segunda-feira, maio 10, 2010

Política de dominação

Parece que ele aprendeu. E aperfeiçoou essa tal política.

Creio que o Brasil tem um sério problema de memória. E memória num contexto social. Ela é seletiva, funcionando quando interessar. Mas é também planejada e cultivada de maneira sutil e eu diria até profissional de maneira a moldar e a conduzir a sociedade de acordo com os interesses de um ou outro grupo.

Algumas vezes, eventos e ações, que dão corpo a essa memória, são registrados. Temos então os documentos, os arquivos. Nem sempre esses documentos nos são acessíveis da maneira como deveriam segundo a lei. Outras vezes, porém, tais registros constitutivos de nossa memória são publicizados, tornados acessíveis mesmo fora do âmbito do Estado. Com a ajuda das novas tecnologias essas ocasiões têm sido mais frequentes.

Entretanto, a problemática da memória na trama da política de dominação não estaria completa sem o que chamo de política de ignorância. Este, um crime perpetrado ao longo de décadas. Se, no primeiro caso, temos afetada nossa memória, neste é ceifada nossa capacidade crítica. Passamos a aceitar, tal como os gados da canção de Zé Ramalho.

Desta forma, temos o documento, temos acesso aos arquivos, mas sem a capacidade crítica para interpretar a informação transmitida pela ação/evento alí registrada e contextualizá-la com nossa realidade, esse documento é banalizado. Crime perfeito!

sábado, maio 08, 2010



Marcapasso da compreensão


O marcapasso é um dispositivo que produz um estímulo elétrico conduzido até o coração quando este apresenta um número de batimentos abaixo do adequado para o funcionamento do organismo, para manutenção da vida. O aparelho compreende que nossa bomba interna precisa ser ajustada e faz esse ajuste.





Homem é baleado na cabeça ao tentar entrar numa agência bancária. O cliente havia sido foi barrado na porta giratória por usar um marcapasso. O crime foi cometido pelo segurança do banco, que está preso. O Banco emitiu nota lamentando e ao mesmo tempo se defendendo, com uma observação sobre o segurança ser de empresa terceirizada. Seria melhor não terem emitido a nota. Ora, será que a empresa a qual pertence o segurança se apossou do banco naquele momento? A agência bancária é de quem afinal?

Quando ouvi a notícia, além de ficar chocado com a violência gratuita (eu ainda me choco), fiquei imaginando como seria a vítima. Sem mais delongas, imaginei naquele momento qual seria a cor de sua pele. Não seria a primeira vez. Dois dias depois eu vi a foto da vítima, o Sr. Domingos Conceição dos Santos. E a dúvida que tive ao ouvir a notícia se dissipou.

Lembram-se do caso do jornaleiro assassinado em 2006 por um segurança do banco Itaú no Rio de Janeiro? O mesmo cenário, os mesmos tipos, a mesma tragédia.

Fico muito intrigado quando ouço discursos vazios e ao mesmo tempo calorosos a respeito das questões raciais no Brasil – ah, pela enésima vez, raça aqui considerada como fenômeno social, sociológico, já que todos sabemos que a palavra é inapropriada e incorreta se aplicada num contexto biológico. Na rua, nos meios de comunicação, no trabalho, nas conversas de botequim... parece que é sempre a mesma coisa. E aí me vem a mente o tratamento que recebi em determinado estabelecimento comercial, a reação da pessoa à frente na calçada ou ao ocupar o lugar vazio no ônibus, ou o repúdio ao lugar vazio quando este é ao meu lado. Me vem em mente comentários sutis com clara conotação racial, seja rebaixando, seja preconceituando ou mesmo conceituando de maneira negativa as pessoas cuja pele é negra em suas várias nuances. Por vezes, tais comentários ou expressões são usados sem que o falante tenha consciência do falado, tamanha é a incorporação e a naturalização disso. Como dizem, está no sangue.

Gostaria que analisassem quando uma pessoa (pode ser você) usa a gíria/expressão “nego” ou “neguinho” ou a forma ainda mais reduzida e simplificada “neguim”. Nego é, neguinho fez, neguinho aconteceu... Contem quantas vezes esse “neguim” ou esse “neguinho” ou esse “nego” representa um sujeito que realizou coisas boas. Acreditem, é um teste interessante.

Alex de Castro, do LLL escreveu um post muito interessante sobre isso há uns dois anos. O título é
O uso do nego. Também indico Quem sabe da ofensa é o ofendido, do mesmo blogueiro.

Essas situações me permitem ter uma percepção do ponto de vista do segurança do banco, da loja de departamentos, do supermercado, da atendente da lanchonete, da pessoa na calçada, no ônibus, do colega do trabalho, do colégio. Se nas pequenas situações, no cotidiano, essas sutilezas foram tão enraizadas, tão cruelmente naturalizadas no agir, no falar, no olhar de tantos (e esses tantos não se restringem a uma etnia) dificilmente eu explicaria a ação do segurança da agência como um reflexo livre do contexto racial. Essa má resolvida mazela.

