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quinta-feira, dezembro 15, 2016

O Brasil num momento Jânio

A foto  
 
Uma das fotos que mais gosto. 
Quase impossível segurar o riso. 
Erno Schneider é o fotógrafo. 
Jânio Quadros é o retratato. 

Presidente do Brasil por 207 dias no ano de 1961. 
Depois de Kubitschek
Antes de Ranieri
Numa década nada monótona. 

Clicada em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, 
em 21 de abril de 1961, a foto ficou famosa,
não apenas por ser engraçada (é hilária!), 
mas por retratar o momento político do país.
Venceu o Prêmio Esso de Jornalismo em 1962.
“Pra que lado eu vou?”

Obrigado por compartilhar. Lembre-se de citar a fonte: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/janio-quadros-renuncia/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues

O fato é que a considero, em essência, muito atual. 
O Brasil está desse jeito. 
Num momento Jânio. Tipo “Pra que lado eu vou?”

Meio seguindo em frente, meio retrocedendo
Meio parado, meio avançando 
Meio indo, meio vindo 
Meio lá, meio cá 
Meio estático, meio em movimento 
Meio agindo, meio assistindo 
Meio a fim, meio ao fim 
Meio partindo, meio partido
Meio ao meio



terça-feira, março 04, 2014

Incomodo.doc - racismos, preconceitos, blábláblás e confusões

Mais uma vez esse assunto. Talvez, quem sabe, um dia isso vire tema exclusivamente dos livros de história, iguais aos que jazem empoeirados nos velhos sebos. Por enquanto, infelizmente, faz parte do cotidiano de muitos. Alguns percebem, outros não. Algumas vezes ganha repercussão, com grande estardalhaço, pitadas de sensacionalismo, a turma dos “movimentos”, a galera do “deixa disso”, capas de jornais e revistas, reportagens especiais, blábláblá… até que surge algo mais “quente” e bola pra frente, vamu-qui-vamu, vira a página. Mas o assunto continua. Em outro lugar, com outro alguém.

Há muito tempo que não escrevo. Já escrevi sobre esses “hiatos”, sobre esse negócio de “não escrever”. Não vou me alongar nessas explicações. Hoje, porém, depois de alguns tweets, vejo um arquivo na área de trabalho. O nome: Incomodo.doc. O conteúdo tem quatro linhas:

Incomodo* 
    Elevador
        Zona sul
            Racismo

(*) por isso o nome do arquivo, atribuído automaticamente e aceito~

O arquivo data, como vejo depois de iniciar o texto, de Novembro de 2013. Tenho essa mania de, quando dá vontade de escrever (desabafar em palavras) e não tenho tempo nem inspiração, faço anotações simples, seja em arquivos, seja em e-mails salvos a seguir em rascunho, poucas vezes em papel. Algumas vezes descarto, outras vezes dou continuidade ao projeto. Neste caso, após muitos meses, cá estou tentando concluir. Vamos lá.

Sou negro, como podem ver pela foto do perfil. Uma característica que poderia passar despercebida considerando que vivo num país miscigenado, num Estado com uma população negra relevante, blábláblá.
Mas eis que essa característica simples assume uma relevância absurda quando percebida num ambiente onde sua predominância é baixa, onde não é “esperada” (por alguns, sequer aceita). Tal como um golfinho ou uma baleia quando aparecem numa praia da Zona Sul, quando o fato ganha repercussão uma vez que tais seres estão afastados de sua área (não de seu habitat, pois é o mar). Estão onde não se espera que estejam. São observados, analisados.

Embora não por ser mamífero, também sou observado e analisado, talvez com mais atenção, ao dividir o elevador (aqui mesmo no prédio onde moro) ou ao entrar em estabelecimentos comerciais da região (Supermercado Zona Sul e Hortifruti, por exemplo).

A primeira anotação feita neste arquivo de Novembro de 2013 foi “incomodo”, na forma verbal, primeira pessoa do singular, pois é isso mesmo que percebo: EU incomodo. Um mamífero de pele escura num bairro predominantemente de mamíferos de pele mais clara causa estranheza em muitos mamíferos.

