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domingo, agosto 07, 2011

Livros abertos, livros ligados

Dia desses estava eu no ônibus da empresa e abri um livro. Ao me lado sentou um senhor e ligou o seu. Dispensável dizer que o objetivo de ambos era o mesmo: aproveitar o tempo de deslocamento para a leitura. Mas não deixa de ser visualmente impactante a maneira como o objetivo de ambos era atingido.

Meu livro, o de abrir, não era velho. Comprei há uns 15 anos talvez, quando assinava a Reader’s Digest e sempre adquiria as coletâneas de quatro livros em um. A baixa qualidade do papel, somada a falta de cuidado técnico para sua conservação, deu ao livro um aspecto muito antigo.

Já o do colega ao lado, o livro de ligar, emanava novidade, modernidade. O brilho da tela, as letras bem definidas, o design futurístico. Detalhes notados num olhar indireto; tão visível e destacado era aquele aparelho que parecia ter sido tirado de um filme de ficção.

A cena ficava ainda mais interessante ao ser analisada em seu conjunto, pois a idade dos leitores era inversamente proporcional à idade da mídia que cada um lia.

Os livros em formato digital já existem há algum tempo. Muito antes dos chamados e-Readers, ou dos computadores em formato de prancheta, os Tablets, os livros já podiam ser lidos na tela dos computadores pessoais. Sejam as páginas digitalizadas, sejam livros digitais com programas para “simular” algumas características do livro em papel, tanto para exibição, como para o ato de ler.

Tenho certa resistência a essas novidades. Lembro que o primeiro livro que “baixei” foi Drácula, de Bram Stoker. Cheguei a iniciar uma leitura, mas ficou por aí. Talvez pelo fascínio que a Biblioteca tradicional (será que de agora em diante teremos de classificar a biblioteca?) me desperta, talvez por ser antiquado, continuo sendo amante e usuário de livros à maneira antiga.

Como ser humano, sou caracterizado, dentre outras coisas, pela inconstância. Característica essa (cultural, social, biológica, psicológica, antropológica, etc.) que pode transparecer ao longo dos dias, meses, anos, décadas… séculos, milênios. Logo, talvez daqui a algum tempo eu adira aos livros de ligar.

Da mesma forma existe certa inconstância na “vida” dos materiais. Logo, não podemos precisar quando os livros de abrir não mais poderão ser abertos. E quando os livros de ligar não mais poderão ser ligados.

Até lá, haverá pessoas que se abrirão aos livros de ligar, e pessoas que continuarão ligadas nos livros de abrir. E a leitura continuará ligando as pessoas e abrindo as mentes.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Quebrando o silêncio

Admiro muito os escritores, jornalistas, cronistas e blogueiros. Gostaria de escrever mais, com mais constância, com mais regularidade. E também gostaria de produzir textos melhores, mais bem escritos, aprimorando a cadência com que as palavras são lançadas do início ao fim, sem deixar que as ideias expostas percam a coerência.

Além da admiração, tenho profundo respeito pela arte da escrita. É uma arte, talvez como todas as outras, terapêutica. Sim, muitas angústias são extirpadas junto com a derradeira palavra no texto. Em outras postagens cheguei a comentar o que representa, para mim, o ato escrever, e mais especificamente o que escrevo neste blog.

Por isso, esses mais de trinta dias sem que uma única nova linha fosse acrescentada ao TUIST me deixam com certa frustração. Uma sensação de fracasso, para ser extremo. Sei que não há nenhum compromisso formalizado, ou promessa de escrever tantas postagens ou tantas linhas de texto por semana, por mês. Mas não adianta.

Certa vez, durante uma das muitas conversas em mesas de bar, uma amiga contou a um jornalista amigo que eu estava me aventurando na blogosfera. Embora não tenha usado as mesmas palavras, ele me fez uma única pergunta: “Qual a periodicidade com que você publica os textos no seu blog?”. Creio que na época eu tenha respondido “uns 2 por semana”. Não me recordo. Mas qualquer que tenha sido a ordem de grandeza apresentada, eu menti. Bem, não foi realmente uma mentira, pois acreditava que poderia produzir textos com a periodicidade que bem entendesse. Pura arrogância de um novato.

