregadas de histórias. Os sobrados, os casarões, os palácios, as ruas…

Uma das coisas que a insegurança, ou a sensação de insegurança, nos tira é a oportunidade de contemplação. Mas nem sempre foi assim, tão proibitivo (e pouco recomendado) contemplar os sobrados, os casarões, os palácios, as ruas…

O Rio passa por uma transformação. Os Jogos Olímpicos parecem pedir uma mudança de paisagem. O Rio precisa de roupa nova para essa festa. E contamos que as vestimentas sejam de qualidade e duradouras. Embora, pelo acontecimento recente e triste na Ciclovia Tim Maia…

VLT, Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio, Aquário, Passeios públicos, Túneis… As obras são diversas.

Infelizmente não são apenas obras de melhoria que vemos se multiplicarem. Os assaltos também. O Rio de Janeiro, em particular o Centro do Rio, Cidade Olímpica, está cada vez mais violento. Os assaltos ocorrem diariamente, em vários pontos da cidade, independente do período do dia, independente da presença de aparato de “segurança”. E as aspas nunca foram tão adequadas para se falar em segurança no Rio de Janeiro. Nem a presença da mídia coibe a ação dos assaltantes. Assaltantes de todas as idades.


A insegurança é um monstro. E, como todo monstro, se alimente de algo para crescer e se multiplicar, para tomar espaço.

Será que todo celular roubado será utilizado pelo criminoso que praticou o assalto? E cordões, relógios? Duvido muito. Arrisco dizer que a maioria dos itens serão convertidos em dinheiro para, aí sim, ser usufruído de algum modo por aquele assaltante.

Mas, como se dá a transformação dos celulares, dos cordões, dos relógios, em dinheiro? Comércio! Alguém precisa adquirir a mercadoria. Compra e venda. Oferta e procura. Simples assim.

Mas o monstro tem uma dieta diversificada. Por isso cresce saudável.

Há alguns anos tenho percebido a tranquilidade que algumas pessoas consomem maconha nas ruas do Centro do Rio. Sim, fico chocado, impressionado, preocupado e indignado, ao passar por pessoas fumando maconha em plena Avenida Rio Branco, ou na Presidente Vargas, as duas principais vias do Centro, às três da tarde de um dia útil.

Recentemente alguns veículos de imprensa noticiam o combate ao tráfico no Morro da Conceição. Um morro no coração do Centro do Rio, de grande importância histórica, com construções seculares e grande potencial turístico, a exemplo de Santa Teresa.

A região no entorno do Morro da Conceição conta com alguns dos aparelhos culturais novos ou recentemente valorizados por conta da revitalização da região portuária. Dois museus, bares, bailes de rua.

As pessoas que trabalham no Centro, em especial nas proximidades da Praça Mauá, têm ali um ponto de fácil acesso para curtir.

Infelizmente o consumo de entorpecentes parece fazer parte desse “curtir” para muitas pessoas. E, mais uma vez, temos a velha questão de causa e consequência. Procura e oferta. Compra e venda. Consumo e fornecimento.

E quando o ponto é bom, o comerciante se esforçará para se manter ali. A logística é fácil, pois ele pode entregar a mercadoria ao consumidor em pouco tempo. E o consumidor existe e tem condições financeiras para consumir o seu produto. É simples. É muito simples.

Mas infelizmente temos outro tipo de alimento em abundância, muito apreciado pelo mesmo monstro: a hipocrisia.

Comprar mercadoria roubada é crime e alimenta o crime. A desculpa do desconhecimento é tão perniciosa quanto o próprio ato de comprar mercadoria roubada.


Quem cheira uma carreira de cocaína deve saber que é responsável por toda uma cadeia de acontecimentos até ali, e além dali, envolvendo sofrimento de muitos. O mesmo para os que consideram o ato de fumar maconha coisa inocente e aceitável. Que o ato de acender um baseado ilumine todos os acontecimentos até ali, e além dali, e que o tragar traga também responsabilização.

sexta-feira, abril 11, 2014

Obstáculos anti-maravilha

É uma aventura, por vezes perigosa, andar pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro.

Temos de desviar de buracos, nas calçadas malcuidadas, desniveladas e construídas porcamente. Rasgadas pela proposta de progresso que tenta se implantar sem a devida ordem.

Temos de desviar do esgoto que aflora das entranhas velhas da cidade, construída para suportar uma pequena parte do que hoje é lançado em seu agonizante e desatualizado sistema.

Temos de desviar de obras, algumas que parecem intermináveis, outras que surgem no pacote das promessas para os eventos tão aguardados.

Temos de desviar do trânsito, cada vez mais caótico e que muda a cada realocação de cones e posicionamento dos tantos auxiliares desinformados que ali estão. Despreparados, mal treinados, mas empregados, cumprem uma carga horária para empresas terceirizadas, contratadas pelos nossos prestimosos governantes em tenebrosas transações.

Temos de desviar dos vendedores ambulantes, que tomam conta das calçadas, armazenando e vendendo todo tipo de mercadoria. Algumas vezes de forma sazonal, outras de modo permanente. Algumas vezes em hordas migratórias, buscando o melhor ponto de venda ou o horário mais adequado, acordado e conhecido, para não serem “incomodados” pela Guarda Municipal (omissa, conivente, inerte e despreparada).

Temos de desviar de nossas misérias, que se materializam na forma de tantos seres humanos vivendo como animais, em condições degradantes e que têm nas ruas do Rio sua casa, seu terreno, sua cama e sua latrina.

Temos de desviar dos que pedem. E são tantos. Uniformizados ou não, organizados ou não. Alguns com crianças, alguns com pranchetas. Alguns daqueles com crianças, explorando criminosamente o que seria nosso futuro. Aqueles com pranchetas, vestindo camisas de diversas instituições, se multiplicam e se revezam numa abordagem inconveniente e inoportuna.

Temos de desviar dos que tomam. Crianças, adolescentes e adultos, respaldados pela inércia das autoridades, pela ineficiência de nossa legislação e pela incompetência de nossos gestores. Roubam de cabeça erguida, arrogantemente subtraindo nossos bens e nossa paz e nossa liberdade, adicionando a desconfiança e o medo, dividindo sua desesperança e multiplicando a violência.

Temos de desviar do irritante efeito externo dos milhares de aparelhos de ar-condicionado que foram instalados sem obedecer a Lei existente, que discorre sobre o gotejamento externo, e que não é cumprida, não é exigida, não é respeitada. Como tantas outras, a LEI N.º 2.749 DE 23 DE MARÇO DE 1999 simplesmente não pegou.

Temos até mesmo de desviar dos que desviam, das pessoas que parecem caminhar seguindo a sinuosidade dos desenhos das maltratadas calçadas portuguesas, das pessoas que seguem egoistamente seus caminhos tendo como horizonte a tela de seus celulares.

E, por fim, infelizmente estamos desviando nosso olhar dos numerosos e centenários monumentos, das paisagens que tanto encantam o mundo, registradas em cartões postais e em nossa memória (os que têm a sorte de pelo menos em memória guardar tais imagens).

O Rio de Janeiro continua lindo. Mas são muitos os obstáculos que nos impedem de ver tamanha beleza.

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...