As pessoas mal disfarçam seu incomodo no elevador, por exemplo. Algumas vezes, até me dão privilégio da exclusividade, ao se negarem a adentrar, recusando a gentileza mais que humana daquele tempinho que um mamífero passa “segurando” a porta do elevador para o outro mamífero.

Nos estabelecimentos, notoriamente os citados acima, conto com a prestimosa atenção dos seguranças (alguns à paisana) que me acompanham por cada corredor, cada gôndola. Como declarei recentemente num tweet para o Supermercado Zona Sul, seria patético se não fosse cruel (não encontrei melhor palavra para, naquele momento, exprimir o que sentia).

O absurdo assume certas características por vezes curiosas, por vezes cruéis e/ou essencialmente criminosas. É que o incômodo, muitas vezes gera confusão.

O raciocínio de certa forma é até simples. Sendo um ambiente onde a predominância é de mamíferos de pela clara, um mamífero de pele escura pode assumir um comportamento distinto. Algo excepcional. Afinal, o que ele estaria fazendo “fora de seu habitat”?

Muitas vezes, na rua, em restaurantes, bares ou outros estabelecimentos, eu sou confundido (ou simplesmente relacionado, pela aparência) com algum artista ou jogador de futebol. É interessante, confesso. Mas, não posso dizer que me sinto bem. Estando ou não satisfeito, sou o que sou, e não gosto quando me atribuem, para o bem ou para o mal, algo diferente (seja por ignorância, seja por conceitos pré-concebidos).

Em outras vezes, a maioria na verdade, a confusão é outra. O estereótipo do criminoso, do bandido, do vagabundo, parece se formar nas mentes de seguranças, de porteiros, de policiais, de atendentes, de pessoas comuns, mamíferos com diferente nuances de pele, seja mais clara ou mais escura. E a atenção que me é dispensada se torna incômoda, restritiva, constrangedora, humilhante, cruel, desumana.

Com alguns outros mamíferos de pela escura, além de tudo isso, a “atenção” se torna violenta. Há poucos dias veio à tona a notícia, então quente (clique aqui, tem um vídeo interessante, aqui também), de um mamífero de pele mais escura que foi preso e ficou encarcerado durante mais de duas semanas por ser confundido (olha a confusão aí gente! chora... por que é triste) com um assaltante. A "confusão", me fez lembrar um episódio de um seriado americano:


Racismo versus preconceito. Racismo não existe, somos uma só raça, blábláblá. Ah, mas falamos em racismo num contexto histórico-sociológico e não genético-biológico blábláblá. Ah, mas ninguém no Brasil pode se dizer negro ou branco, dada a intensa miscigenação ao longo da história blábláblá. Ah, mas eu não tenho preconceito, meu melhor amigo é negro, meu namorado é negro, minha namorada é negra, minha mãe/pai é negro, o tio-avô da minha prima de segundo grau é negro, eu sou negro blábláblá.

São tantos livros, tantas pesquisas, tantos artigos, tantos seminários, congressos, simpósios, tantos encontros, tantos documentários, tantos filmes, tantos programas, tantos gráficos, tantas estatísticas, tantas comparações, suposições, afirmações e negações, tanta história, tanta biologia, tanta sociologia, tanta genética, tanto blábláblá…  que vamos nos afastando da simples realidade.

Ser preterido no atendimento ou perseguido em estabelecimentos comerciais, ser evitado em elevadores, ser confundido com famoso ou com bandido, ser preso… ser morto. O ser negro incomoda muita gente. Ser negro pode causar muita confusão.

segunda-feira, novembro 05, 2012

1 ano, 5 meses, 1 dia


Nessas semanas que antecedem a posse do Ministro Joaquim Barbosa, atual vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, como presidente da casa, eu comecei a vislumbrar a possibilidade de o Ministro assumir, interinamente que seja, a Presidência da República. Um presidente negro no Brasil.

A constituição prevê, em seu artigo 80, que “em caso de impedimento do Presidente e do Vice-Presidente, ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da Presidência o Presidente da Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o do Supremo Tribunal Federal”.