Esse e outros seguranças – não todos, pois generalizar seria um erro – não são preparados para dar segurança às pessoas (e nem à instituições). Não estão preparados para lidar com seres humanos e, justamente por isso, são nocivos aos seres humanos. E estão armados.

Acho que as pessoas deveriam todas usar um marcapasso. Não especificamente para o funcionamento de nossa bomba interna, mas um que emitisse um estímulo a nossa consciência todas as vezes que detectasse que nossa visão do outro está sendo deturpada por nossos preconceitos (ou conceitos). Um marcapasso que nos permitisse compreender que o outro somos nós.


"Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter." - Martin Luther King

quinta-feira, maio 06, 2010

O tempo e eu

Houve um tempo em que eu admirava mais o céu, o formato das nuvens, o brilho e o posicionamento das estrelas, as nuances de azul num dia claro, o som refrescante da chuva após momentos de calor, a força e a luminosidade de raios rasgando o firmamento, o despontar extasiante do Sol num horizonte ou seu saudoso “até logo” noutro.

Houve um tempo em que o curto trajeto ao mercado próximo era uma aventura cheia de possibilidades, mistérios. E em que a mesma distância, de uma quadra, em outra direção, também oferecia a deliciosa angústia do acaso, do novo, em que um quarteirão era um mundo, em que tudo tinha seu ritmo, seu momento, seu tempo.

Houve um tempo em que eu brincava mais. Um tempo que eu plantava e via crescer e colhia e me gabava daquele fruto. Um tempo de cheiros, de sons, de ares que hoje não estão mais aqui. Um tempo em que subia na goiabeira para colher a delícia vermelha ou branca que fazia parte dos meus dias. Houve um tempo de goiaba branca.

Houve um tempo em que eu jogava bola-de-gude. Jogava búlica, triangulo, mata-mata. Um tempo de unhas arranhadas e pensamento liso, de mãos sujas e consciência limpa. Um tempo de pés descalços, de peito aberto, de cabeça erguida. Foi o tempo da altivez da criança na rua. Aliás, naquele tempo a criança de rua era tão somente o infante com vitalidade, espaço, segurança e animação suficientes para brincar durante quase todo o dia.

Houve um tempo em que minhas feridas, mais que constantes, se limitavam a joelhos ralados, dedões esfolados, pés furados e mãos escoriadas. Um tempo em que a consciência da coisas, das pessoas, do mundo, ainda não havia amadurecido.

Houve um tempo em que minha canja tinha pés de galinha, em que comia feijão misturado à farinha e carne seca desfiada, fazendo bolinhos com a mão. Nesse tempo eu aguardava ansioso o refogado de ponta de abóbora – o broto da abóbora – que colhíamos nos matos da proximidade, assim como a papa de angu com caruru-do-mato. Nomes e modos que causam estranheza para os viventes de hoje. Mas houve esse tempo.

Houve um tempo em que o bolo era de tabuleiro, belo e cheiroso e saboroso em sua disformidade. O tempo em que uma garrafa de refrigerante conseguia deixar feliz e satisfeitos a todos... e eram tantos. Houve um tempo de feliz satisfação.

Houve um tempo de contemplação, em que os sentidos se detinham durante minutos sem fim em coisas simples, como no carro que passa, na fileira de formigas seguindo indistintamente seu destino, na menina que caminha para a escola, no adulto que chama, na criança que se diverte, no silêncio do nada, na grandiosidade de tudo.

Houve um tempo de dificuldades, um tempo de grandes tristezas e pequenas alegrias. Um tempo de muitas lágrimas e poucos risos. Um tempo de ausências, de desamparo, de medo. Houve um tempo de cobranças cruéis, um tempo de palavras rudes, de atitudes impensadas.

Houve um tempo de alegrias fugazes, de passeios na carcunda do pai, do corte de cabelo num domingo de sol, de praias em outro mundo, passando por paisagens estranhas. Houve um tempo de uma quase família, ou de uma família que quase...

Houve um tempo de exemplos a não serem seguidos, mas a serem usados ao longo dos tempos. Houve um tempo de marcas, um tempo de carências, um tempo de construção e desconstrução. Houve um tempo de sonhos, um tempo de ilusões. Um tempo de realidades nuas e cruas. Houve um tempo de aprendizado, de crescimento.

Houve um tempo do colo de mãe, das batidas dos corações entrando em sincronia, dos ruídos de um mundo estranho chegando, abafados, através daquele abrigo conhecido. Houve um tempo de proteção, de amparo.

Houve todo esse tempo, um tempo que passa, um tempo permanece. Houve um tempo em que eu pensava que não haveria tanto tempo. Mas houve todo esse tempo e mais algum tempo e haveriam outros tempos, tempos que resultaram em mim.

terça-feira, maio 04, 2010

A Bruxa, as Malandrinhas e os Arquivos

As duas reportagens exibidas no último Domingo (2) no programa Fantástico falam por si. Seja na monstruosidade da procuradora, seja na falta de caráter e ética das três estudantes de medicina de Maringá.