Mas eu estava numa fase em que a natureza de meu trabalho me permitia momentos para isso. Ócio, reflexão, abstração, solidão, concentração. Eu lia mais, pesquisava mais, andava pela cidade observando e formando o que se tornaria uma análise crítica de assuntos tão diversos quanto os que vocês podem ver (ler) desde a primeira postagem, em Dezembro de 2006.

Talvez essa minha limitação, essa minha incapacidade, tenha servido para aumentar meu respeito e admiração por aqueles que melhor escrevem, que mais produzem a arte textual.

Recentemente houve proposta, muito honrosa, especial e que me deixou lisonjeado, de usar essa minha admiração e respeito para atuar profissionalmente, de forma remunerada inclusive. Como ainda não se concretizou, não entrarei em detalhes. Mas são coisas que a arte oferece.

A limitação sobre a qual me referi acima se agrava por uma dificuldade que tenho em memorizar e abstrair. Isso mesmo! Minha memória é algo lamentável. O que se torna mais preocupante com o passar dos anos :)

Por sua vez, minha abstração não se limita a algo intelectual ou filosófico. Abstrair, no meu caso, requer que uma séria de características físicas, ambientas e emocionais estejam em profunda congruência. É quase uma utopia!

Por isso, me protejo sob o manto do amadorismo. Sou um blogueiro-escritor amador.

Essa, digamos, reflexão sobre a escrita se tornou uma constante em minha vida. Porém, recentemente me sinto mais instigado a pensar sobre isso, pois estou cada vez mais admirado com a capacidade e até brilhantismo com que alguns escrevem. Para ser mais específico, cito um livro denso em seu volume (são quase mil páginas) escrito por Ana Maria Gonçalvez. Trata do romance “Um defeito de cor”.

A personagem principal, narradora (e escritora, pois é a história de uma história) chama-se Kahinde. E, quanto mais me aproximo das últimas páginas (neste momento estou na página 917) mais sinto um misto de medo e saudades por chegar ao fim deste romance e não mais acompanhar a vida desta personagem. Este sentimento, confuso e estranho, eu confesso, me faz perceber o quão envolvente uma obra escrita pode ser. E a construção desta obra é algo que me impressiona. Quase mil páginas de coerência em uma história que nada tem de tediosa, que envolve, que instiga, que ensina, que desperta sentimentos extremos como o amor e o ódio, que emociona, que choca, que diverte...

Em parte do enredo, essa história épica lembra um pouco outro livro que me emocionou. “Negras Raízes” de Alex Haley. Lembro que sua leitura me fazia esquecer do demorado e desconfortável trajeto de casa ao trabalho e vice-versa. Foram muitos os livros que me ajudaram nesse momento da minha vida. E mesmo em casa, criando meu próprio mundo entre quatro paredes, me isolando de situações um tanto... destrutivas... Bem, mas o fato é que, numa das passagens desse incrível livro, foi impossível segurar as lágrimas, mesmo estando naquele ônibus lotado. Até hoje não sei se alguém percebeu. Tanto faz. A passagem a que me refiro foi quando o autor descreve a situação dos escravizados no navio negreiro, que sequestrou o personagem principal, Kunta Kinte, levando-o para o novo continente.

Essa narrativa que emociona, esse poder de construir textos que despertam tanta emoção, essa é a arte que mais admiro. E não falo apenas de romances. Textos jornalísticos, críticas, científicos, dentre outros, quando bem escritos, sempre despertam pelo menos minha admiração.

Bem, esta foi a maneira que encontrei para quebrar o silêncio. Espero que a inspiração esteja sempre presente, ou pelo menos seja mais constante, assim como a disposição para lançar mais palavras no TUIST.

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...