Numa pesquisa rápida (ou aqui), tive uma surpresa. Não seria novidade. Entre 14 de Junho 1909 e 15 de Novembro de 1910 o Brasil foi governado por um mulato. Com o falecimento de Affonso Penna, assumiu seu vice, Nilo Procópio Peçanha.

A pesquisa também mostrou que a origem mestiça de Nilo Peçanha não passou incólume aos olhos da sociedade (e da imprensa) na época.  Foi “ridicularizado na imprensa em charges e anedotas que se referiam à cor da sua pele”.

História

Achei bastante interessante também a mensagem apresentada ao Congresso Nacional em 3 de Maio de 1910. Com certeza é um documento histórico importante que apresenta um retrato do Brasil no início do século XX.

Indústria, educação, saneamento, imigração, política externa e interna, iluminação pública, conservação de patrimônio, infraestrutura, seca no nordeste… Está tudo lá.

Destaque para o “abandono” ao assumir a presidência, quando apenas dois ministros aceitaram continuar. E também para o subsidio (e cuidados e benefícios) concedido aos imigrantes.

Vale a pena ler. Em alguns momentos irá parecer algo bem atual. Clique aqui.

sábado, novembro 14, 2009

Coloquem na Ordem do Dia! Já!

Eu mesmo já critiquei (e continuo criticando) algumas ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. As imagens repetidas vezes veiculadas nos telejornais mostram como uma minoria busca externar seu descontentamento com uma injustiça histórica que tem como fruto as mazelas reais e contemporâneas, que também vemos, não apenas na televisão e impressos, mas em nosso dia-a-dia. Embora muitas vezes a conexão da causa com o efeito se faça difícil, as consequências das injustiças e barbaridades cometidas no campo, a forma como os "poderesos" se perpetuaram, podem ser percebidas em nosso cotidiano. Basta parar e refletir. Os fatores exploração e desigualdade caminharam juntos para construir a realidade brasilieira, assim como de outros países. E ainda caminham. O que alimenta isso tudo são os desinteresses e interesses de uns e de outros ou, como demonstrarei, de uns e dos mesmos.

O Brasil é notoriamente um dos países onde o trabalho escravo é mais combatido. Temos aí o Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, que faz um ótimo serviço. Mas parece algo paleativo. Um crime tão hediondo como a exploração do trabalho escravo deve ser combatido com toda força da sociedade e do Estado. E até que doa no bolso dos criminosos, os grande fazendeiros neo-escravocratas, essa ferida história continuará aberta.

Um importante recurso legal está parado praticamente desde sua proposição. Trata-se da Proposta de Emenda à Constituição número 438 de autoria do Senado Federal Ademir Andrade do PSB/PA. A PEC do Trabalho Escravo, como ficou conhecida, foi apresentada ao Senado Federal em 1° de Novembro de 2001. Clique aqui ou aqui para ver o diário da Câmara dos Deputados onde a PEC foi publicada.
A PEC estabelece "a pena de perdimento da gleba onde for constada a exploração de trabalho escravo (expropriação de terras), revertendo a área ao assentamento dos colonos que já trabalhavam na respectiva gleba. Altera a Constituição Federal de 1988.". Resumindo, se constatado trabalho escravo, perde a fazenda!

E, pelo histórico do andamento na Câmara, que podemos consultar aqui, pode-se ver os desinteresses e os interesses dos ilustres parlamentares. Desinteresse em mudar a triste realidade social, onde em pleno século 21 temos a utilização do trabalho escravo como "ferramenta produtiva" e ao mesmo tempo o interesse desse mesmo grupo (e seus asseclas) em manter as vantagens obtidas ao longo da história.

Fazer com que cães larguem tão suculento osso é mesmo difícil. Mas não impossível.

Existem um abaixo-assinado pela aprovação imediata da PEC 438/2001, a PEC do Trabalho Escravo. Até o momento, cerca de 165890 aderiram tanto na versão em papel, como também via Internet. É pouco, mas é um começo.

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...