Na primeira, a grande dúvida é como alguém permite que uma facínora tenha a guarda, mesmo que provisória, de uma criança. Agora com o agravante: a justiça (sic) já havia topado com a criatura bestial. Na segunda história temos jovens acima de qualquer suspeita... até que as analisemos a luz da ética, da lei, do que é justo e do que é de bem. O agravante neste segundo caso, a meu ver, é que elas (e tantos outros) acreditam estar fazendo algo aceitável, normal, tolerável. Reparem no depoimento do diretor da instituição.

Três estudantes de medicina da Uningá, em Maringá (PR) recebem bolsa integral da ProUni. Elas não preenchem os requisitos para ter o benefício



Ficou constatada as lesões em datas diferentes, em um período de 30 dias. Vera tinha conseguido a guarda provisória e o direito de ficar com a menina enquanto aguardava a adoção definitiva.



Mas tudo isso é notório. A repugnância que ambas as demonstrações de sordidez geram não é apenas em mim.

Gostaria, porém, de abordar os casos sob outro ângulo. Quando penso na questão da informação, dos arquivos, vejo que as duas têm algo em comum: o mau uso ou o desuso da informação. É simples, e explico meu ponto de vista em cada caso.

Das criminosas de Maringá - Para obter o benefício, as estudantes devem apresentar documentos que comprovem a situação financeira de sua família. Todos esses dados passam (ou deveria passar) por análise. Como é um programa federal, o cadastro dessas estudantes é composto por esses dados, dentre eles, os CPFs dos pais. Logo, a União tinha essa informação. Com toda a informatização que temos hoje, com um dos mais modernos sistemas para declarações de renda existe, é difícil acreditar que uma auditoria automática não poderia ser feita regularmente nos beneficiários do programa. Ou não há interesse, ou a informação está de tal maneira desorganizada que dificulta ou mesmo inviabiliza seu uso.

Da megera agressora no Rio - Essa criatura horrenda que torturou a criança já havia aprontado das suas. As ações criminosas do passado geraram informações que ficaram registradas em documentos de órgãos do Estado. Esse mesmo Estado intermediou e deu o "ok" para a guarda provisória. Será que procuraram conhecer o passado dessa anomalia em forma de pessoa? Não se trata de uma pesquisa em cartório ou entrevista com parentes e conhecidos ou seções de interrogatório. Bastava buscar a ficha da canalha no "armário da sala ao lado".
A informação, em ambos os casos, existia. Se os jornais tiveram acesso! Porém, não houve interesse de uso. Eu digo interesse, pois, com certeza, se interessasse aos ocupantes de cargos públicos que a informação - pública - fosse acessível, ambos os crimes poderiam ser facilmente coibidos.

O resultado dessa falta de gestão informacional, que se apresenta em várias esferas do poder público (e em muitas empresas do setor privado) é esse: num caso, dinheiro que poderia literalmente salvar vidas, se bem empregado, estava servindo para bancar três (e quantas outras?) patricinhas numa faculdade de quinta categoria e, pelo visto, corrupta; no outro, as marcas foram deixadas no corpo de uma criança de dois anos, em atos de covardia desferidos durante semanas.

São duas tragédias que vieram a público. Quantas outras ignoramos?

segunda-feira, maio 03, 2010

Cuca fresca e a imagem da Prefeitura

As fotos foram tiradas neste Domingo, dia 02 de Maio, na Praia do Flamengo. Mostram a falta de conservação dos vaporizadores de água, conhecidos como Cuca Fresca. Os aparelhos estão corroídos pela oxidação típica de áreas próximas à praia e os filtros estão visivelmente carecendo de troca ou limpeza.

A Prefeitura poderia explorar o painel como área de propaganda para empresas em troca da manutenção. Mas, pelo que se vê, faz propaganda da própria prefeitura. E um marketing negativo, associando a Prefeitura e Comlurb - Companhia Municipal de Limpeza Urbana - com uma imagem desgastada, abandonada, suja e perigosa. Ou seria intencional?

sábado, maio 01, 2010

e-Everything

e-Messenger
e-Mail
e-Bay
e-Book
e-Document
e-Bit
e-Business
e-Learning
e-Commerce
e-Link
e-Gov
e-Mule
e-Hunter
e-Hosting
e-Ticket
e-Journal
e-Magazine
e-News
e-File
e-Paper
e-Store
e-Zone
e-Jus
e-Law
e-Reader
e-Gift
e-Question
e-Anwer
e-World
e-Family
e-Contact
e-Look
e-Hug
e-Smile
e-Sex
e-Kiss
e-Love
e-Kid
e-Man
e-Woman
e-Me
e-You

e-Human (?)

I don´t think so.
I don´t wanna so.
I need to take out some "e-" from my life.

And you?
African Pictures

A menina no mercado

Havia uma menina no mercado. Devia ter uns 12 anos. Talvez menos. Estava atrás de mim no caixa. Tinha dois pacotes de macarrão instantâneo n...